12 de dezembro de 2010

UMUNDUNU – MUDAR O MUNDO OU CALAR

Houve um tempo em que cursar uma faculdade de Jornalismo tinha uma aura de rebeldia e desejo do estudante em mudar o mundo. Essa tônica o compelia aos bancos acadêmicos das grandes universidades. Mudar o mundo.

O desejo de alterar o status quo e derrubar o establishment com uma caneta, um bloquinho e um gravador. E com os pés na lama. Com o cheiro da rua. Ajudar o indefeso. Se embebedar com a noite, observar e ouvir mais do que falar. O desejo de cair no mundo, de amparar o incauto, derrotar o poderoso corrupto, vencer pela investigação, pela curiosidade e pela obstinação em conseguir boas histórias. Contar a história e, assim, fazer a história. Enfim, mudar o mundo.
A realidade chegou e o que apareceu não foi um mundo melhor. Não do ponto de vista do curioso, fuçador de lixo, observador, obstinado ou invencível jornalista. Ao contrário, a utopia juvenil esvaiu-se com a mesma velocidade com que nasceram novos cursos de Jornalismo, com a mesma ferocidade com que o mercado engoliu o profissional na linha de produção de leads e alimentou os desejos dos donos dos veículos, de vender muito e lucrar mais ainda. Com menos. E menos, em Jornalismo, significa não fazer Jornalismo.

Redações esvaziadas, jornalistas mal pagos, sindicato ignóbil, censura judicial e até assassinatos é o que o recém formado jornalista encontrará na rua – isso quando ele tiver coragem de sair às ruas.

Até certo ponto o Jornalismo sempre teve que remar contra as adversidades do autoritarismo ditatorial, que tortura e mata os que lutam pela liberdade de expressão e por justiça social, papéis fundamentais ao bom jornalista. Assassinatos são corriqueiros desde que Johannes Gutenberg inventou a prensa de tipos móveis. Jean-Paul Marat que o diga. Se os inimigos do povo se calam diante das injustiças, o jornalista deve fazê-lo gritar. Quando o poderoso se esconde, o jornalista deve jogar luz sobre ele. Com sua caneta, bloquinho, gravador e, nos tempos atuais, com o seu laptop ou mesmo publicando em um blog na internet.

Dirão que a evolução do Jornalismo acompanhou o avanço das tecnologias. Sinal dos tempos. O mesmo jornalista que outrora sujava suas botas na lama, hoje nem sai da redação, pendurado ao telefone, fixo ou móvel, grudado numa tela de computador ou bebendo um cafezinho com o editor. Ele ainda gosta de calçar botas, mas as Timberlands compradas em várias prestações de hoje em nada lembram as velhas sete léguas.

O cheiro da rua não aparece mais no texto, as boas histórias vão morrendo com a mesma velocidade que o indefeso que deveríamos ajudar. A fala embaçada da noite se cala diante de um Jornalismo vagabundo e preguiçoso, incapaz de beber junto dela. Incapaz de se embebedar com uma realidade distópica que desejaríamos mudar. Mudar com o olhar, com o falar, com o escrever. Mudar, mudar, mudar.

Dirão que o mundo já mudou, e eu concordarei. Contudo não foram os idealistas que se formaram nas atuais escolas de Jornalismo que o fizeram. Mutatis mutandis, eles apenas repetem oficial e “oficiosamente” as declarações dos que conseguiram vencer.

Crônica de Rodrigo De Giuli, originalmente publicada no livro “JORNALISMO: O PAPEL DO CANUDO DE PAPEL” (Ed. In House, 2010)

Um comentário:

  1. “Jornalismo de verdade consiste em publicar algo que alguém não quer que seja publicado. Todo o resto são relações públicas”.

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