28 de outubro de 2011

REALPOLITIK - PORCOS FARDADOS

 Tenho nojo da polícia de São Paulo. São trogloditas, agentes - voluntários e involuntários - do verdadeiro crime organizado, com raízes no topo da hierarquia estatal e ramificações na base mais baixa da pirâmide.

Esses agentes do crime organizado – também conhecidos como coxinhas – agora estão mostrando toda sua eficiência combatendo os perigosíssimos maconheiros da FFLCH (USP).

A polícia no campus não traz mais tranqüilidade. Assassinos armados, sem nenhum preparo, e com o intuito de impor sua autoridade através da violência, não trazem mais tranqüilidade.

Espero que os polícias militares de São Paulo façam seu trabalho, sugiro que comecem deixando de manter suas “biqueiras”, seus prostíbulos e, se possível, parando de assaltar bancos, caixas eletrônicos e de agredir e matar inocentes.

Tenho nojo de vocês. Assassinos, covardes, porcos.

Thiago Menezes

18 de outubro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS


Noches de juegos
Vigésimo Quinto Capítulo - O mesmo e o outro

Eu mesmo, é isso! Só eu poderia e deveria ser aquele que vai imortalizar o personagem que criou e trouxe para a realidade. Aquele que deseja ardentemente despertar os olhares de diversos autores para escolher, dentre eles, aquele que mais lhe agrada. O escritor cuja genialidade acarretará recordes de vendas e galerias de troféus. Um ser assim tão especial que mesmo os leitores mais esclarecidos duvidarão de sua humanidade

Deste modo refletiu Jorge Onofre enquanto presenciava Olivério oferecendo sua história de vida a João Franco. Uma velha bolsa de couro contendo a correspondência que mantivera com a mãe desde a infância no internato de Petrópolis, passando pela adolescência em São João del Rei até a ida para São Paulo, já maduro em busca da riqueza

- Aqui estão retratados pelo menos uns trinta e cinco anos da minha vida!
Disse orgulhoso ao cunhado que, perplexo, aceitou a doação.

- O que é que ele espera que eu faça com essa velharia. Pensou angustiado

Aqueles instantes em que vagueava o olhar interrogativo desaguaram direto na mente de Onofre que os observava atento e já na expectativa do desfecho que premedtara.

-Sim! Sobrou para mim, é tudo que eu queria – pensou.  Esta será a história desse Filho infame do capitalismo velhaco, descendente direto da metafísica mercantil. Aquele que traz no DNA o egoísmo renovado que, vergonhosa e descaradamente vem dominando e absorvendo a mente brasileira desde os anos 1930. Aquele cujas vísceras, corroídas pela ganância e a visão turbada pela intangibilidade de absurdos projetos, perambula às apalpadelas. O tal que simultaneamente afortunado e despossuído compartilha seu olhar rútilo e fixo em busca de uma paisagem que se afasta a cada passo dado em sua direção. Aquele cujo semblante estampa um tênue e inequívoco ar de desapontamento. Ele que passa sem se dar conta do olhar indiferente dos seus ídolos enquanto a chuva desaba e desmancha a cidade dos seus sonhos.

Seguia assim mergulhado em conjecturas, quando, conforme previra, foi abordado por João Franco:

- E aí! Aposto minha cabeça como sei em que você está pensado agora.

- A minha não coloco no jogo, sei que você sabe. E então? Entrega logo a “bagaça” e na segunda à tarde dou início à trama.

- Um livro?

- Sim, um romance que se desenrolará a partir do início da era Getúlio até o fim dos anos 1980. O que pensa?

- Penso que você tem que prometer, se quiser mesmo os documentos, que não leva os conceitos que tem cravados na mente e nem tão pouco as antipatias ideológica e pessoal que nutre há muito pelo protagonista.

-Sem dúvida, está fechado, objetividade total, imparcialidade etc! Declarou sorridente.

- Me engana! Eu gosto.

Consentiu João Franco e passou a papelada para o amigo.

Claudio Zumckeller

11 de outubro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS


Noches de juegos
Vigésimo Quarto Capítulo - Um coma desperto

O Rio de janeiro seguia belo e solto no tempo e no espaço. A Barra da Tijuca não era ainda um paliteiro cercando o mar. Alguns bares com mesas pelas calçadas e a brisa perfumada acomodavam o adorável encontro.  João Franco finalmente foi conhecer Tânia Mara, a mãe de Lídia.

Durante a viagem noturna a cantoria prevaleceu, o sambista Pedro Carneiro, seu cavaquinho afiado e a esposa Beatriz viajaram no banco traseiro. O sábado amanheceu azul e ensolarado, trafegavam já próximos ao largo do Machado quando tocou o celular de João.

- Uma hora destas! Protestou, meneou a cabeça, mas ao terceiro toque, tratou de estacionar para atender. O número não identificado não impediu.

- Alô, falou irritado e após alguns segundos de silêncio e ouviu do outro lado:

- É você, meu querido!

 - Sim sou eu! Um instante de pausa e reconhecendo a voz, prosseguiu.

- Fala tio!

Esse jeito de dizer “meu quirido” era sua marca patente.

- Ué, me disseram que o senhor estava em coma! Então foi um engano. Melhor assim, emendou passando surpresa e contentamento.

- Que nada! Foi só um susto e já está tudo bem comigo.

  O tom de voz passava credibilidade, percebeu que ele estava mesmo bem. Que bom! Pensou.

- Quem está mal é a vida em geral, meu filho! – disse o tio convicto e iniciou o discurso:

 O mundo está doente. O planeta constipado arde em febre. Precisa de repouso urgente, quem sabe um exílio solitário no espaço com o que restar de fauna e flora. O homem que arranje onde morar enquanto isso, talvez outro torrão, Marte talvez,  ou ainda, um banimento coletivo através de contínuos embarques espaciais, destino qualquer lugar.

- É delírio, refletiu João e quis dizer algo, mas o velho Fausto prosseguia atropelando.

- A humanidade precisa viajar, ser nômade galáxias afora. Feito algumas tribos que partem quando não há mais o que devastar. A gente vai ter que se virar, literalmente. Municípios espaciais à maneira da arca de Noé, quem sabe? Porém levando somente os humanos e outros animais domesticados...

João pasmava com o ritmo que seu interlocutor imprimia à fala. Mas seguia ouvindo atento.

- Imagina o Lulu sem o banho e tosa semanal! Ou Heleninha sem Lulu, comentou irônico, riu e imediatamente continuou.

- Somente a natureza nua e crua, sem acompanhante humano qualquer, ela a sós com ela por uns tempos. Fora daqui, vidas infames, vão cantar em outro terreiro!

Bradava alto e gargalhava sem perder o tom, dava a crer que tinha ensaiado o texto.

- Você há de sorrir, prosseguiu, e dizer que estou pirado e que não vai perder tempo pensando asneira. Vai lembrar que o negócio é ganhar muito dinheiro e ser feliz. Tudo bem vai nessa! Mas não se esquece de apagar a luz quando sair.

O homem vai, com certeza, inventar outra história em outro lugar, ou em lugar algum. Imaginemos, meu filho, é preciso ao menos refletir sobre isto por agora. A possibilidade de nomear outras coisas, dominar outros seres, inventar outros mundos. Enfim, criar outro conto de fadas. Enquanto isso, no vão da nossa ausência, Gaia há de se revitalizar.

E, rejuvenescida, há de criar anticorpos resistentes a ponto de eliminar do seu organismo indesejáveis presenças. Como o corpo humano, quando inflamado e febril, rejeita e expulsa de si estranhos invasores.

- Sentindo que o tio terminou a frase com um longo suspiro e  que a linha caiu em seguida, ficou preocupado e tentou ligar de volta.

Só caixa postal!

À tardinha ao chegar ao apto de Beatriz tornou ligar e foi informado que seu bom tio estava em coma profundo há uma semana e o diagnóstico era irreversível.

- Que porra é essa? – exclamou inconformado e desligou. Mas percebeu que as últimas palavras do bom Fausto tinham ficado gravadas em sua mente.

Claudio Zumckeller