31 de março de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Décimo Sétimo Capítulo - Minudências e amplidões

“Vagar no entorno, esmiuçar o redor próximo, decifrar um a um, cada significado dado a cada sensação em separado e buscar um sentido amplo que sintetize e simultaneamente discrimine as coisas, os sentimentos, as palavras escritas e as sonoridades com seus odores e sabores. Esmiuçar conceitos. Espreitar a lida da razão. Identificar os símbolos e suas intenções. Perscrutar a história e suas dedicadas organizações”.

A questão da obsessão com o tempo levara Antero a ocupar o centro das preocupações de seus familiares. Sua presença inquieta causava tantos e disparatados comentários quanto aqueles que adornavam sua imperceptível ausência. Tivesse alguém de sua parentela próxima, encontrado o acima escrito, estaria imediatamente lançada a suspeita de se tratar de carta suicida.

Entretanto diametral e infinitamente ao contrário, ele cavalga viçosa e solenemente estes preciosos momentos que nomeia de vertiginosas maravilhas de um aspirante a aprendiz Ele tem em mente documentar o curioso modo de enxergar a vida que está experimentando.

Como nunca fora de muitos amigos, não seria agora após os quarenta, quando a exigência é mais rigorosa, que se arvoraria a confidencias com qualquer um. Acionou a agenda eletrônica, buscou a letra j e logo estava na linha com o velho amigo Jorge Onofre que coincidentemente estava nas imediações. Mais quinze minutos e se encontravam sob efusivas saudações e escancarados risos.

- A vida tá só começando meu camarada! Disse Onofre

- É muito bom ter história pra contar. Tem maluco por aí que parece planta, - emendou Antero, - brota, cresce, enverga e morre.

Seguiam a prosa de camaradas quando, logo ali bem em frente, desabou imensa correria acompanhada de sirenes e estampidos. Foi aquela cena de se jogar no chão, gritos de mulher, latido de cães e choros de criança.

Passado o pânico, retomaram suas cadeiras e buscavam saber o motivo da balbúrdia.
Não precisou muita busca e avistaram a motocicleta no chão, um jovem deitado e algemado com a cara no chão e, pouco adiante, outro que agonizava.

- Foi “saidinha de banco”, - disse logo o garçon depois de perguntar se podia mandar mais cerveja.

- A saideira ,- rebateu Antero.

- Saideirinha de cadeira, - completou Jorge tentando a sorte no humor negro.

Claudio Zumckeller

20 de março de 2011

REALPOLITIK - KASSAB DE ESQUERDA? É O FIM DO MUNDO!

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, acaba de formar um novo partido político (quadrilha institucionalizada). Para isso, o mandatário paulistano se desfiliou do DEM (ex-arena, ex-PFL) e teve a pachorra de se definir como “centro” com tendências de “esquerda”. É... Kassab, um dia depois de sair do partido mais reacionário do país, se diz de “esquerda”.

Kassab e seus aliados na formação do novo partido, batizado de PSD (Partido Social Democrático), não criaram essa nova quadrilha por causa de rusgas ideológicas, como o mais inocente dos eleitores pode pensar; eles, na verdade, querem se aliar ao governo federal, ou melhor, querem se aliar a popularidade nacional do PT que acaba de entrar no seu terceiro mandato consecutivo na presidência do Brasil. Ainda tem a candidatura de Kassab ao governo de São Paulo, em 2014, que, certamente, não se concretizaria no DEM já que o ex-partido do prefeito de São Paulo, de certo, apoiará a reeleição candidato tucano Geraldo Alckmin (PSDB).

E ainda tem mais um pouco, o nome do novo bando de engravatados nacionais, PSD, é uma homenagem a Juscelino Kubitschek. É isso mesmo! Não tem nada a ver com social, democracia ou qualquer outra coisa, é uma homenagem! Genial, agora eles aboliram de vez as ideologias. Antes eles apenas as ignoravam, agora eles as aboliram. As siglas não significam mais nada.

Kassab disse que o PSD tem como principal meta diminuir a desigualdade social. Ora, isso é óbvio! Será que o DEM queria aumentar as desigualdades sociais? Vai entender...

Cada povo tem o político que merece! É a vida.

Thiago Menezes

15 de março de 2011

UMUNDUNU - REGISTRO PROFISSIONAL DE JORNALISMO - MTB

Ouvi dizer que demora, que tem filas, que deveria me preparar para ficar horas sentado olhando para o nada. Que deveria levar um bom livro ou algum tocador de música com a bateria bem carregada.

Das duas uma, ou dei muita sorte ou a qualidade do serviço na Superintendência Regional do Trabalho do Estado de São Paulo melhorou bastante.

Sai de casa logo cedo, queria ser um dos primeiros a ser atendido, para me livrar logo disso e também para não “mofar” na fila. Só que me esqueci que moro em São Paulo, a cidade do inesperado. Logo no dia em que resolvi sair computou-se o primeiro recorde de trânsito do ano na cidade, também pudera, era ano novo. Ou melhor, era o primeiro dia útil após o carnaval, dizem que o ano aqui no Brasil começa aí.

Levei cerca de quatro horas para percorrer os quase 40 quilômetros que me separam do centro da cidade. Queria chegar perto das 8h30, cheguei depois das 10h.

Já mais tranqüilo por ter saído do ônibus e por enfim ter chegado, ainda não estava tão feliz. O receio por uma longa fila ainda me deixava inquieto. Mas ao entrar no prédio, já na portaria, o pouco movimento me deixou mais aliviado, mesmo assim ainda preocupado. Já no primeiro andar do prédio, subindo as escadas, virando à esquerda, logo depois de uma espécie de recepcionista e de um segurança barrigudo, mais precisamente na sala 103, notei que todas as histórias de filas de demoras eram apenas isto, histórias. Era o único na sala, minha senha era logo a próxima, senha 954.

Tudo em mãos, Diploma de Jornalismo, RG, CPF, Carteira de Trabalho, PIS, Comprovante de Residência e suas respectivas cópias. Tudo conferido, tudo certo, tudo OK. A moça que me atendeu me devolve todas as copias com um papel com a data para o retorno, mas ainda não acabou. Tem que ir ao prédio ao lado, o do Ministério do Trabalho, para protocolar e entregar a pasta com as cópias. Logo na entrada do prédio, à sua direita numa bancada onde se pode ler uma placa “PROTOCOLO”.

Pronto, agora é só voltar na data marcada para enfim ter o seu Registro Profissional de Jornalista. No meu caso, 80 dias depois.

Serviço
MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO
Superintendência Regional do Trabalho do Estado de São Paulo
Endereço: Rua Martins Fontes, 109 – 1º andar – sala 103
Horário: Segunda a sexta das 9:00 as 15h30 hs
Documentos necessários: Diploma de Jornalismo, RG, CPF, Carteira de Trabalho (páginas 7 e 8), PIS e Comprovante de Residência e suas respectivas cópias.

Renato Souza

10 de março de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Décimo Sexto Capítulo - Semelhanças e coincidências

Alguns meses após o falecimento do amigo, Jorge Onofre recebeu da viúva, uma velha fita vídeo cassete. Na ocasião, Dolores foi breve:

- Assiste quando puder, copia se quiser, mas devolve que é de estimação.

Com alguma dificuldade, ele providenciou um aparelho adequado, se aconchegou na surrada poltrona e soltou a imagem. A cena se abriu com um jovem repórter em meio a tumultuosa multidão. O ambiente era a praça de entrada de um estádio de futebol.

Blocos humanos bailavam eufóricos empunhando bandeiras e berrando bordões. Na tela, o preto e branco revelava que Aristides Borges Amaro era o entrevistado.

- Ave Maria!

Onofre gargalhou e se ajeitou curioso
- Qual é seu time do coração. – Pergunta o repórter

Antes de iniciar a resposta ele retira da cabeça o panamá de aba curta, pousa a mão direita no peito, toma decididamente para si o microfone, limpa a garganta e solta o latim.

- Olha, irmãozinho, nessa questão o buraco é mais em baixo.
- Ah, Sim! Mas qual é o seu clube predileto, - reiterou para acertar o eixo. Todavia lhe restou, boquiaberto, acompanhar o discurso que tomou este rumo:

- Fruto da invenção humana, o futebol é pra ser jogado pelo homem e a vida social organizada, criada anteriormente, é pra ser por ele exercitada. Futebol e sociedade têm história, ciclo temporal, espaço relativo, regra, antagonismo e convergência. Correto? - Questionou e foi tomado por inoportuna tosse. Tratava então de se desculpar quando se viu obrigado a disputar acirradamente a posse do microfone que o assistente de produção tentava retomar. Era claro para o espectador que a entrevista estava desgovernada.

Aflito Jorge Onofre pressentiu o corte, entretanto supõe-se que, enxergando a possibilidade de obter material de arquivo, o cinegrafista tenha deixado seguir. Nem mesmo a Dolores sabia dizer se aquelas imagens algum dia foram publicadas, entretanto foi deste modo que se tomou ciência do que ficou gravado.

- A arbitragem, por exemplo, cuida no futebol para que certa ética esteja preservada – Prosseguiu destilando suas ”profundidades” e explorando closes com o olhar cinematográfico.

- As transgressões hierarquizadas, as burlas, as dissimulações já residiam tanto na bagagem de Charles Miller quanto nos primórdios da organização social homo sapiens. No esporte Bretão, as equipes representam segmentos sociais, cidades e estados nacionais. A competição é fundamento, os objetivos escusos. Dessa missa se sabe a metade.

Nesse momento, certa pausa deixou transparecer indecisão. Matreiro, o cinegrafista deslocou o foco para um grupo que pulava e urrava enlouquecido sob a vigilância de robustos cavalarianos.

Percebendo a deixa, Tidão retomou a cena

- O povo torce, sofre, se alegra, festeja, agride, invade, explode, vaia e aplaude. Protagoniza outros jogos. È enorme a diversidade de envolvimentos que gravitam na órbita destes encontros. Guetos, classes, profissões, sindicatos e quadrilhas paralelamente protagonizam impensáveis quadros!

Fitando o céu noturno como quem pesca inspirações, respirou fundo para prosseguir, desta vez transpirando maior compenetração.

- Há sempre um pavilhão desfraldado exibindo ao vento coloridos e obscuros desígnios. Futebol é arte, disciplina, estrutura, linguagem, dizem. É sonho, como o são as sociedades ideais. Futebol é surpresa, é decepção! Há quem jure ter vivido tempos em que, em algum lugar, ideais dourados se realizaram.

Grécia de Péricles, seleção de 70, Revolução francesa, Santos dos anos 60!
Nessa hora, estrondos de fogos e insana correria fizeram background para que ele se inflamasse.

- O gol... ah!! Que maravilha! Esse momento mágico que inflama os corações e as mentes.

Ah! A goleada, vantagem inapelável. Uma votação publica que alcance maioria absoluta vestiria bem esta carapuça? Questionou passando certa indignação e emendou.
- A conduta social do indivíduo, assim como a do jogador, não tem posição definida?
Futebol e sociedade não são associações? Resguardadas as distinções, os grupos, as classes e as corporações não possuem objetivo comum?

A conquista da dignidade humana não seria título valioso?

Há que se lutar pelo bem geral, ainda que para si se pretenda o melhor.
Assim disse Juan Melchior. – Arrematou convencido de ter sido feliz na desconhecida citação e prosseguiu, agora um tanto poético.
- Os talentos sempre surgirão! A inteligência revelará e aceitará diferenças. Para o artilheiro brilhante, o troféu de ouro. Para a equipe, os maravilhosos tentos...

Nesse instante, a voz daquele desconhecido rosto recebeu o eco sustentado pela edição
E o adversário? Ah... O perde e ganha! No futebol, o perdedor deve aprimorar e rever estruturas, excluir erros cometidos. A garra de vencer deve ser invocada, as táticas aperfeiçoadas, as finalizações repetidas à exaustão...

Na organização social, a derrota humana enaltece única e exclusivamente um adversário que enverga cores indignas. Goleados pela mesquinhez, milhares de perdedores perambulam por todo o planeta. A tática infalível do oponente envolve a mais avançada entre as mais avançadas das tecnologias...

Será possível, não será? Se, assim como faz a equipe que acaba de perder um jogo de futebol, assumíssemos novas atitudes, não reverteríamos o jogo? Sim! Sociedade Civil futebol clube. Eis o meu tim!

Assim encerrou a entrevista e agradeceu com a voz embargada

Para desfecho, distante da emocionada figura do entrevistado, restou a imagem abandonada do jovem entrevistador que sentado ao meio fio degustava a cerveja do patrocinador.

Claudio Zumckeller

5 de março de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Décimo Quinto Capítulo - A viuvez de Dolores

Algum tempo depois do falecimento do esposo, Dolores vai pouco a pouco se tornando outra mulher. As caminhadas matinais, a hidroginástica e as aulas semanais de pintura em porcelana lhe proporcionam, dia a dia, notório rejuvenescimento e incontestável alegria de viver.

“Sessentinha! Ela está uma gazela”, murmuram à meia boca pela vizinhança.
Consciente do estreito império da mentalidade local, a viúva de Aristides segue então seu firme propósito de renascimento. À vista de todos vai deixando transbordar lições de mulher independente. Aparelho celular de última geração, Jeep novo e notebook, ela sai cedinho e retorna tarde da noite.

Que foi beneficiária única de recheada apólice de seguro e mais razoável pensão do finado, não há quem não saiba na circunscrição. Os gabirus de plantão estão sempre a soltar um ou outro boato acerca de possíveis envolvimentos. A verdade é que ela realmente exibe, ainda que discretamente, certa exuberância que intimida as investidas de sujeitos despreparados para a igualdade de gênero e esta peculiaridade assola a maioria dos varões locais.

Como não tivera filhos, sentia a vida correr livre e solta para o que desse e viesse, fazia planos, repensava projetos. Quem sabe viajar mundo a fora, voltar a estudar, comprar um belo sítio para se dedicar às plantas e aos pequenos animais, enfim se via com tantas e boas opções que às vezes lhe embaralhava a alma a abertura de ttamanho leque. Foi então que em um sábado à tardinha, quando se dedicava a aparar as viçosas roseiras, ouviu soar a campainha e logo percebeu que se apresentava ao portão, um homem que à distância lhe parecia de fisionomia familiar e quanto mais se aproximava mais certa disto ficava, até que estando frente a frente sentiu a vertigem do desmaio lhe rondando as vísceras e o suor frio que já lhe escorria pela nuca. “Meu Deus! É o Aristides”.

Chegou a pensar, porém logo recuperou a razão e viu que se tratava de alguém mais jovem. Mas tamanha era a semelhança, incluídos o tom de voz e o sereno esverdeado do olhar, que não pode deixar de sentir o coração batendo acelerado e uma intensa secura na boca, enquanto iniciavam as formalidades de primeira conversação.

- Você é a Dolores, ele delicada e carinhosamente indagou como quem tivesse plena certeza.

- Sim sou e você, - Rebateu deixando transpirar toda ansiedade que lhe invadira a alma.

Percebendo que a famosa intuição feminina de Dolores já lhe revelava algo surpreendente acerca do intuito de sua presença, foi direto ao termo.

- Meu nome é Aristarco, vivo no Rio de janeiro, onde nasci e fui criado e após anos de indecisão, curiosidade e enganos, finalmente tomei coragem e vim conhecer meu pai.


Claudio Zumckeller