11 de outubro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS


Noches de juegos
Vigésimo Quarto Capítulo - Um coma desperto

O Rio de janeiro seguia belo e solto no tempo e no espaço. A Barra da Tijuca não era ainda um paliteiro cercando o mar. Alguns bares com mesas pelas calçadas e a brisa perfumada acomodavam o adorável encontro.  João Franco finalmente foi conhecer Tânia Mara, a mãe de Lídia.

Durante a viagem noturna a cantoria prevaleceu, o sambista Pedro Carneiro, seu cavaquinho afiado e a esposa Beatriz viajaram no banco traseiro. O sábado amanheceu azul e ensolarado, trafegavam já próximos ao largo do Machado quando tocou o celular de João.

- Uma hora destas! Protestou, meneou a cabeça, mas ao terceiro toque, tratou de estacionar para atender. O número não identificado não impediu.

- Alô, falou irritado e após alguns segundos de silêncio e ouviu do outro lado:

- É você, meu querido!

 - Sim sou eu! Um instante de pausa e reconhecendo a voz, prosseguiu.

- Fala tio!

Esse jeito de dizer “meu quirido” era sua marca patente.

- Ué, me disseram que o senhor estava em coma! Então foi um engano. Melhor assim, emendou passando surpresa e contentamento.

- Que nada! Foi só um susto e já está tudo bem comigo.

  O tom de voz passava credibilidade, percebeu que ele estava mesmo bem. Que bom! Pensou.

- Quem está mal é a vida em geral, meu filho! – disse o tio convicto e iniciou o discurso:

 O mundo está doente. O planeta constipado arde em febre. Precisa de repouso urgente, quem sabe um exílio solitário no espaço com o que restar de fauna e flora. O homem que arranje onde morar enquanto isso, talvez outro torrão, Marte talvez,  ou ainda, um banimento coletivo através de contínuos embarques espaciais, destino qualquer lugar.

- É delírio, refletiu João e quis dizer algo, mas o velho Fausto prosseguia atropelando.

- A humanidade precisa viajar, ser nômade galáxias afora. Feito algumas tribos que partem quando não há mais o que devastar. A gente vai ter que se virar, literalmente. Municípios espaciais à maneira da arca de Noé, quem sabe? Porém levando somente os humanos e outros animais domesticados...

João pasmava com o ritmo que seu interlocutor imprimia à fala. Mas seguia ouvindo atento.

- Imagina o Lulu sem o banho e tosa semanal! Ou Heleninha sem Lulu, comentou irônico, riu e imediatamente continuou.

- Somente a natureza nua e crua, sem acompanhante humano qualquer, ela a sós com ela por uns tempos. Fora daqui, vidas infames, vão cantar em outro terreiro!

Bradava alto e gargalhava sem perder o tom, dava a crer que tinha ensaiado o texto.

- Você há de sorrir, prosseguiu, e dizer que estou pirado e que não vai perder tempo pensando asneira. Vai lembrar que o negócio é ganhar muito dinheiro e ser feliz. Tudo bem vai nessa! Mas não se esquece de apagar a luz quando sair.

O homem vai, com certeza, inventar outra história em outro lugar, ou em lugar algum. Imaginemos, meu filho, é preciso ao menos refletir sobre isto por agora. A possibilidade de nomear outras coisas, dominar outros seres, inventar outros mundos. Enfim, criar outro conto de fadas. Enquanto isso, no vão da nossa ausência, Gaia há de se revitalizar.

E, rejuvenescida, há de criar anticorpos resistentes a ponto de eliminar do seu organismo indesejáveis presenças. Como o corpo humano, quando inflamado e febril, rejeita e expulsa de si estranhos invasores.

- Sentindo que o tio terminou a frase com um longo suspiro e  que a linha caiu em seguida, ficou preocupado e tentou ligar de volta.

Só caixa postal!

À tardinha ao chegar ao apto de Beatriz tornou ligar e foi informado que seu bom tio estava em coma profundo há uma semana e o diagnóstico era irreversível.

- Que porra é essa? – exclamou inconformado e desligou. Mas percebeu que as últimas palavras do bom Fausto tinham ficado gravadas em sua mente.

Claudio Zumckeller

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