15 de dezembro de 2010

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Sexto Capítulo - Crepúsculo francês
Estrelando João Franco e Cristine Montellet


O toc-toc-toc insistente das batidas na porta do quarto e a doce voz de madame Suzane fizeram João despertar assustado. A noite anterior tinha sido tumultuada e boêmia. Em companhia de brasileiros que viviam de biscates na Paris dos anos 70, ele tinha exagerado na dose. A mente turva e a boca seca responderam.

- Sim! Diga! Oi! Quem? – Um tanto confuso buscava lembrar aonde é que estava acordando.
- Bom dia! Tem uma mulher na portaria que está a sua espera, o nome dela é Cristine. Já são 11 horas! Você dormiu bem? – ela insistiu, desta vez com uma pitada de certa irritação francesa.

Ressaca a parte, João, que sonhava com Salvador, caiu na real e despertou na França.

- Ah! Está bem, por gentileza, diga que desço em quinze minutos.

A ducha rápida, um gole de café e lá estava feliz da vida a beijar a namorada apaixonadamente diante do sorriso cúmplice do porteiro do edifício Verdi.

Olhos azuis de um azul marinho mediterrâneo, cabelos curtos e negros, Cristine atravessava as agruras de um casamento frustrado e via no jovem viajante solitário, uma garupa para cavalgar alguma aventura e escapar assim do seu tédio momentâneo. A música brasileira, sobretudo a Bossa Nova, encantava seus ouvidos de pianista. Embora ganhasse a vida como bancária, era a música seu verdadeiro dom e paixão.

- Ah! Como eu gostaria de aprender essa batida – ela dizia, marcando o compasso enquanto ouviam João Donato.
- Você me ensina? – Pedia com a boca de quem desejava muito mais que o balanço e a harmonia. Ela fazia ver que queria ser amada.

Caía uma fina e gelada garoa, o taxi parou em frente à farmácia na rua monge, ela apontou para uma pequena varanda na sobreloja e disse é aqui.

- O apartamento é da Silvie, ela viajou e deixou as chaves. Allons y, mon ami!

O pequeno Studio era aconchegante. Aquecimento central, bebidas na cristaleira, tapete marroquino e um piano de parede. Um doce odor de romantismo encantou o canto ao fundo logo que ela ascendeu duas pequenas lanternas. João sorriu, acomodou sua jaqueta no chapeleiro e disse.

- É bom estar com você.
- Tu veut du vin?

Algumas vezes Cristine, que falava um português engraçado, assumia seu francês e incendiava o corpo de João. Ele, que arrastava bem pouco a língua de Napoleão, não podendo esconder o tesão, arriscava uma fala mais sexy com seu curto e tradicional ça va.

O relógio de mesa badalava grave e sonoro quando acordaram desnudos. Sapatos misturados e espalhados entre as lingeries. Cristine vestiu a camisa de João, foi apanhar cigarros, mas não voltou, sentou-se ao piano e se pôs a dedilhar uns acordes que remedavam Garota de Ipanema.

- Pá – pa – Pará – pára- rá .... , com os olhos fechados cantarolava e sorria.

Aquela cena, como um ímã, fez com que João levantasse mansamente e fosse se acomodar ajoelhado entre ela e o piano e ali se mantivesse a passear na geografia de suas coxas.

Ainda que totalmente envolvida com a busca sonora, Cristine não pôde deixar de sentir a respiração de João muito próxima de suas coxas, mas ainda assim prosseguia arriscando o compasso. Seus joelhos se movimentavam lateralmente a buscar os pedais enquanto um cadenciado arrepio, como uma onda de ar quente lhe percorria o corpo todo e ela percebia que a música ecoava cada vez com mais balanço. Enfim, estava conseguindo a sonhada batida da bossa nova, cuja marcação, João lhe passava em seu sussurrado pá- pará- pará- pa- pará soprado virilhas a dentro.

Claudio Zumckeller

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