28 de julho de 2010

7SÉRIE: DRAMAS & MELANCOLIAS

Estrelando: Jorge Onofre e Alzirinha Pessoa.

Noche de juegos
Primeiro capítulo

Ao chegar ao muquifo, Alzirinha desandou em muxoxos lamentando a morrinha que trescalava.
- Que merda! É aqui que você mora, cara!! Será que tem, ao menos, alguma coisa pra beber?
Diante do esculacho, Jorge Onofre não conseguiu disfarçar a indignação e mandou logo sua frase dileta:
- Gata! Cafôfo de homem só, sabe como é né, desarrumação planejada, mas berço quente. Tem Sangue de boi em baixo da pia, pega duas taças enquanto eu apronto pasta à Carbonara. Vá bene?

Com um beijinho mequetrefe estalado, ele lançou no ar seu romantismo para encerrar a fala.
Impondo ainda um climazinho de desconfiança, Alzirinha relaxou, largou a sandália no pé do bicama, deu um delicado beliscão no braço de Onofre e foi rebolando o vestido tubinho que exaltava sua protuberante e apetitosa bunda.
- Nossa! Que pouso! Ele balbuciou para si e deu início a confecção de um enorme baseado. Hábito que adquiriu nos anos 70, quando, ainda jovenzinho imberbe, morou em uma república estudantil na rua Capote Valente.
- É Spaghetti, né Jóoo?

Ela questionou docemente acenando que já se sentia em “casa” e que se encontrava ligeiramente ansiosa pela noite que se aproximava.
Jorge percebeu o lance e não vacilou. Acionou um cd de Bésame mucho na voz de Luís Miguel, tocou fogo na bomba e,distraidamente, apalpou os testículos como que a conferir se tudo estava no lugar.
Com um doce olhar de perdão pela cena tosca, Alzirinha sorriu e pediu para dar um tapinha na marijuana.

Não sem antes dar uma enorme tragada e, ainda a baforar fumaça, Onofre tomou-a bruscamente em seus braços e, após caloroso e longo beijo, lhe entregou o enorme e mal acabado cigarro.

Claudio Zumckeller

17 de julho de 2010

UMUNDUNU - CONFISSÕES DE ARISTIDES BORGES AMARO


Umas pérolas de Aristides Borges Amaro, o Tidão:

Encontro a figura chupando mexerica e saindo da feira livre, ele ia sobrecarregado pelo conteúdo de duas enormes sacolas.
- Diga lá Tidão! Fui dizendo enquanto lhe aliviava com uma das cargas.
- Opa! Como está, ilustre! Bom lhe ver, sobretudo com esse auxílio providencial. Vamos nessa!
E seguimos ladeira acima. Alguns passos e não deu outra, ele soltou o verbo:

- O Dr. me proibiu destilado. Agora só bebo ali em frente.
A família me entregou para os alcoólicos anônimos, preferi ser um bêbado conhecido. Meu melhor amigo Jack Daniels é um cachorro engarrafado.
A Dolores meteu o ovo em um copo de cachaça e depois de três dias, veio me mostrar o ovo apodrecido: nunca mais comi ovo.
Estou cismado com a luz do banheiro. Na madrugada passada, bastava eu abrir a porta e ela ascendia! Será que urinei na geladeira?
A Alzirinha, minha vizinha bancária, ao passar por mim e constatar minha embriaguez disse revoltada: bêbado!! Depois de olhá-la por alguns segundos, arrematei: Feiosa!! Ao menos amanhã fico bom!
Para a morte, entre Alzheimer e Parkinson, fico com o primeiro: a gente não lembra nada. Imagine levar o copo pro bico com aquela mão teimosa!

Já na entrada da Rua Franco Paulista avisto a Dolores vindo em nossa direção. Sorridente ela agradeceu e quis pegar a sacola, não permiti e só entreguei na cabeceira da escadaria que dá para o lar do casal.

- Obrigado, mano! Hora dessas lhe chamo pra um feijão turco.
Ave Maria!Vou aguardar, é a especialidade da Dolores!

Claudio Zumckller

8 de julho de 2010

UMUNUDUNU - DESABAFO DE UM JORNALISTA

É, eu ando de chinelo. Eu não faço a barba. Mal penteio o cabelo, isso quando não raspo. Sabe que até facilita a vida? É uma preocupação a menos saber se a juba está ou não “alinhada”.

Eu me visto mal. Não combino cores. Até hoje não sei o que é “ton sur ton”.
E olha que eu deveria saber de tudo.

Eu sou um mentiroso. Só não conto isso pra ninguém.

Não uso roupa de marca. Aliás, até uso. Meu tênis é Nike, a bermuda também.
Até por que foi uma das poucas que me serviu. Roupas mesmo, tenho apenas três. Minha camisa? Essa eu comprei no Carrefour. Liquidação, me custaram R$12,00 cada.

O único investimento que fiz em mim foram meus óculos, meus amigos.
Aí, você pensa: vagabundo? Nada disso, trabalho o mesmo tanto e às vezes até mais do que você. E isso para ganhar o dobro. O dobro de esporro, de dor de cabeça, de estresse... E menos da metade do seu salário. Não amigo, não é telemarketing.
Não sou louco.
Se bem que um pouco de insanidade não faz mal a ninguém.
Eu sou jornalista.

Grande coisa, você também pode ser.
Mas não vai.
Por que eu sou melhor.
Eu escrevo bem. E você? Tem coragem de escrever? Deixar centenas de pessoas lerem e te criticarem? Pois é, eu faço isso.
Se eles não gostam e me criticam. Mas já viu algum critico ser nome de rua. Avenida, ponte ou estádio? Nem eu.

A diferença é que você quando sai do escritório, desliga e vira um cidadão comum.
Eu não. Eu sou jornalista 24 horas por dia. Nas folgas e nas férias.
Isso não é profissão, é estilo de vida. Eu me divirto trabalhando e ainda recebo por isso. Mas sabe o que é mais divertido?
É que você ainda lê...

Eu não me acho foda. Eu sou foda!
Eu sou foda e você sabe disso.
E quando eu me formar vou continuar ganhando menos que você e trabalhando muito mais. Mas quem ri por último sou eu.
Eu sou feliz, eu ando de chinelo.
Não faço a barba.

Eu sou um vagabundo.
Aliás, um vagabundo nato.
Aliás, Renato.
Duas vezes nato. Nascido duas vezes.
Quem sabe da próxima eu nasça gentil.
Por que nessa, sou jornalista mesmo!

Renato Souza