6 de novembro de 2010

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Estrelando: Jorge Onofre e Alzirinha Pessoa.

Noches de juegos
Segundo Capítulo - Andanças


Não há sequer uma frase escrita sobre este personagem. As peripécias que contam a seu respeito permanecem há anos na oralidade. Seus narradores têm sido meros multiplicadores do que ouviram. Alguns há que se disseram presentes em episódios que sequer ocorreram. Suas aventuras e desventuras têm sido resenhadas pela fina flor da mediocridade. A turba que alimenta o ideário da fantasmagoria popular.

Além de ser o primeiro a escrever sua história, acrescento a promessa de isenção e fidedignidade. Não pretendo que meus relatos pareçam mais aprofundados e tampouco distantes da oralidade desenvolvida em torno desta figura singular. Entretanto estou certo de que niguém conhece melhor que suas razões e os desvarios.
Poucos sabem, por exemplo, a diversidade de ocupações que ele exerceu para sobreviver e sequer suspeitam da enorme variedade de locais em que viveu. Mas isso, assim como o número de mulheres que amou e os tantos filhos que fez vir ao mundo, pouco acrescentam ao histórico das atitudes estranhas que ele tomou vida a fora

Seu nome de batismo e tabelião, diziam ser, em Campos de Santana, Pedro Amílcar. Alguns anos se passaram porem, e na esteira dos muitos apelidos que adquiriu nas diversas vilas onde viveu ou perambulou, recebeu também nomes que lhe atribuíram pensando ser o seu original de pai e mãe. Todavia, Jorge Onofre, sem qualquer sombra de dúvida é verdadeiramente seu nome registrado em cartório.


Estatura mediana, olhar inquieto, bom de prosa e perguntador contumaz, contava Jorge Onofre então pelos quarenta anos quando casualmente reencontrou um amigo de infância que há muito não via e que trazia a tira colo uma edição do “Dom Quixote” de Miguel de Cervantes. Como tivesse há muito abandonado o hábito da leitura, apenas por delicadeza perguntou do que se tratava, após tomar a edição e displicentemente folhear. Sem levar a sério o amigo sorriu, inflou o peito, alinhou os óculos ao nariz, e se fazendo parecer grave, disse que se tratava de obra diferenciada, uma história destas que não admite que se tome por leitura totalmente concluída, e mais, que ainda não se sentia apto para dizer do que realmente se tratava, apesar de estar lendo pela quarta vez. Mas que, ainda assim, lhe adiantararia alguns aspectos, se lhe desse alguns minutos de atenção.

Sacramentando o acordo, Jorge acolheu a idéia e, um tanto contrariado, tratou de ser breve e sarcástico:
– Pô, Interessante hein! Conta então que toada é essa.

Claudio Zumckeller

0 comentários:

Postar um comentário