27 de agosto de 2010

REALPOLITIK – DO CACARECO AO TIRIRICA

Em 1958, o rinoceronte Cacareco foi “eleito” vereador da cidade de São Paulo. O famoso mamífero da família dos Rhinocerotidae obteve, à época, quase 100 mil votos, sendo o “candidato” mais votado no pleito. Cacareco vivia no Jardim Zoológico de São Paulo, sendo uma das principais atrações do parque, inaugurado oficialmente no ano seguinte. Cansados do “rouba mas faz” de Adhemar de Barros e da retórica complicada e contraditória de Jânio Quadros, a população teve em Cacareco um representante legítimo do voto de protesto, hoje impossibilitado de escancarar o descontentamento pela simples existência da urna eletrônica.

O palhaço-cantor Francisco Everaldo Oliveira Silva, 45 anos, conhecido como Tiririca, é candidato a deputado federal pelo Partido da República (PR), e tem como slogan de campanha “Vote no Tiritica, pior do que está não fica”. Este aforismo é, ao mesmo tempo, resultado de sintomas crônico e agudo com que a população carente de saúde, educação, transporte, segurança ou emprego enxerga a classe política brasileira, outrora dominada por nomes como Rui Barbosa e os que sempre lutaram contra as ditaduras impostas, militares ou getulinas. Política hoje é quase um pleonasmo de “roubo, desvio de erário, fraude, estelionato, assassinato (quem se interessar, pergunte a São Google quem foi Arnon de Mello e Hildebrando Pascoal), formação de quadrilha e toda a sorte de artigos dos códigos civil e penal”.

Pode-se pensar em Tiririca como o Cacareco da vez. Ledo engano. O voto de protesto se encarnou em Enéas Ferreira Caneiro, na eleição de 1989, com seu bordão “Meu nome é Enéas!”, uma retórica furiosa e a bomba atômica como principalis pontos de campanha. Barbudo, careca, magro e baixinho, o médico cardiologista, matemático e filósofo chamou a atenção da mídia ao alcançar, quase sem nenhum espaço (tinha poucos segundos no horário eleitoral) e visibilidade (como sempre, os meios de comunicação de massa “focaram” os principais), o quarto lugar na disputa vencida por Fernando Collor de Mello. Antes de Enéas, o grupo humorístico Casseta & Planeta lançou o célebre macaco Tião à prefeitura do Rio, uma espécie de Cacareco carioca. Tião, o macaco do Zoológico do Rio de Janeiro, obteve 400 mil votos e terminou em terceiro lugar na eleição carioca.

Há outros casos menos nobres, como o de alguns atletas aposentados e artistas que já haviam conseguido se eleger para cargos minoritários. O ex-pugilista Eder Jofre, os ex-ídolos do Corinthians Biro-Biro e Wladimir, o também ex-craque do Palmeiras Ademir da Guia, e o cantor Agnaldo Timóteo estão entre eles. No entanto, o caso mais impactante, tanto pelo aspecto midiático como pelo número de votos alcançado é o do ex-costureiro Clodovil Hernandes, morto ano passado, com quase 500 mil votos. Polêmico e polemista, Clodovil abriu a caixa de Pandora da política brasileira, ao mostrar o caminho para que “subcelebridades” tomem o rumo do Planalto Central e representem-nos nas altas câmaras do poder.

Os tempos pós-Adhemar de Barros, com expoentes de folha corrida da estirpe de Paulo Maluf, Jader Barbalho, Antônio Carlos Magalhães, o clã de José Sarney e seus asseclas, todos os coronéis não só nordestinos, mas cá do “sul maravilha” também, por que não?, formam este pastiche de política do “uma mão lava a outra e ambas lavam o dinheiro desviado de obras públicas e das concorrências fraudulentas”.

Não é de se estranhar que, na esteira de mensalões, mensalinhos, ambulâncias e vampiros, surgisse uma leva de neopolíticos em busca de seu quinhão. O naco que caberá a cada um é infinitamente maior do que as miúdas parcelas das bolsas tais distribuídas como o novo “voto de cabresto”. Neófitos das poltronas acolchoadas dos plenários de carpete azul, estes “personagens de si mesmos” buscam empanturrar-se de nosso suado terço trabalhado todo ano para que o Estado, supostamente, pudesse investir em tudo o que nos carece de qualidade.

Que não se façam com estas “subcelebridades” o que se pensou ao escolher Cacareco e Tião: o voto de protesto da vez. Este tiro sairá pela culatra e o atingirá diretamente na cara. Simples assim.

Rodrigo De Giuli

6 comentários:

  1. Concordo plenamente. É um absurdo esses caras virem nesta merda de horário político e tirarem sarro da nossa cara... Mas, como o povo tá acostumado a eleger certo tipo de "gente" eu não duvido que Netinho seja eleito Senador, Tiririca Dep. Federal e por aí vai. É... como sempre digo... cada povo tem o político que merece!

    ps.: e não é só no Brasil... O Exterminador do Futuro governa a Califórnia, parece piada, mas não é.

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  2. O povo está cada vez mais burro, com tal eslogam de 'Pior que ta não fica' ele já tem muitos votos garantidos. Não entendo por que já que querem mudar alguma coisa, não tomam alguma atitude certa, não procuram se educar e entender ao menos no que e em quem estão votando.
    É realmente um absurdo os eleitores não saberem o que fazem.

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  3. Quando tecla um nome para representá-lo, seja educado ou esclarecido, o cidadão entrega seu destino ao outro. Delega a resolução de questões fundamentais da sua existência. Assim fica para sempre querendo crer que alguém vai resolver sua vida e a vida da sua nação.

    Até quando a mobilização política, diuturna e ininterrupta; a discussão perene; a contestação cotidiana; e enfim, a luta incansável de cada um pelo direito, terá que ser encargo do alheio?

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  4. Claudio,
    Excelente questão. O problema não é "delegar resoluções fundamentais da nossa existência". O problema é que o voto é OBRIGATÓRIO. Que cada um cuidasse da sua vida como lhe conviesse seria o ideal, claro, contudo, ao discutir o voto de protesto - ou o voto nulo, no meu caso - é debater uma questão espinhosa que até agora NENHUM político se atreveu a colocar o dedo: Reforma Política. Como reforma, entende-se voto facultativo e distrital, fim da reeleição, premissa da devolução do mandato em caso de infidelidade partidária, eleições gerais com mandatos de 5 anos, fim da imunidade parlamentar (necessária durante a ditadura do regime militar, mas anacrônica na democracia), diminuição - ou fim - das nomeações para cargos de confiança, proibição da - e penalidades como cassação de mandato pela - prática de nepotismo, inclusive o novo modelo, "cruzado" etc. Acredito que o fim do voto obrigatório, por si só, já melhoraria o nível das propostas e até mesmo dos candidatos. É evidente que ocorrerão casos de compra de votos em maior número, mas isso ocorre (e continuaria a acontecer) por causa da impunidade - de quem vende e de quem compra.
    Agora... Se o que você defende é o ANARQUISMO, eu concordo. Utopia fantástica, a revolução que queimaria os palácios acarpetados do planalto central e cortaria cabeças sobre nós de gravata italiana compradas com o nosso dinheiro. Eu topo, estou dentro, conte comigo!
    Abraços,

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  5. Então a mobilização deve ser por uma reforma política ampla e urgente. Colhamos assinaturas desfraldemos esta bandeira com o mesmo ímpeto com o qual lotamos estádios de futebol e nos degladiamos apaixonadamente com nossos concidadãos. Gritemos por isso dia e noite. Se
    "Utopia fantástica" é tudo aquilo que ultrpassa a legalidade implorada a terceiros. Tudo o que transcende o que relegamos ao plano do outro. Por que não! Ou seria melhor atuar orgânicamente enganado pela distopia burocrática da realidade imposta?
    Os palácios servirão à outros "Reis" e as gravatas aos seus nós. Dinheiro é um pedaço de papel....

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  6. que o Tiririca saia candidato e ganhe não é o pior... até se o bozo, o godzila, o king-kong, o mano menezes, qualquer um saísse e ganhasse não seria o pior da história...
    o pior dessa palhaçada toda, literalmente falando, é a falta de proposta de quem se diz sério... isso sim, é zombar da democracia.

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