6 de janeiro de 2011

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Oitavo Capítulo - Nicola, o embusteiro
Negócios e as superstições

Desde adolescente e durante toda a juventude Nicola fora alcoólatra. Há alguns anos, perto de cinco ou seis, ele se tornou abstêmio e fanaticamente moralista. Conduta calculadamente ilibada, em tudo o que faz ou pensa, despeja horas de reflexão. Radical, ele rejeita drástico toda e qualquer situação sem prévio estudo e calculado plano. Sequer é capaz de perdoar a si mesmo por soluços casuais ou súbitas flatulências. “Nada se constrói sem projeto”, este é o jargão que cita e recita em sua milimétrica e previsível existência. O trânsito caótico da São Paulo do século 21, as fortes chuvas e suas pavorosas inundações, os imprevistos, tais como a morte de um parente ou mesmo algum mal estar. Nada, absolutamente nada, o faz adiar seus compromissos e decisões. Exato, reto, sensato e correto são termos que invariavelmente povoam sua fala firme que reverbera uma impecável e postada voz. Um tanto pedante e pretensioso, - Foi a impressão primeira que ele causou a Lídia. Na ocasião, por conta do fechamento de um negócio imobiliário ela teve a oportunidade de estar com essa criatura singular. Ele viera então como acompanhante de Alberto e Sara. Um tio ou parente próximo? Pensou. Alguém que estivesse prestando um aconselhamento solidário ao jovial e recém casado par? Refletiu. De certa forma era mais ou menos isso mesmo, todavia Lídia não enxergou e muito menos pode prever o quão curioso seria conhecer personagem tão rara.

- Um bom lugar pra passear, Copacabana!! Ele cantarolava essa música enquanto, a passos lentos e mãos nos bolsos, vistoriava o apartamento. Vez por outra nos jogava uma olhadela e sorria.

Ela relata intrigada aquele sinistro encontro e prossegue arremedando o Nicola

- Parece bom, ainda que totalmente fora de preço. O cara de pau concluiu sarcástico - comentou indignada.

-Não gostei nada da piada. Apenas sorri amarelo – Ela prossegue

- Era o terceiro imóvel que visitávamos no dia. Diante do empecilho tomei a atitude, porém com suavidade, - quando se está corretor, há que se conter para não engrossar, - questionei o par de pombitos,- ela continua contando o caso.

- São 02 dormitórios, suíte, 01 vaga para auto, dependência de empregada, lazer total e próximo à estação do metrô. Não é tal como vocês queriam?

É sim...., disse Alberto e antes de concluir a fala foi interrompido pelo pentelho.

- Este apartamento tem um astral estranho, sei lá.... estou arrepiado, olha!

Disse exibindo o peludo antebraço, que segundo ele comprovava o mau agouro.

Que merda! Ela Pensou. Esse era o ideal, a bola na caçapa. E esse porra! Agora para embaçar.

Nesse ponto da história ela me conta que refletiu dois minutos e não titubeou. Com a desculpa de mostrar a garagem, pediu ao casal que chamasse o elevador. Enquanto saiam, convocou a figura para que a ajudasse a fechar as janelas e emendou severa.

- Meu! Tá querendo queimar o negócio por quê?

- Ao contrário. Ele disse seco e olhou profundamente em seus olhos.

- Se eu disser que espanto os maus espíritos , não só eles compram como também me pagam pelo serviço. Agora, e quanto a você? Vai morrer com os 10% da sua comissão?

- Não tem erro! - Ela relata que topou imediatamente. As contas pra pagar, a mãe doente e o marido desempregado definiam a opção.

- Deixa comigo! Ele disse, apontando o olho para o casal que já aguardava com a porta do elevador aberta.

Resumo, ela conta que fechou o negócio e que no dia anterior à data da escritura e recebimento, logo ao chegar ao escritório, abriu o envelope que o correio deixou e deparou com o cartão: Nicola Madeira, consultor espiritual. No verso os dados para o depósito bancário e o lembrete: em dinheiro, por favor. Grato, abraços.

Claudio Zumckeller

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