18 de outubro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS


Noches de juegos
Vigésimo Quinto Capítulo - O mesmo e o outro

Eu mesmo, é isso! Só eu poderia e deveria ser aquele que vai imortalizar o personagem que criou e trouxe para a realidade. Aquele que deseja ardentemente despertar os olhares de diversos autores para escolher, dentre eles, aquele que mais lhe agrada. O escritor cuja genialidade acarretará recordes de vendas e galerias de troféus. Um ser assim tão especial que mesmo os leitores mais esclarecidos duvidarão de sua humanidade

Deste modo refletiu Jorge Onofre enquanto presenciava Olivério oferecendo sua história de vida a João Franco. Uma velha bolsa de couro contendo a correspondência que mantivera com a mãe desde a infância no internato de Petrópolis, passando pela adolescência em São João del Rei até a ida para São Paulo, já maduro em busca da riqueza

- Aqui estão retratados pelo menos uns trinta e cinco anos da minha vida!
Disse orgulhoso ao cunhado que, perplexo, aceitou a doação.

- O que é que ele espera que eu faça com essa velharia. Pensou angustiado

Aqueles instantes em que vagueava o olhar interrogativo desaguaram direto na mente de Onofre que os observava atento e já na expectativa do desfecho que premedtara.

-Sim! Sobrou para mim, é tudo que eu queria – pensou.  Esta será a história desse Filho infame do capitalismo velhaco, descendente direto da metafísica mercantil. Aquele que traz no DNA o egoísmo renovado que, vergonhosa e descaradamente vem dominando e absorvendo a mente brasileira desde os anos 1930. Aquele cujas vísceras, corroídas pela ganância e a visão turbada pela intangibilidade de absurdos projetos, perambula às apalpadelas. O tal que simultaneamente afortunado e despossuído compartilha seu olhar rútilo e fixo em busca de uma paisagem que se afasta a cada passo dado em sua direção. Aquele cujo semblante estampa um tênue e inequívoco ar de desapontamento. Ele que passa sem se dar conta do olhar indiferente dos seus ídolos enquanto a chuva desaba e desmancha a cidade dos seus sonhos.

Seguia assim mergulhado em conjecturas, quando, conforme previra, foi abordado por João Franco:

- E aí! Aposto minha cabeça como sei em que você está pensado agora.

- A minha não coloco no jogo, sei que você sabe. E então? Entrega logo a “bagaça” e na segunda à tarde dou início à trama.

- Um livro?

- Sim, um romance que se desenrolará a partir do início da era Getúlio até o fim dos anos 1980. O que pensa?

- Penso que você tem que prometer, se quiser mesmo os documentos, que não leva os conceitos que tem cravados na mente e nem tão pouco as antipatias ideológica e pessoal que nutre há muito pelo protagonista.

-Sem dúvida, está fechado, objetividade total, imparcialidade etc! Declarou sorridente.

- Me engana! Eu gosto.

Consentiu João Franco e passou a papelada para o amigo.

Claudio Zumckeller

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