26 de janeiro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Décimo Capítulo - O Velório de Aristides Borges Amaro

A chuva caía forte na São Paulo daquela sexta feira de Janeiro. Passava das 10h da noite quando Jorge Onofre chegou ao velório do cemitério Chora Menino. Ele recebera a notícia do falecimento no final da tarde. Bastante surpreso desconhecia que o amigo estivesse doente. Muito pelo contrário, a última vez em que estiveram juntos chegou a elogiar- lhe o estado físico.

- Se eu chegar aos 70 assim gostaria de estar em forma como você.

Chocado, refletia trazendo à mente, como cena cinema, a derradeira frase dita diante do sorriso matreiro do camarada.

- Não é mole essa vida! Murmurou e foi tratando de resolver rápido os compromissos para logo prestar as condolências à família e dar o adeus final ao falecido.

Logo que colocou os pés no recinto, pode ver a viúva que conversava em um pequeno grupo. Aproximou- se e silenciosamente comovido acompanhou suas palavras.

-Há algum tempo ele vinha se tornando a cada dia mais melancólico. Até mesmo nos topos de insana euforia alcoólica, quando invariavelmente incorporava sua personalidade indagadora e revoltada, ele perdia gradualmente o peculiar tom cômico. Com isso, o minguado círculo que se divertia com suas mirabolantes performances ia lenta e proporcionalmente lhe dando as costas. Ele próprio, bem antes de se ver completamente preterido, já não tinha o mínimo prazer naqueles delírios, sentia-se como um ator entediado com sua personagem. O remorso, agravado pelo mal estar físico inundava os dias que sucediam aquelas peripécias. Entretanto em seus últimos dias apresentou revigoradas a lucidez e a serenidade que eu sempre e por toda minha vida admirei e jamais deixarei de enaltecer. Eu sempre o amei.

Nesse momento alguns lamentaram abraçados; outros, calados, enxugavam o pranto. Onofre por sua vez assumiu certo ar introspectivo e caminhou calado rumo à cantina em busca de um café.

A explicação da Dolores, embora clara, lhe soara extremamente elaborada. Bastante diferente das colocações da companheira que o Aristides, cheio de orgulho, um dia lhe apresentara. Sua fala remetia então àquela professora estadual que ela fora na juventude e que muitos só conheciam pelos relatos do esposo. Todavia não tinha como não perceber que, ainda que entristecida, ela apresentava o semblante bastante sereno e a postura mais altiva. Aliviada? Parece ter sido esta a dedução que, de imediato aportou o coração de Jorge Onofre, e que ele tratou logo de afastar para adequar-se às formalidades pertinentes a essas tristes ocasiões.

Poucos minutos depois, Após o café e alguma meditação, retornou e aproximando-se da viúva, disse.

- Força, querida, é preciso força, é essa a finalidade última de todos nós. – Sussurrou durante longo e emocionado abraço.

- Ah... É verdade, - ela consentiu conformada, - amanhã seremos nós. Mas enquanto cumprimos nosso tempo é bom que aproveitemos para crescer como seres humanos. Obrigado pela presença, ele lhe admirava. ““Aquele cara é pedra 90”, - ele costumava dizer a sorrir quando falava de você. - Concluiu com o ar grave.

- Eu também o admirava independentemente de ele estar alterado ou não. Aliás, eu o via, com todo o respeito, com duas personalidades contraditórias, porém intimamente complementares. Confesso que tinha por ambas o mesmo carinho. Penso que aí residia sua singularidade. Sua essência.

Completou Onofre e, ao perceber que tinha exagerado, demonstrou alguma preocupação com a compreensão de suas palavras pela Dolores. Mas ela, percebendo melindre, tratou logo de amenizar.

- Duas personalidades! – Ela disse a sorrir, - nestes 43 anos de convivência pude observar que ele possuía pelo menos cinco. O Aristídes era polipolar, - se é que existe o termo, - e ele próprio se divertia com isso. “Tenho alma de ator”, costumava se gabar. Mas cá entre nós, de todas as suas facetas, uma somente uma, eu cheguei a detestar. Aquela boêmia e inconseqüente. Sem ela ele teria sido reconhecida e publicamente brilhante.

Finalizou e deixou revelar ao amigo certa mágoa guardada do falecido.

Claudio Zumckeller

3 comentários:

  1. Nulli ergo omnino hominum liceat hanc paginam nostrorum praeceptorum, mandatorum, statutorum, voluntatis, probationis, prohibitionis, sublationis, abolitionis, hortationis et rogationis infringere, vel ei auso temerario contraire.

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  2. Seu argumento inpirou um epitáfio para o Aristides. A família penhorada agradece.

    " Si nihil te dicere, clausit."

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  3. Digo, INSPARIU, ou melhor, INSPIROU.

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