21 de janeiro de 2011

UMUNDUNU - QUE MUNDO É ESSE?

Tenho 25 anos. Sou formado em Administração de Empresas pela FGV-SP. Nasci em berço de ouro, se é assim que gostam de chamar. Nunca passei dificuldades, estudei nas melhores escolas, aprontei pra caramba na minha adolescência. Usei e ainda uso drogas. Bebo por que gosto de beber e sigo a regra do “bom é quando faz mal”. Se der problema, papai me dá um help.

Mas esta semana meu pai se encanou comigo. Disse que deveria aprender mais sobre o outro lado do mundo. Japão? China? Nada, os pobres. Disse que teria que passar uma semana sem meu carro, andando de ônibus e tal. Sem meus cartões, com pouca grana no bolso. Aceitei. A promessa era de que se eu fizesse isso, e aprendesse algo importante para minha vida, na outra semana meu X6 estaria na garagem.

Moro na zona sul, trabalho no Centro. Sempre peguei um pouco de transito nas marginais ou em alguma outra importante Avenida de São Paulo, mas de dentro do meu carro com ar-condicionado nada me estressava. Sou o que costumam chamar de Playboy. Não tenho culpa de ser rico, de ser bem criado. Não quis ser assim, o mundo me impôs este rótulo. Mas nem ligo.

Primeiro dia, 7h da manhã eu já estava no ponto. Entro às 9h no escritório, achei que daria tempo. Ledo engano, eram quase nove horas e ainda estava na metade do caminho. Um calor insuportável e esse terno já todo molhado. Meu penteado já nem existia mais. Busão lotado e ninguém para segurar minha pasta. Custou R$800,00, tem um notebook de quatro mil e agora está no chão, encostada entre minhas pernas.

Tem uma senhora em pé, com até certa dificuldade em se manter, mas tem um moleque dormindo que parece que é o ultimo sono da vida dele. Está sentado no banco reservado, mas ninguém se atreveu a acordá-lo, nem ela. Parece já estar acostumada.

Tem tanta gente aqui dentro que parece que a qualquer momento uma dessas articulações vão se romper. Assusto-me a cada curva mal feita, o barulho das roldanas mais parece trilha de um filme de terror.

Está um calor infernal aqui dentro, e posso ver algumas janelas ainda fechadas. Logo na minha frente tem uma moça, que já pediu para não abrir a janela, não quer estragar o cabelo. Confesso que não entendi, mas vi alguém falar de uma tal de chapinha.

Consegui chegar ao fundo do ônibus, com um pouco de dificuldade e sendo xingando por boa parte das pessoas em que esbarrei.

Finalmente desço, com 45 minutos de atraso. Às 18h teremos mais.

Fim do expediente, conversei com o estagiário, ele me disse para pegar no Terminal de Ônibus, que com sorte, paciência e um pouco de espera, eu conseguiria até me sentar.

Foi o que fiz, o que me fez esperar por longos 40 minutos. Ao menos desta vez vou sentado, e dormindo. Não entendo, mas estou cansado. Nem duas horas na academia me deixam assim. Comecei a pegar no sono, mas ouvia um barulho ao fundo que me chamou a atenção, e por consequência me tirou o sono. Eram dois rapazes, um com um celular na mão. Escutavam Funk. Já havia escutado algo parecido em alguns filmes brasileiros, mas nunca algo com tantos palavrões e baixarias. Incrível como alguém gosta daquilo. Pensei em pedir para desligarem, mas a moça ao meu lado disse que só iria piorar as coisas. A bateria daquele telefone parece que tem vinda longa, parecia que iria durar por horas aquela tortura. E o transito só iria piorar minha situação.

Desci no ponto seguinte, liguei para meu pai e pedi para vir me buscar.

- Pai, pode vir me buscar. O mundo lá fora é muito complicado, as pessoas se tratam como inimigos, até como animais. Ignoram leis e até mesmo o bom senso. Não se respeitam. Aliás, não respeitam nem a si mesmo, quanto mais ao próximo.

Meu mundo não é esse. Aliás, nem sei que mundo é esse.

Renato Souza

Um comentário:

  1. O seu texto retrata fielmente a precariedade que envolve o transporte público, a logística urbana e a educação cívica da Paulicéia desvairada principalmente, e de outras tantas mega urbes deste nosso planeta de civilizações encruzilhadas.

    Muito bom! Gostaria de tê-lo escrito.
    Aeee!

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