30 de agosto de 2010

UMUNDUNU – UM PANORAMA SOBRE O CINEMA BRASILEIRO

O cinema brasileiro - se pudermos datar - nasceu em 1898 com uma filmagem da Baía de Guanabara. Até 1920, os filmes eram totalmente autorais. Sem arestas aparadas, sem medo. O Brasil comandava o “triângulo cinematográfico”. A distribuição, produção e exibição eram tupiniquins.

Filmes para assistir: Ganga Bruta – 1931. Limite – 1929. Mulher – 1931. A Velha a Fiar – 1957.

Tivemos uma eufórica produção e os ciclos regionais começaram a se espalhar.
Entre 1914 e 1918, nossos diretores sofriam com a crise da película, o preço não cooperava. Alguns “vidas loucas” sempre ajudaram a segurar as pontas. Cito como homenagem: Paulo Emilio Salles Gomes, Severiano Ribeiro (que na década de 40, comprou salas de exibição) e Adhemar de Oliveira, que teve o ímpeto de industrializar o cinema no Brasil com a Cinédia.

A partir daí começamos a seguir a cartilha hollywoodiana impostamente. Obviamente, com a padronização norte-americana, as ‘loucuras’ e a cultura latina latente foram sumindo. Assim, nos fodemos. Singelamente. Educadamente.
Utilizo o palavreado inadequado dos Manuais de Redação, pois só ele serve para caracterizar o imaginário facilmente encontrado.

O cinema brasileiro ganhou estigma de ruim, fraco, pobre, erótico e explícito. Ganhou gêneros que se arrastam até hoje. Dando um salto no tempo, entendo parte das críticas aos “favela movie”. Mas quanto aos Westerns, feitos nos States e seguindo os mesmos parâmetros imaginários, dificilmente encontra-se crítica. Analisando profundamente, os filmes americanos atuais ainda carregam botas, cavalos, espingardas e índios mortos.
A pergunta era e ainda é: como representar o Brasil?

Após a Cinédia, outras produtoras lançaram-se. A Vera Cruz produzia filmes que custavam mais do que arrecadavam. Seu público-alvo era a burguesia paulista, no contexto pós-guerra. Começou com o “star system”. Criando estrelas e tendências para a mídia usar e abusar. Faliu em 1954.

Foi aí que nasceu a Atlântida. Carioca da gema, a produtora trouxe as chanchadas. Que eram rápidas e baratas. Comédias com um leve tom erótico. Parodiavam até o humor burlesco de Oscarito. Tinham Cyll Farney, as garotas da época desfaleciam quando viam o galã.

As pornochanchadas também vieram. O cinema ganhou fôlego. O gênero lotava as salas de cinema, enchia os bolsos dos produtores e, sem perceber, ia apagando e tomando conta de toda a história do cinema brasileiro para os mais incautos.

Filmes para assistir: Deus e o Diabo na Terra do Sol, Nem Sansão Nem Dalila, O Cangaceiro, O Pagador de Promessas (ganhou a Palma de Ouro, em Cannes), Porto das Caixas e Vidas Secas.

E o cinema novo chegou. Agora os intelectuais começaram a rodar filmes focando nos problemas do Brasil. Filmes incisivos. Filmes que traziam desde técnicas exploradas na Nouvelle Vague – movimento francês – até o ideal neo-realista italiano. Tivemos também o nosso movimento com o Cinema Marginal. Filmes que causavam mal-estar político e extremamente baratos. Mas isso é assunto pra outro texto. Tanto Nouvelle Vague e Neo-Realismo, quanto Cinema Marginal.

Filmes para assistir: Bandido da Luz Vermelha, O Anjo Nasceu, A Margem, Filme Demência e Ele, o Boto.

Outro salto. Nos anos 90, Fernando Collor extinguiu o Ministério da Cultura da Cultura e todo auxilio possível para o cinema brasileiro. Resultado: 20 filmes feitos em 1991 e apenas três em 1993. Futuramente, a burrada foi corrigida com a Lei Roaunet. O empresário não corria mais risco em investir com a lei promulgada.

Após toda essa linha histórica, chego ao clímax. Afirmo convicto que 5 ou 6 filmes dos anos 2000 do cinema brasileiro foram melhores do que toda essa década em Hollywood. Enquanto os filmes das empresas que residem em Los Angeles ganham em feitos especiais de encher os olhos, perdem em qualidade. Perdem em roteiro. Perdem em identidade. Lástima que para a maioria dos consumidores, milhões de corpos voando, naves espaciais e planetas amazônicos futurísticos seja sinal de qualidade. Não só consumidores, há críticos que se esqueceram de como é um bom filme.

Não, não temos efeito especial, muito menos ‘espacial’. Temos reflexão.

Estes são alguns dos filmes produzidos desde 2000, melhores do que 90% dos que você encontra entre os maiores lançamentos de Hollywood:

À Deriva, Abril Despedaçado, Amarelo Manga, Árido Movie, Baixio das Bestas, Cinemas Aspirinas e Urubus, Estômago, Mutum, O Cheiro do Ralo, Se Nada Mais Der Certo, Cafundó, Histórias de Amor duram 90 Minutos, Quarta B, Quando Vale ou é por Quilo?, A Concepção, A Festa da Menina Morta, Feliz Natal, Filmefobia e Apenas o Fim.

Felipe Payão

4 comentários:

  1. Adoro as pornochanchadas!

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  2. Olá, adorei seu blog... To começando agora com a vida blogueira... www.levandoavida.blog.com

    Sinceramente não gostei da "Festa da menina morta" (estou no meu direito vai), achei um tanto agressivo demais... Porém grande parte dos filmes comentados aí foram vistos e adorados, pelo menos por mim, com especial atenção para "A deriva", "Amarelo Manga", e principalmente "Quanto vale ou é por quilo?"... São exepcionais!

    Abraços!

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  3. Olá "anônima",

    Está no seu direito sim, mas acredito que é uma 'agressividade velada' e necessária. Acho que é um dos filmes que mais gostei destes da lista.
    Estes outros que comentou, realmente são excepcionais!
    Obrigado pela visita e volte sempre!

    Abraços,
    Felipe Payão

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