19 de janeiro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Nono Capítulo - Os compromissos e os acasos

Respondido o e-meio, Jorge Onofre sentia-se um tanto arrependido de ter confirmado a presença ao chopp com Antero. Lembrou que no dia combinado tinha alguns compromissos inadiáveis dos quais o mais importante era o retorno ao Dr. Praxiteles para levar a bateria de exames solicitados. Anualmente, há cerca de cinco anos ele segue essa rotina. Nesse período tem descoberto que é portador de uma grande variedade de moléstias sem importância e isso lhe deixa confortado. Ele entrega os testes e tem a certeza que vai ouvir do médico a mesma ladainha. “Sua taxa de ácido úrico está bem acima do tolerável”, “ Você precisa deixar o cigarro e fazer exercícios físicos ”, “ De modo geral está tudo bem, o quadro é de regular para bom” .

Outro compromisso do dia, que julgava menos problemático, porém o inquietava mais, era a primeira audiência do seu processo de divórcio. Ele prometera a si mesmo que faria tudo para que a coisa se resolvesse serenamente, ainda que pensasse não ser justo ficar sem a chacrinha de Mairiporã. Ele temia que na partilha dos parcos bens adquiridos pelo casal, Alzirinha, por pura pirraça, reivindicasse a posse do que ele chamava de adorável e singular recanto. Todos sabem , - pensou referindo-se aos amigos e parentes próximos, - que ela sempre detestou o lugar .

Apesar de remanescente do movimento hippie, sua ex companheira tornara-se, há algum tempo , extremamente urbana e consumista compulsiva.

Mediu os horários, refletiu sobre alguns outros pontos e enfim se convenceu que fizera bem de ter combinado que estaria com o amigo. Afinal, estava a uma semana do dia, todavia pegava-se ansioso para dizer que tinha iniciado a releitura do Dom Quixote, a história que Antero tanto o instigara a rever.

Eram 10 horas de uma fria manhã de julho. Envolvida pelo aço frio e os vidros embaçados do vagão, boa parte dos presentes pode ouvir a insistência estridente do toque de um telefone celular. Era um arremedo ardido de desesperada sirene, mesclado a um compasso jazzístico. Distraído Jorge somente se deu conta que era seu o telefone quando se lembrou que trazia enganchada ao corpo a enorme mochila que sua filha havia insistido que levasse para transportar com segurança o excesso de apetrechos que transportava extraordinariamente naquele dia. À maneira das formigas, ele vinha, pouco a pouco, fazendo sua mudança de residência. Atabalhoadamente fuçou a mochila até que encontrou o aparelho que a essa altura já deixara de chamar. Constatou que a ligação vinha de João Franco, seu primo e sócio em recente empreendimento comercial. “Alguém tem que arrumar algum“, - Ele dizia sempre quando se referia a qualquer atividade comercial em que estivesse envolvido.

Já fora da estação, em frente ao templo de Santa Cecília, resolveu retornar a ligação. Teclou e ao primeiro toque, para seu espanto, João atendeu. O inusitado o deixou inquieto.

- Diga Joe, - era assim que desde criança ambos se tratavam.

- E aí Joe, respondeu o primo emendando com a triste notícia que o pai de Jorge falecera no início daquela manhã, em Taubaté.

Apesar de esperado, tendo em vista uma doença grave, o fato caiu como uma gelada lambada de cachoeira.

- Putz, Que foda hein! – Refletiu triste, porém simultaneamente reviu, em pensamento a imagem de seu pai a sorrir. Conformado sussurrou, descansou! Que Deus o tenha.

Claudio Zumckeller

0 comentários:

Postar um comentário