5 de março de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Décimo Quinto Capítulo - A viuvez de Dolores

Algum tempo depois do falecimento do esposo, Dolores vai pouco a pouco se tornando outra mulher. As caminhadas matinais, a hidroginástica e as aulas semanais de pintura em porcelana lhe proporcionam, dia a dia, notório rejuvenescimento e incontestável alegria de viver.

“Sessentinha! Ela está uma gazela”, murmuram à meia boca pela vizinhança.
Consciente do estreito império da mentalidade local, a viúva de Aristides segue então seu firme propósito de renascimento. À vista de todos vai deixando transbordar lições de mulher independente. Aparelho celular de última geração, Jeep novo e notebook, ela sai cedinho e retorna tarde da noite.

Que foi beneficiária única de recheada apólice de seguro e mais razoável pensão do finado, não há quem não saiba na circunscrição. Os gabirus de plantão estão sempre a soltar um ou outro boato acerca de possíveis envolvimentos. A verdade é que ela realmente exibe, ainda que discretamente, certa exuberância que intimida as investidas de sujeitos despreparados para a igualdade de gênero e esta peculiaridade assola a maioria dos varões locais.

Como não tivera filhos, sentia a vida correr livre e solta para o que desse e viesse, fazia planos, repensava projetos. Quem sabe viajar mundo a fora, voltar a estudar, comprar um belo sítio para se dedicar às plantas e aos pequenos animais, enfim se via com tantas e boas opções que às vezes lhe embaralhava a alma a abertura de ttamanho leque. Foi então que em um sábado à tardinha, quando se dedicava a aparar as viçosas roseiras, ouviu soar a campainha e logo percebeu que se apresentava ao portão, um homem que à distância lhe parecia de fisionomia familiar e quanto mais se aproximava mais certa disto ficava, até que estando frente a frente sentiu a vertigem do desmaio lhe rondando as vísceras e o suor frio que já lhe escorria pela nuca. “Meu Deus! É o Aristides”.

Chegou a pensar, porém logo recuperou a razão e viu que se tratava de alguém mais jovem. Mas tamanha era a semelhança, incluídos o tom de voz e o sereno esverdeado do olhar, que não pode deixar de sentir o coração batendo acelerado e uma intensa secura na boca, enquanto iniciavam as formalidades de primeira conversação.

- Você é a Dolores, ele delicada e carinhosamente indagou como quem tivesse plena certeza.

- Sim sou e você, - Rebateu deixando transpirar toda ansiedade que lhe invadira a alma.

Percebendo que a famosa intuição feminina de Dolores já lhe revelava algo surpreendente acerca do intuito de sua presença, foi direto ao termo.

- Meu nome é Aristarco, vivo no Rio de janeiro, onde nasci e fui criado e após anos de indecisão, curiosidade e enganos, finalmente tomei coragem e vim conhecer meu pai.


Claudio Zumckeller

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