20 de novembro de 2010

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Estrelando: Jorge Onofre e Alzirinha Pessoa.

Noches de juegos
Terceiro Capítulo - Para trocar em miúdos

- Grosso modo, vou tentar lhe explicar o que rola nesta trama, - disse o amigo entusiasmado, demonstrando tanto prazer por entrar na questão, quanto um pescador por fisgar um grande peixe, e assim prosseguiu diante do brilho cético do olhar de seu indagador.

- Na Espanha, lá pelo final do século 16, em uma região vasta denominada La mancha, vivia pacatamente um tipo que, trazendo para os nossos dias, poderíamos comparar, digamos, com algum pequeno e bem sucedido proprietário rural paulista, qualquer sujeito de valores morais estruturados, conduta mansa e cuja renda da produção própria lhe garantisse vida simples, porém farta e digna. A velha pick-up, o pequeno trator, plantadeira, trinta ou quarenta alqueires de chão, boa roça de milho, feijão, arroz e mandioca. Aquela casa ampla com alpendre e serviçais, algum gado, galinhas, porcos, cavalos de boa montaria e mulas de trabalho.

- Um fazendeiro!
Arrematou Onofre impaciente, visando encurtar a prosa e demonstrar, sem qualquer cerimônia, algum enjôo ante aquela minuciosa descrição. E finalizou:

- Um sitiante digamos, está bem assim?

- É... Silenciou o amigo, um tanto constrangido pela energia da interpelação, mas acelerando a fala logo retomou.

- que... para não complicar e, quem sabe, trazer para a proximidade, dá para fazer uma analogia do tal indivíduo com qualquer morador urbano de hoje em dia, de grande cidade, que goze de vida equilibrada e se sinta tranquilo com sua situação; que se enxergue realizado; que seja pessoa de valores sedimentados e cuja vida mansa já proporcione algum tédio. Sim, este pode ser igualmente um similar do tipo em questão.

Encerrou com ares sábios de quem acabara de encontrar a chave para se fazer entender acerca um enredo concebido há quase meio século. Para ele, colocar a história em circunstâncias atuais facilitaria o entendimento de Onofre que naquele momento pretendeu refletir sobre sua própria existência e soltou um longo “Aahh! entendi “emendando desta vez grande curiosidade e maior animação.

- Mas o que houve então com o tal pacato cidadão?

- Aconteceu que, assim como a televisão com suas telenovelas, seus telejornalismos e seus anunciantes hoje, e, mais recentemente a internet, influenciam o comportamento das pessoas, naquele tempo, guardadas as devidas proporções, eram os livros que, com a invenção da prensa, ganhavam enorme poder para difundir as ideologias e assim promover perspectivas visando impor sentidos utilitários para a vida humana, além de outros engodos. O romance de cavalaria andante era o gênero que então proliferava. Eram novelas que reproduziam fantasticamente as grandes virtudes e a coragem de cavaleiros que na idade média combatiam o império muçulmano que se expandia por toda a Europa e dominava a península Ibérica. A literatura de cavalaria medieval era então de grande valia para alistamento de voluntários que, convencidos, engrossariam com vigor as forças pontifícias frente ao imperialismo muçulmano.

Claudio Zumckeller

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