10 de março de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Décimo Sexto Capítulo - Semelhanças e coincidências

Alguns meses após o falecimento do amigo, Jorge Onofre recebeu da viúva, uma velha fita vídeo cassete. Na ocasião, Dolores foi breve:

- Assiste quando puder, copia se quiser, mas devolve que é de estimação.

Com alguma dificuldade, ele providenciou um aparelho adequado, se aconchegou na surrada poltrona e soltou a imagem. A cena se abriu com um jovem repórter em meio a tumultuosa multidão. O ambiente era a praça de entrada de um estádio de futebol.

Blocos humanos bailavam eufóricos empunhando bandeiras e berrando bordões. Na tela, o preto e branco revelava que Aristides Borges Amaro era o entrevistado.

- Ave Maria!

Onofre gargalhou e se ajeitou curioso
- Qual é seu time do coração. – Pergunta o repórter

Antes de iniciar a resposta ele retira da cabeça o panamá de aba curta, pousa a mão direita no peito, toma decididamente para si o microfone, limpa a garganta e solta o latim.

- Olha, irmãozinho, nessa questão o buraco é mais em baixo.
- Ah, Sim! Mas qual é o seu clube predileto, - reiterou para acertar o eixo. Todavia lhe restou, boquiaberto, acompanhar o discurso que tomou este rumo:

- Fruto da invenção humana, o futebol é pra ser jogado pelo homem e a vida social organizada, criada anteriormente, é pra ser por ele exercitada. Futebol e sociedade têm história, ciclo temporal, espaço relativo, regra, antagonismo e convergência. Correto? - Questionou e foi tomado por inoportuna tosse. Tratava então de se desculpar quando se viu obrigado a disputar acirradamente a posse do microfone que o assistente de produção tentava retomar. Era claro para o espectador que a entrevista estava desgovernada.

Aflito Jorge Onofre pressentiu o corte, entretanto supõe-se que, enxergando a possibilidade de obter material de arquivo, o cinegrafista tenha deixado seguir. Nem mesmo a Dolores sabia dizer se aquelas imagens algum dia foram publicadas, entretanto foi deste modo que se tomou ciência do que ficou gravado.

- A arbitragem, por exemplo, cuida no futebol para que certa ética esteja preservada – Prosseguiu destilando suas ”profundidades” e explorando closes com o olhar cinematográfico.

- As transgressões hierarquizadas, as burlas, as dissimulações já residiam tanto na bagagem de Charles Miller quanto nos primórdios da organização social homo sapiens. No esporte Bretão, as equipes representam segmentos sociais, cidades e estados nacionais. A competição é fundamento, os objetivos escusos. Dessa missa se sabe a metade.

Nesse momento, certa pausa deixou transparecer indecisão. Matreiro, o cinegrafista deslocou o foco para um grupo que pulava e urrava enlouquecido sob a vigilância de robustos cavalarianos.

Percebendo a deixa, Tidão retomou a cena

- O povo torce, sofre, se alegra, festeja, agride, invade, explode, vaia e aplaude. Protagoniza outros jogos. È enorme a diversidade de envolvimentos que gravitam na órbita destes encontros. Guetos, classes, profissões, sindicatos e quadrilhas paralelamente protagonizam impensáveis quadros!

Fitando o céu noturno como quem pesca inspirações, respirou fundo para prosseguir, desta vez transpirando maior compenetração.

- Há sempre um pavilhão desfraldado exibindo ao vento coloridos e obscuros desígnios. Futebol é arte, disciplina, estrutura, linguagem, dizem. É sonho, como o são as sociedades ideais. Futebol é surpresa, é decepção! Há quem jure ter vivido tempos em que, em algum lugar, ideais dourados se realizaram.

Grécia de Péricles, seleção de 70, Revolução francesa, Santos dos anos 60!
Nessa hora, estrondos de fogos e insana correria fizeram background para que ele se inflamasse.

- O gol... ah!! Que maravilha! Esse momento mágico que inflama os corações e as mentes.

Ah! A goleada, vantagem inapelável. Uma votação publica que alcance maioria absoluta vestiria bem esta carapuça? Questionou passando certa indignação e emendou.
- A conduta social do indivíduo, assim como a do jogador, não tem posição definida?
Futebol e sociedade não são associações? Resguardadas as distinções, os grupos, as classes e as corporações não possuem objetivo comum?

A conquista da dignidade humana não seria título valioso?

Há que se lutar pelo bem geral, ainda que para si se pretenda o melhor.
Assim disse Juan Melchior. – Arrematou convencido de ter sido feliz na desconhecida citação e prosseguiu, agora um tanto poético.
- Os talentos sempre surgirão! A inteligência revelará e aceitará diferenças. Para o artilheiro brilhante, o troféu de ouro. Para a equipe, os maravilhosos tentos...

Nesse instante, a voz daquele desconhecido rosto recebeu o eco sustentado pela edição
E o adversário? Ah... O perde e ganha! No futebol, o perdedor deve aprimorar e rever estruturas, excluir erros cometidos. A garra de vencer deve ser invocada, as táticas aperfeiçoadas, as finalizações repetidas à exaustão...

Na organização social, a derrota humana enaltece única e exclusivamente um adversário que enverga cores indignas. Goleados pela mesquinhez, milhares de perdedores perambulam por todo o planeta. A tática infalível do oponente envolve a mais avançada entre as mais avançadas das tecnologias...

Será possível, não será? Se, assim como faz a equipe que acaba de perder um jogo de futebol, assumíssemos novas atitudes, não reverteríamos o jogo? Sim! Sociedade Civil futebol clube. Eis o meu tim!

Assim encerrou a entrevista e agradeceu com a voz embargada

Para desfecho, distante da emocionada figura do entrevistado, restou a imagem abandonada do jovem entrevistador que sentado ao meio fio degustava a cerveja do patrocinador.

Claudio Zumckeller

0 comentários:

Postar um comentário