15 de agosto de 2012

UMUNDUNU - "SE A OPORTUNIDADE FAZ O LADRÃO...

A oportunidade também faz a prostituta.”

Julgar é errado... Já diziam os ensinamentos da Igreja Católica. “Vender o corpo é pecado...” Dizem os padres e pastores em seus sermões e cultos. Independente de crença ou da religião é necessário ponderar os atos do trabalho de alguém antes de dizer se certo ou errado. Fato, é que assim como existem aqueles que roubam por necessidade ou ganância – e convenhamos que este não é o caso apenas dos ladrões de rua – a garota de programa também tem suas ambições e vontades.

O sexo cobrado é visto como indigno, mas a realidade das prostitutas não é diferente de outros trabalhadores. Desde aquela menina que não conseguiu emprego após uma passagem pelo presídio, até a burguesinha de 18 anos que não se contenta com o dinheiro do papai, todas estão atrás daquilo que o mundo inteiro deseja: dinheiro.

Seu nome na noite é Micaela. Loira de olhos esverdeados. 24 anos bem distribuídos em seios fartos e curvas marcantes. O tipo de mulher de personalidade forte que não precisa de alguém dizendo o que fazer e como levar sua vida.

Sua vida é o que podemos chamar de dupla. Em casa, com a família, *Carina é conhecida por seu nome de batismo e se comporta de uma maneira completamente diferente. Sua mãe, sua filha adotada e seu namorado nem imaginam que ganha dinheiro com o sexo. Desde que começou a se prostituir ela esconde possíveis marcas no corpo, roupas de trabalho, e diz ser garçonete em uma boate. Pela família, tudo bem. Carina se mostra independente desde os 16 anos, quando saiu de casa, e nunca deu abertura para bisbilhotagem. Por outro lado, a desconfiança do namorado já foi palco de inúmeras brigas, a ponto de tentar segui-la.
No trabalho, Micaela sai para brincar. É obrigada – pelos espinhos do próprio trabalho – a libertar seus instintos mais “selvagens”, assim digamos. Aí ela mostrar aos homens tudo o que tem de bom e torce para que eles a escolham para mostrar tudo o que sabe fazer. Para garantir seu pão, roupas e salão de beleza de cada dia, ela e as outras garotas de programa devem literalmente chamar a atenção de todos os homens do recinto.

Às terças-feiras Micaela chega ao prostíbulo por volta das 14 horas.
Come e descansa – afinal, as prostitutas também têm necessidades físicas – e começa a se arrumar para a noite. Se necessário vai ao cabeleireiro, faz depilação, unhas, maquiagem... Todas estas pequenas coisas que fazem a diferença na vida de qualquer mulher. Neste caso, as pequenas coisas tornam-se essenciais: trabalhar com o corpo exige que o impacto seja grande e causado quase completamente pela beleza. Os 10% que restam são fruto de conversa e relacionamento amigável com o cliente. Mas na verdade, todos eles vão atrás mesmo é daquela menina na casa que mais lhe atrai.

Por volta das 8 da noite ela e as outras meninas descem para o salão e aguardam o início do expediente. Às 9 horas os clientes começam a chegar. Bebida faz parte do cotidiano. Algumas delas – incluindo Micaela – afirmam que o álcool é essencial para que a coragem apareça. Outras preferem a cocaína. De qualquer maneira, é preciso esfriar a cabeça antes de enfrentar o que virá pela frente. Nos dois ou três programas que costumam fazer em uma noite, nem sempre os clientes são bonitos, cheirosos e bem vestidos. Pelo contrário: em sua maioria, são homens com mau hálito, poucos dentes, ou velhos e barrigudos; daqueles que gostam de importunar menininhas na rua e sempre estão caindo na sarjeta às 5 da manhã. Mesmo quando tem interesse em pagar bem, são estes caras que incomodam.

Nos outros dias, até sexta-feira, a rotina continua a mesma: café ou almoço e conversa com as meninas, salão de beleza, descanso e expediente na boate. Aos finais de semana, Micaela vai para casa e vira Carina novamente. Aproveita os momentos com a família, sai com o namorado, curte sua filha pré-adolescente e seus amigos. Ninguém sabe o que ela faz. O preconceito certamente tomaria conta da cabeça de muitos conhecidos e familiares. Carina tem certeza que a discriminação não está apenas nas ruas, mas também dentro de sua própria casa, onde sua profissão seria considerada inaceitável. Quando questionada sobre o que faz se alguém insinua que é garota de programa, ela afirma ignorar: “Ninguém viu, ninguém tirou foto? Então não podem falar que eu sou”.

Segundo Micaela e as outras garotas da boate, o prostíbulo pode ser comparado a uma cadeia feminina. São muitas mulheres diferentes em um lugar só. Todas têm o mesmo propósito, mas nem sempre as relações são amigáveis. A lei da sobrevivência faz com que algumas não entendam a importância de ser igual às outras meninas ali dentro, e as brigas podem acontecer a qualquer momento. “A única diferença, é que aqui tem macho. Cadeia não tem”, afirma *Fernanda, outra menina que trabalha no local.

“Conheço gente que fala mal de garotas de programa que sustentam marido na cadeia. Apesar de não dizer que sou, eu sempre defendo quando ouço. Afinal: se a oportunidade faz o ladrão... A oportunidade também faz a prostituta”, comenta Fernanda.

Sobre a violência, Micaela deixa claro que, apesar de ilegal, o prostíbulo é o único lugar que gera proteção às meninas da noite: “É normal o homem xingar na cama e as mulheres fazerem barulho. Mas aqui dentro, se em algum momento os gemidos se tornarem estranhos existem seguranças de prontidão para socorrer. Por esta razão e pelo pagamento que é feito pelo cliente antes de ir para o quarto, eles não tentam nada contra nós. Quem sofre mais com a violência são as garotas que ficam na rua”, conta.

As ambições e objetivos de Carina e Micaela se unem. Ela quer continuar por mais alguns anos e ter condições suficientes para cursar Direito e se especializar na área criminal. Além disto, está prestes a realizar um de seus maiores sonhos e motivo principal para entrar na noite: comprar uma casa. Se o dia não é bom, ela simplesmente segue em frente. “Como qualquer pessoa lá fora, a gente dorme na esperança do dia seguinte”, desabafa.

*Carina – nome fictício para ilustrar o verdadeiro de Micaela.
*Fernanda – nome fictício da outra garota de programa.

Crédito da imagem: Cellar Fcp


Colaboração de Nathalia Abreu
(nathaliaabreu.blogspot.com)

2 comentários:

  1. Cada um da o que tem de melhor, uns são estagiários, outros faxieniros, no fim, todo mundo engole sapos gordos para pagar as contas no fim do mês. Adorei o texto Naths!
    Beijo

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  2. muito bom nathy..parabéns...

    a sociedade consumista tem esse fardo...de ter q sempre comprar, ter dinheiro e gastar como eles gastam na novela e nos filmes...a forma como conseguimos é indiferente o importante pra sociedade é que gastamos, compramos e acima de tudo paguemos impostos pra eles conseguirem "faturar" mais .

    beijos

    paz e amor

    diego lobato

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