26 de novembro de 2010

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Estrelando: Jorge Onofre e Alzirinha Pessoa.

Noches de juegos
Quarto Capítulo - Sobre o autor


Acontece que Cervantes, o autor, cristão, filho de um cirurgião com uma nobre espanhola empobrecida, por uma questão de sobrevivência se engajou em lutas contra os turcos otomanos. As batalhas, contudo apresentavam, no início do século 17, um tipo de luta diferenciada daquelas de cavalaria andante. As grandes navegações já com seus poderosos canhões estavam em franco desenvolvimento. Os grandes ataques se davam então pelos mares. Mas o ódio contra o invasor fora plantado há muito, através das cruzadas e da literatura que transformara aqueles cavaleiros medievais em heróis comparáveis ao que modernamente chamamos super heróis. Esses “Exterminadores do Futuro”, “Homens Aranha” daquela época representavam o protótipo do implacável defensor da moral cristã frente ao intruso e estúpido mouro. A diferença é que eram cavaleiros de lança e espada, mas a ficção lhes dera poderes tão sobrenaturais quanto aqueles de um Batman.

Compreende? Encerrou satisfeito.

Um tanto estonteado pela demorada narração, Jorge retrucou lamentoso

- É por estas e outras que nunca tive muita paciência com leituras . Afinal o que tem a ver Miguel de Cervantes com o pacato sitiante, além de obviamente, ao menos ao que parece, ter sido o criador de tal personagem. E mais, essa história de ódio ao islamismo está me parecendo repetição do que se passa hoje.

Após uns minutos de ar perplexo e olhar perdido no tempo, o amigo retoma então

- Podemos dizer que sim. É podemos, - concluiu como quem tivesse viajado pelos séculos e acabasse de aterrissar naquele instante.

- As últimas guerras mobilizadas pelos Estados Unidos e aliados têm motivação semelhante, ao menos no que tange a questão do islamismo. Mas vamos deixar esse papo pra outra hora, - disse delicadamente elevando o pulso esquerdo para exibir o falso Rolex, como que a dizer que tinha mais o que fazer, e se despediu com carinho. Um forte aperto de mãos e aquelas velhas promessas ao vento, acompanhavam sua palavras.

- Dia destes combinamos um chopp, me liga. E apressou o passo sorrindo para apanhar o taxi, deixando Onofre também a sorrir, todavia matutando acerca do que teria levado seu amigo a enveredar pelos caminhos da compreensão da tal leitura e, o que considerava pior, levar tão a sério o decifrar histórias que lhe pareciam sem qualquer importância. A muita leitura confunde a moleira e não enche barriga,- lembrou do ditado que seu avô recitava.

Deixado de lado o pensamento sobre o amigo, caminhava pela rua São Bento, quando se surpreendeu com a enorme quantidade de Bolivianos trabalhando como camelôs, - seria o início de uma grande integração latino americana, pensou. Notou também o quanto aqueles espécimes eram parecidos com os índios brasileiros. Seria a América do Sul um torrão habitado na antiguidade por gentes que tinham em comum aquela fisionomia?,- Refletiu a sorrir e logo deixou de lado ao entrar pela rua Álvares Penteado e se pegar admirando o prédio do Centro Cultural Banco do Brasil. Aquela arquitetura lhe remetia, sem escala, ao seus tempos de Faculdade de Arquitetura. Sua memória então o despejou em uma palestra em que estivera em companhia de Alzirinha então estudante jornalismo.

Claudio Zumckeller

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