4 de agosto de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS


Noches de juegos
Vigésimo Capítulo - A mala com asa e o mala sem alça


- Ela fez minha mala aos trancos e solavancos e despejou pela janela. O volume desceu do10º andar desfraldando uma manga camisa.  Foi o cômico arremedo de um aceno de despedida que em poucos segundos aterrissou flácido e abandonado. Que cena!

Eu convalescia de uma hepatite e a Mariana, a pretexto de cuidar de mim, foi ficando e acabou se instalando definitivamente. Quando soube do arranjo, Lídia, que tinha ido embora há cerca de um mês, resolveu voltar para a reintegração de posse.

Era sábado à tardinha,  alguma vodka e muita ira somaram para que ela tomasse tão tresloucadas atitudes. Rodou a baiana, chutou o pau da barraca, botou fogo no circo. Fez o que tinha e o que não tinha direito.

Conformado, deixei o apartamento e, já na rua, ergui os olhos e contemplei meus pertences viajando pelos ares.

Enquanto narrava o sucedido, João Franco exibia um acalorado e extenso jogo cênico que lhe rendia acentuado rubor das faces e abundantes suores pelo corpo.

O fato, relatado agora, alguns anos depois, soou pitoresco e trouxe muito mais o riso do que qualquer outro sentimento. Era outro tempo, já não passava de um quadro na parede da memória que, entre uma cerveja e outra, surgia como anedota.

- Foi triste! – constatou e não pode deixar de ver a figura que repentinamente adentrava em direção à mesa: ninguém senão Tidão, velho conhecido dos presentes que se aproximava mamado a cantarolar

- Segura aí, se segura malandro, se segura...

Após chamar para si a atenção, emendou:

- Pois é... Jacaré comprou cadeira, mas não tem bunda para sentar. Em casa de Saci Pererê, uma calça veste dois. Circo Marimbondo, circo Marambaia. Larga minha franja, não me atrapalha.

Nasceste nua, vestida estás. Após a pós modernidade vem a imensa saudade.

Todos vão dizer que falo demais, e que ando bebendo demais, que não largo o cigarro e dirijo meu carro, correndo e sempre chegando ao mesmo lugar, qual João Donato, estou louco por direito e de fato. Se quiseres saber se eu te amo ainda, procura entender que a Barra funda é linda. Vai, vai... Não vou. Não vou, eu não sou alguém de ir em promessas de amor. Não! Eu só vou se for para ver uma estrela amanhecer na manhã de um novo amor.

É, moro em cima do sapato, vivo pleno em movimento. Rio, apelidando átomos. Se queres me enganar, diga que é para sempre ou nunca mais, tanto faz. Saíste batendo a porta, estavas louca para ficar. Estou contigo e não abro. Estamos juntos e misturados feito água e querosene. Êtcha! Mundo chucro! Curral demente.

Falando sério, só te queria por acaso. Eu sequer sonhei, nunca fui ao cinema, não gosto de festa, não vou à Ipanema, não gosto de chuva, não gosto de sol. Vesti uma camisa listrada e saí por aí. Caminhei por aí, para ver se encontro a paz que perdi.

Ah! Estas cordas de aço deste minúsculo braço. Camisa aberta, quando a saudade aperta. Pela cidade palco iluminado, sigo alerta, estou palhaço, vou ao samba e vou ao rock. Quero ver minha espanhola natural de La mancha. Ser Quixote tomando sorvete. Baby, faz tanto tempo! Malandragem dá um tempo, deixa essa pá de sujeira ir embora.
Nada do que foi, será. Como uma onda no bar.

Para finalizar deu um breve aceno, baixou a aba do Panamá e se retirou resmungando
- Até amanhã, até amanhã se Deus quiser, eu vou para casa, vou rever minha mulher...

Depois de caminhar alguns metros, como quem se lembrasse de algo importante, retornou e cantou o seguintes versos:

“Na Barra Funda nunca mais eu voltarei/ Cantei meu samba, nunca mais eu trabalhei/ faz sete anos que eu vivo na malandragem/ quero trabalhar mas me falta coragem/ Tenho de tudo, até anel de doutor/ Trabalhar é pra relógio e eu não sou despertador/ sou malandro vestido, uso terno chapéu e sapato/ uma nega no basquete, dinheiro?
Comigo é mato”

E soltou um longo FUUUUI.... que precedeu um  trotezinho charmoso e risonho.

Claudio Zumckeller

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