28 de fevereiro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Décimo Quarto Capítulo - A primeira consulta

Eram 3 horas da tarde quando a atendente conduziu Nicola até a presença da médica e fechou a porta por trás de sua abandonada figura.

- Olá, ele se dirigiu à doutora com um tom de voz que expressava tranquilidade.

- Olá! Como vai? Ela perguntou fitando por cima dos pequenos óculos de leitura que logo retirou calmamente para esperar que ele levantasse o rosto para fustigar-lhe com o azul de seus olhos. – Amigas de seu tempo estudantil diziam que seus olhos possuíam uma cor que transmitia certa intimidação e ela desde esse tempo passou a acreditar que indiscriminadamente causava tal sensação.

- Indo, - ele respondeu com certa indiferença.

- Dona Laura, como está? Ela prosseguiu

- Viva, creio. – ele replicou

Percebendo certa ansiedade no entrevistado, ela tratou de ser direta.

- Me fale de você! Como você se vê?

- Bom depende do lugar onde me encontro...e... ?

Ela percebeu certo lapso, mas prosseguiu atenta e silenciosa - ... normalmente durmo cedo, me alimento bem e trabalho o dia todo. À noite, duas ou três vezes por semana, namoro, vou ao teatro, cinema etc..,.Outras vezes saio para beber com amigos, algumas fico em casa lendo um bom livro ou mesmo assistindo televisão. Mas de um tempo pra cá, tenho me visto exclusivamente por espelhos, para os quais, aliás, ultimamente evito olhar. Não gosto do que vejo. Custo a me reconhecer....

- Nesse momento, outro lapso, e ela percebe que a qualquer momento algo se revelará. Nicola assumiu a aparência de quem estaria sofrendo súbita indisposição de ordem fisiológica , passou a transpirar abundantemente e seu semblante apresentou uma palidez cadavérica. Contudo, sob o pranto contido e forte tensão emocional, prosseguiu

- Doutora... nunca estive tão lúcido, jamais me senti tão seguro e tão certo das minhas impressões. Meu cérebro, minha alma, minha mente ou qualquer outro nome que se possa dar à origem dos meus pensamentos tem sido fonte de idéias plenas de clareza e distinção...

O inusitado é que de vez em quando, de algum tempo para cá, minha razão repentinamente revela-se tão alheia às coisas que se lhe apresentam quanto meus rins com os líquidos que ingiro.

Enquanto ouvia o relato, Mercedes, movida pela larga experiência clínica, não demonstrou o menor espanto com aquelas curiosas declarações, ao contrário tratou de demonstrar ao paciente, não somente seu interesse distinguido, como também o conforto de um compartilhar inequívoco. Sem alterar o tom amigo, sutilmente sugeriu

- Quer beber algo?

- Vodca! Ele retrucou e, colocando- se em pé diante de sua entrevistadora exibiu uma rápida performance como quem agradecesse uma platéia pelos aplausos.

Após a cena, ainda sem demonstrar qualquer surpresa a doutora sorriu, olhou para seu relógio de pulso e deu por encerrada a consulta

- Ótimo! - Disse com certa satisfação e, estendendo- lhe a mão, indicou que procurasse a recepcionista e agendasse para o dia seguinte.

- Recomendações á sua mãe! – Concluiu.


Claudio Zumckeller

22 de fevereiro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Décimo Terceiro Capítulo - As festas e as angústias

Uma intensa depressão tomou totalmente o ser de Nicola. Passava de um mês que ele sequer saía de casa. A ruiva barba que se avolumava e a acentuada olheira lhe proporcionavam certo ar filosófico. A angústia profunda era evidente. Dormia quase nada, mal se alimentava e dispunha do tempo unicamente para fumar e espalhar seu olhar apagado pela paisagem que se oferecia pela varanda. Um banho por semana, quando muito. Nada de leituras e um vocabulário reduzido a três interjeições. Vez por outra uma gargalhada breve. Dona Laura Madeira, sua mãe, enfermeira aposentada traçou o caminho para o atendimento psiquiátrico e aguardava apenas que o filho concordasse. Ela esperava o sinal de aceitação da parte dele através de uma queixa, um surto violento, enfim algum pedido de ajuda. Nada! Ele se mantinha trancado, mais taciturno e nauseabundo a cada dia.

- Óia, Duona Laur, - indagou Mercedes, a diarista mineira que lhe vinha semanalmente, há alguns anos -, naum ié pur nada, mais uo muossu tá di calundu. Né naum?
Não contendo o riso diante da simplicidade da serviçal, respondeu despachada para encurtar a prosa.

- Nada, mulher! Isso dá e passa. Briga de amor, dor de cotovelo! Vamos ao que interessa, trata de não deixar as coisas fora de lugar. Semana passada o ventilador foi parar em baixo da pia!
Arrematou, bateu duas palmas breves e saiu para o trabalho.

Era Dezembro, lá pelo dia 16, e pressentindo as visitas,- costumeiras desta época -, veio o ultimato. Nicola entendeu e aceitou então comparecer à consulta agendada com a Dra. Beatriz, colega de trabalho de dona Laura e que, sempre que podia, lhe acolhia os lamentos e desabafos acerca do filho. Psiquiatria e neurologia eram suas especialidades.

Caía uma de tarde de avermelhado crepúsculo quando Nicola se apresentou à atendente.

- Boa tarde! Como está? O senhor tem consulta marcada? – indagou, e antes que ele respondesse, seguiu a fala.

– Ah! Sim... Nicola Madeira, para o horário das 18 hs! Daqui a pouquinho a doutora vai chamar. Aceita água, um cafezinho?

- Ah..aceito! Ele respondeu e, animado se dirigia para preparar o café expresso, quando ouviu o toque do interfone e logo em seguida, o aviso de que era a sua vez.

- Fica para a saída! – Comentou e se apressou em estar na presença da doutora que o aguardava com o sorriso brando e a mão estendida.

Claudio Zumckeller

17 de fevereiro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Décimo Segundo Capítulo - O casamento de Alzirinha

Logo que a cidade do Rio de janeiro, cheia de encantos mil, deixou de ser a capital federal, na década de sessenta, Olivério, então com vinte e dois anos, entendeu que a São Paulo das indústrias, da efervescência cultural pós golpe e das oportunidades de prosperidade, seria sua nova terra.

Filho do comissário da polícia carioca Nestor Adão e bisneto do Marques de Abrantes, ele não teve dificuldades em vender alguns bens e ancorar na Paulicéia. Mal chegou e logo se associou com Ariel de Medeiros, também imigrante, potiguar, herdeiro de salinas em Mossoró, e que em uma de suas viagens aos Estados Unidos trouxera idéias para desenvolver no Brasil, alguns produtos industrializados que eram já sucesso de vendas na América do norte e Europa.

Após cerca de três anos de batalha, em pleno e franco desempenho da nova indústria, o sócio faleceu subitamente, e como não tinha herdeiros interessados, Olivério tratou rápido de comprar-lhe a parte junto a uma velha tia, inventariante única e totalmente desinteressada. Resumo, em dez anos de “Terra da garoa”, amealhou uma pequena fortuna que lhe permitiu ampliar os negócios e se tornar um novo milionário.
Passados cerca de vinte anos, lá estava ele na posse de várias empresas bem sucedidas, apartamentos em regiões nobres da cidade, helicóptero, belos automóveis, Jeeps, casas litorâneas, chácaras e fazendas. Divorciado e quarentão, era então alvo das solteiras casadeiras do seu convívio social.

Alzirinha, que a essa altura já estava divorciada de Jorge Onofre, trabalhava como secretária no grupo Abrantes, não tardou em perceber no Olivério uma possibilidade de sossegar o facho e ser feliz como senhora casada, porém desta vez, com um homem ambicioso e bem sucedido, realizando assim o sonho de Quitéria Pessoa, sua falecida mãe.

Algumas festas, encontros propositadamente casuais, seduções, e, enfim, passados alguns meses lá estava o novo par adentrando a catedral sob os acordes da Ave Maria de Gounod.

A concorrida recepção, regada a nobres manjares e requintados vinhos, proporcionou, além do deslumbramento de algumas centenas de convidados, o encontro e o início da inesperada e intrigante relação amorosa que envolveu João Franco, irmão de Alzirinha, por parte de pai e Lidia, única filha, - fruto de uma relação mal resolvida que Olivério tivera aos dezoito anos.

João, que estava no Brasil única e exclusivamente para ultimar sua transferência definitiva para Paris onde se casaria com a francesa Cristine Montellet, deixou rolar despretensiosamente a nova amizade. Sua presença no casamento era puramente casual, pois, arredio às convenções, jamais teria se deslocado para participar de algum evento dessa natureza.

Lídia, que vivia modestamente com a mãe no Rio de janeiro e estava em São Paulo para participar das celebrações, enxergou no envolvimento com João a possibilidade de aproximação com a nova esposa do pai.

Claudio Zumckeller

7 de fevereiro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Décimo Primeiro Capítulo - O que pode ser estranho, maravilhoso ou trágico nas coisas mais vulgares da vida cotidiana.

Na noite anterior àquela fria e chuvosa manhã, Jorge sonhou que esteve em intensa e apaixonada transação sexual com Tássia, com quem em realidade somente estivera há alguns anos, e em poucas ocasiões, por conta de um festival literário. Sonhou ainda de contínuo que após os maravilhosos momentos de amor ele próprio fora alvejado e assassinado por uma pessoa da qual percebera somente o vulto.

Despertou assustado, porém aliviado por ter sido apenas um sonho, afinal estava vivo. Mas não pôde deixar de lamentar que aqeles doces momentos de prazer com a poetisa tivessem sido um sonho. Tudo tem os dois lados, refletiu e iniciou os exercícios físicos que habitualmente faz antes da ducha matinal.

Já no chuveiro, enquanto se barbeava, refletia sobre uma questão que lhe assaltava os neurônios, Pensou.

“No dia- a- dia tomamos como certas muitas coisas que, se melhor pensadas, podem se mostrar tão contraditórias que só mesmo uma avaliação mais atenta e demorada pode dar base para que se decida em que realmente acreditar”.

Sorriu diante do espelho e observando demoradamente sua imagem refletida, ergueu o polegar direito em sinal de positivo como que firmando um pacto entre ele mesmo e sua sorridente aparição.

- Tamo junto,- exclamou e tratou de enxugar o corpo.

Movido por essa idéia que já há algum tempo lhe era recorrente, resolveu que durante todo aquele dia estaria atento às trivialidades, aos detalhes. Pretendia se dedicar em analisar a fundo as verdades mais comuns, E assim se questionou.

- Aquele Onofre que há alguns instantes enxerguei no espelho, existe, ainda que eu não o esteja mais enxergando? – Perguntou-se e ao mesmo tempo pensou em não levar adiante a empreitada. Se dissesse tal disparate a alguém seria tomado por insano. Conseguiria prosseguir com aquilo sem ter com quem compartilhar? – Refletiu e em seguida se viu diante do armário em busca de uma camisa para vestir e escolheu uma com listras verticais.

- Listrado com xadrez não dá! Consentiu ao se imaginar com a calça que havia preparado na noite anterior. Chegou mesmo a ver-se adentrando a empresa com aquela combinação bizarra e sendo motivo da risota de alguns. Reconsiderou e finalmente vestiu um conjunto azul marinho que julgou discreto e tratou de apressar-se em fritar os ovos para o desjejum.

Enquanto observava o aquecimento da manteiga na frigideira voltou a se imaginar vestido em listrado e xadrez e achou que lhe cairia bem. Estaria bem mais consoante com seu estado de espírito atual. E prosseguiu se imaginando assim enquanto se alimentava e, ao voltar diante do espelho para escovar os dentes, deparou com sua imagem sorridente, o que considerou um feliz reencontro. Erguendo então novamente o polegar, decidiu e confidenciou à imagem, vestirei listrado e xadrez mas vou trabalhar em azul marinho.

- Tenhamos um bom dia.

Claudio Zumckeller

2 de fevereiro de 2011

UMUNDUNU - NÃO CONSIGO ABRIR MEUS OLHOS

Acordei com o sol batendo em meu rosto, podia sentir seu calor aquecendo minha pele. Mesmo assim não consegui abrir os olhos. Permaneci imóvel por mais alguns minutos, até que percebi que já estava com os olhos arregalados e que mesmo assim não enxergava nada. Pensei então que fosse a luz, que ela poderia estar ofuscando minha visão, mas não. Mesmo não mais sentindo o calor em meu rosto, ainda assim não via nada. Levei as mãos à cabeça. Esfreguei meus olhos, mesmo assim não conseguia. Era desesperador.

Não sabia onde estava. Comecei então a procurar meus óculos, não vivo sem eles. Será que meu problema era esse? Levantei com medo, tateando a parede comecei a andar. Tropecei na cadeira, esbarrei no mesa. Sempre os deixo ali. Não estavam.

Não consigo ver o que há em minha frente. O desespero toma conta de mim agora. Quero gritar, mas isso não adiantaria. Eu quero é voltar a enxergar.

Tropeço em alguma coisa que está no chão e caio, tento me levantar apoiando em alguma coisa, mas nada esta ao meu redor. Deitado no chão começo a chorar, desesperado, vou rastejando quando sinto novamente um calor. Era o sol. Estava novamente próximo a uma janela.

Consigo me apoiar e me levantar. Vejo que há uma pia em minha frente, lavo o rosto, esfrego os olhos, mas nada. Nada me faz ver o que há em minha frente. Começo a tremer. Uma mescla de raiva, ódio, um sentimento de impotência.

Não consigo abrir meus olhos. Não vejo o que está em minha frente. Não sei mais fazer nada. Não sirvo pra nada e ninguém vem me ajudar. Não sei onde estou. Grito.

Ainda trêmulo ouço passos, vêem em minha direção. Aumentam a cada instante. De repente eles param. Ouço uma porta se abrir. A expectativa era enorme. O que seria? Quem seria? Não posso ver.

A porta se fecha e os passos seguem agora cada vez mais distantes. O que eu sou?
Onde estou? Por que não posso ver o que existe ao meu redor? Sou eu que não vejo ou não querem que eu veja?

Não posso contar com meus olhos. Não tenho mais certeza das coisas. Perdi meus olhos, mas perdi também minha identidade. Insano. Se não vejo não acredito, não sou, não existo. Morri!?

Renato Souza