20 de setembro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS



Noches de juegos
Vigésimo Terceiro Capítulo - Males que vem para pior


Quando já não mais sonhava com a possibilidade de tornar-se o personagem literário que julgava viver convicta e cotidianamente, Jorge Onofre, por acaso, encontrou seu autor. Naquela noite mesmo consentiu: é esse o cara que vai me tornar imortal
 Foi durante o jantar em que se discutia a possibilidade da internação de Quitéria Pessoa. O mal de Alzheimer a atacara sem piedade.

 O fim do romance com Alzirinha não influiu na continuidade da amizade que Jorge cultivara com a família e sempre que havia um fato importante, lá estava ele encabeçando a lista de convidados.

Desta vez eram cinco à mesa: Quitéria, na cabeceira, navegava em uma espécie de autismo que variava momentos de extrema lucidez intercalados com lances de curiosos disparates.

- Há algum tempo ela se diverte repetidamente com as mesmas lembranças, deleita-se com elas como quem compartilha pela primeira vez. Certamente guarda esses momentos bons como tesouro.

Comentou Olivério, visando passar certa tranqüilidade para aliviar o peso que a esposa e o cunhado carregavam pelo estado da mãe.

Como quem não tivesse compreendido o comentário, Alzirinha emendou compenetrada.

- É triste essa doença! Muito triste..., vem pegando muita gente. Talvez seja porque as pessoas em geral estão durando mais. Ouvi dizer que a média da expectativa de vida vai, atualmente, beirando os 80 anos.  Mas os cérebros parecem não acompanhar.

 - É...! Aí está o grande desafio: belos rostos, corpos conservados, mas sem o comando central. Adios razão!

Arrematou João Franco, após molhar o verbo no tinto chileno que estava servido e prosseguir:

- Mas o homem vai, com certeza, inventar outra história em outro lugar, ou em lugar algum. Imaginemos, é preciso refletir sobre isto agora. A possibilidade de dar outros nomes às coisas, dominar outros seres, inventar outro mundo enfim. Criar outro conto da carochinha, ou uma burla de melhor gosto e menor desastre. Outra metafísica, só uma decente ao menos, já que ser e deixar ser ficou complexo demais. Enquanto isso, no vão dessa ausência...

Naquele momento, uma lágrima brotou em seu olhar. Ele percebeu que Quitéria com redobrado ânimo, não só acompanhava sua reflexão como esboçava certa ansiedade para tomar a palavra. Delicadamente concedeu.

- Não é mesmo Madrecita?

 Era assim que ele a chamava desde o tempo em que aprendeu as primeiras palavras

- É verdade... – ela rebateu e após alguns minutos de silêncio, continuou.

- Certamente tudo há de se revitalizar. Um rejuvenescer maduro há de criar anticorpos suficientes para eliminar do organismo toda e qualquer presença indesejável. Então, inflamado e febril, o cérebro há de expulsar de si os nefastos invasores. Quando chegar esse tempo, talvez eu tenha chegado já aos meus 50... E aí... Tchau...

Como a última frase evidenciava certa demência, própria da doença, os olhares de pena   se cruzaram e o rumo da prosa mudou.

Jorge Onofre que vê na demanda de pacientes acometidos e no mercado aberto pelo aumento da longevidade humana, a motivação maior para que ciência e conglomerados farmacêuticos brevemente domestiquem o tal mal, permaneceu calado.

Claudio Zumckeller

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