8 de dezembro de 2010

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Noches de juegos
Quinto Capítulo - Uma palestra

Este recorte se refere à resposta de Jean Prosak, 48 anos, professor de semiologia, crítico literário, violoncelista autodidata e poeta underground, durante a palestra “Leitura da Notícia Jornalística” realizada no auditório da faculdade livre de Comunicação Social - as escolas alternativas eram comuns na ilha de Baratária. Corriam os tempos de uma recente lei que exigia diploma superior em escola reconhecida pelo Rei, para exercer o ofício do jornalismo.

Lá pelo início dos anos 70, noite de sexta feira, auditório repleto. Finalizados os testes de som, abriu-se o concorrido evento com uma breve apresentação do convidado que mal concluía a fala e já percebia o cabeludo mancebo que, bastante agitado, lhe acenava para apresentar sua pergunta.

Com um sorriso irônico diante da ansiedade do indagador, consentiu que a moçoila que colaborava com a conferência lhe entregasse o microfone.

- Pois não! - acrescentou incomodado com o “tuc- tuc” do dedo do rapaz a confirmar a qualidade sonora do microfone.

- Boa noite, professor, meu nome é Jorge Onofre, sou estudante de Filosofia, solteiro, vacinado e indignado.

Como o silêncio persistiu, tratou logo de prosseguir pretendendo demonstrar indiferença com a ausência dos desejados risos.

- Professor, o que é notícia jornalística? – Completou incorporando ares de provocador capcioso.

- Bem... Jorge, um fato, antes de se tornar notícia, é um fenômeno, solto entre infinitos outros possíveis que se dão simultaneamente no espaço. O status de fato é, já, uma qualidade que um sujeito atribuiu. Uma escolha seletiva dentre a totalidade inestimável. Quando então se torna notícia jornalística, isto é publicação, mais ainda o acontecimento está comprometido com variada sorte de subjetividades... – Nesse momento, para espantar a seca tosse que subitamente lhe avassalava a fala, dispensou o copo e apressado meteu o gargalo da garrafa goela abaixo. Dois grandes goles, uma pigarreada para limpar o gogó e após se desculpar prosseguiu.

- Se o entendimento aliado aos sentidos e à intuição, se permitir experimentar abstraidamente, afastado das interpretações do senso comum, da ciência, dos dogmas, enfim, isolado de toda e qualquer qualificação exterior...

Outra pausa fazia enxergar que algo em sua garganta o incomodava, desta feita respirou fundo, meneou levemente a cabeça e retomou o argumento, com acentuada vermelhidão nas faces.

- ...Como que recolocando o acontecido na original situação de fenômeno, estará aí aberta a possibilidade de ampliação do sentido cristalizado que a priori comportava, já que, cada acontecimento ocorrendo em tempo e espaço próprios traz, por isso, o caráter de inusitado. Portanto sua desconstrução e reexame, ainda que por abstração, permitirá enxergar-lhe possibilidades diversas.

Por exemplo: boa parte da massa humana que engrossa a população das favelas e do sistema carcerário tem sua origem, além de outros fatores, na abolição da escravatura; que por sua vez, se deu por conta de mudanças econômicas que impuseram um modo de produção em que a mão de obra escrava se tornou dispensável. O libertado desta maneira ganha com sua liberdade também o desemprego e o olho da rua. Onde passa a perambular acompanhado de sua prole.

De posse desta reflexão, notícias com títulos como: Foi abolida a escravidão, Reinado promete ampliar complexo carcerário ou Invasores tomam terras da Coroa, ganham novas perspectivas, e a releitura, um entendimento ampliado. Finalizou convencido de ter, não somente respondido satisfatoriamente a questão, como também aprofundado o tema.

Sobrancelhas elevadas, pleno de si em pretensa erudição apontou com o olhar para que passassem a palavra a outro perguntador que já se candidatava.

Apresentando certa perplexidade em sua satisfação à resposta Jorge agradeceu e, distraído, enquanto aguardava a estudante que vinha para apanhar o microfone, deixou que os amplificadores repercutissem seu curioso e sussurrado comentário.

- Ôrra meu, é foda! Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A mesma coisa em outro tempo e espaço é outra coisa. Concluiu.

E aí sim, sentiu, com algum desapontamento, desabar imenso e inesperado temporal de risos e apupos. Entretanto pretendendo demonstrar que conservara o prumo, agradeceu com largo riso e espalhafatosos acenos que lhe renderam o imediato e inescapável olhar de reprovação de Alzirinha Pessoa, sua namorada e fiel escudeira nas madrugadas do amargo absolutismo.

Crônica de Claudio Zumckller, originalmente publicada no livro “JORNALISMO: O PAPEL DO CANUDO DE PAPEL” (Ed. In House, 2010)


Claudio Zumckeller

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