19 de agosto de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS


Noches de juegos
Vigésimo Segundo Capítulo - A angústia e as descobertas


Antero estava atacado de profunda angústia. A pior de todas! Comentavam seus  familiares e amigos mais próximos. Afastado, por má saude, do cargo de escriturário do instituto de previdência social, há alguns meses recebia salário sem trabalhar.

Estava realmente abalado, desta vez repetia sem cessar frases aparentemente desconexas enquanto caminhava pela casa e, algumas vezes, pelas ruas do bairro. Há cerca de quinze dias estava assim, em crise. Recusava alimentação e descanso, todavia causava estranheza o fato de que religiosamente tomava banho e fazia a barba todos os dias.

- Isso é bom? Perguntou sua mãe a um vizinho enquanto observavam seu empenho delirante que seguia caloroso.

- Todo o mundo vai, ninguém quer, eles nunca mais virão, estaremos sempre aqui. Nada me fará voltar, tudo vai dar certo.

Ia assim dizendo pausadamente como que a refletir sobre o significado de cada palavra.

- As coisas vão mal, a gente vai, a gente não vai. O tempo todo. O tempo ganho, o tempo perdido. Não sei viver sem você, vivo trabalhando. Não sei fazer nada. Só me falta nada. Preciso fazer nada. Sim, É isso!

Após esta frase parou diante da janela do seu quarto e como quem tivesse descoberto algo de suma importância, abriu a vidraça e gritou a plenos pulmões:

- Só me falta nada! Nada, nada, naaadaah!! Sim..nada! repetiu antes de voltar  a caminhar pelo aposento a com olhar altivo e compenetrado.

- “Saber como se faz nada. Preciso aprender a fazer nada!”

 Concluiu e se deixou cair de costas sobre a cama com reluzente e largo sorriso.

Naquele mesmo instante, teve sua memória tomada pela aventura narrada por D. Quixote a Sancho Pança e ao primo cicerone, sobre sua descida às profundezas da caverna de Montesinos. Era isso, pensou e, imediatamente prometeu a si mesmo que na primeira oportunidade compartilharia suas últimas reflexões com amigo Jorge Onofre a quem indicara a leitura de Miguel de Cervantes e para tal empreitada iniciou escrever um texto que lhe veio à mente:

...Durante longo tempo na história da humanidade, o indivíduo usou projeções emocionais nascidas de suas esperanças e ansiedades imaturas – os deuses - para explicar o homem, a sociedade e o universo; essas explicações davam-lhe um sentimento de segurança. Depois, através do próprio progresso social científico e tecnológico, o homem libertou-se do medo de sua própria existência e se arvorou a realizá-la...

Claudio Zumckeller

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