21 de junho de 2010

REALPOLITIK – “EU ESTAVA MORTO, ME SENTIA ASSIM”


“Nasci em berço esplêndido. Meu pai era empresário, tinha uma pequena metalúrgica em Suzano. Ele está doente. Morávamos numa casa em condomínio fechado, cada membro da família tinha seu próprio carro. Ele é autodidata, nunca passou do então ensino primário, mas montou uma fábrica há 23 anos com o suor do rosto e a venda de um sítio. Hoje ele está ‘desempresado’, é a expressão que ele usa para justificar a falência da metalúrgica, que chegou a ter 150 funcionários. Minha mãe é pedagoga, formou-se no magistério, depois fez Pedagogia na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), na grande São Paulo. Atualmente ela trabalha numa creche mantida pela prefeitura de Poá, na mesma região.

Sou o caçula de 3 irmãos. O mais velho é advogado, trabalha num escritório da Faria Lima e o do meio é administrador de empresas. Ele cuidou dos negócios da empresa da família depois que meu pai ficou doente, até que ela faliu. Ambos se formaram na UMC. Meu pai pagou nosso colégio e a faculdade deles com alguma dificuldade, pois tudo que a metalúrgica lucrava, era reinvestido nela mesma, regra de bons negócios, segundo meu pai, conselho seguido à risca pelo meu irmão administrador.

Eu não fiz faculdade. Era músico, tocava rock numa banda formada pelos meus amigos da escola. Nunca fizemos grande coisa, estávamos mais pela aventura e pela noite, mulheres e bebidas. As drogas também, mas elas vieram depois. Abandonei qualquer carreira musical por outra carreira, uma branca e ardida. Eu já fumava maconha, mas achava que tinha o controle. Até que um colega me esticou uma carreira de cocaína e eu cheirei pela primeira vez. A sensação foi incrível. Viciei no mesmo instante, eu sabia.

Meus irmãos, até aquele momento, eram uma espécie de ídolos para mim. Eles são bonitos, altos, esportistas, saudáveis. Até ver meu irmão mais velho fumar maconha quando eu tinha 12 anos. O do meio, quando eu já terminava o ensino médio. Não os culpo, a fraqueza foi minha. Mas eram meus espelhos. Meus irmãos faziam tudo o que meu pai queria. Eu sempre fui rebelde, deixava minha mãe louca. Mas ela achava que eu sairia disso e nunca me dedurou ao meu pai. Eu teria sido internado na mesma hora.

Experimentei crack pela primeira vez há 5 anos. Estava com uma namorada, a Paula*, que estudava na USP. Sabe, aquele clima uspiano, maconha nos corredores da FFLCH, eu achava aquilo tudo infantil. Ela me incentivava a não fumar crack, mas como todos sabem, o cachimbo do diabo vicia no primeiro tuím. Ela me deixou e contou tudo para minha mãe. Era o fim. Meu pai ficou sabendo. Desesperou-se, brigou, tirou meu carro, parou de me dar dinheiro. Teve crises do coração, contraiu diabetes. A isso eu me culpo.

Comecei a roubar em Mogi das Cruzes mesmo, perto da estação. Vivia na rua e só voltava para casa quando meu pai não estava. Minha mãe me dava comida, roupa limpa, me deixava tomar banho. Depois de um tempo, eu só queria o dinheiro que ela me dava. Comida? Banho? Eu não tinha vontade de fazer nada. Só fumar, só de sentir o estalo na cabeça e deitar, viajar.

Fui preso pela primeira vez há três anos. O delegado de Suzano ligou para meu pai. Ele disse que era para eu passar um tempo na cadeia. Seria bom para mim e que eu veria onde eu iria parar se continuasse naquela vida. Só que aquela vida já estava impregnada no meu DNA. Não tinha mais volta. Eu estava morto, me sentia assim. Minha mãe foi na delegacia. Era sábado de manhã, dia lindo, ainda me lembro dela me olhando como se eu estivesse num caixão. Ela chorava por dentro. Ela também estava morrendo.

Meus pais tentaram me internar. Fiquei dois meses numa clínica em Guararema. Clima agradável, gente boa cuidando de nós. Mas eu só fingia lá dentro. Minha cabeça estava na pedra. Eu só queria fumar. Fugi. Morei um mês na Luz. Assaltei em semáforo, puxei bolsa de idosa na rua, ataquei mulheres jovens para conseguir dinheiro. Estava irreconhecível. Sujo, maltrapilho, magro. Estava morto.

Há 2 anos me internaram novamente. Eu havia voltado para casa. Estava acabado, mas a esperança de que minha mãe me acolheria era mais forte. Fui de trem. Pude perceber, nos poucos momentos de lucidez, como as pessoas me olhavam. Eu era um zumbi. Ninguém se sentou ao meu lado. Pensei em me matar, me jogar debaixo do trem. Desisti ao lembrar de todo o esforço da minha família. Cheguei em casa, minha mãe ligou para meu pai. Ambos me levaram para uma clínica em Santa Isabel.

Na nova clínica a vida era dura. Tínhamos que trabalhar. Era uma prisão, de certa forma. Fiquei lá quase um ano. Soube que a empresa de meu pai faliu quando eu saí da clínica. Meus irmãos me jogaram na cara, a culpa era minha. Todo o dinheiro gasto em tratamento, em buscas pela madrugada, o descanso que eles não tinham, as faltas de meu pai na metalúrgica para ajudar minha mãe. Meu irmão mais velho chegou a dizer que era mais barato me enterrar do que tentar salvar causa perdida. Ele tinha razão. Voltei a fumar.

Encontrei o fundo do poço. Voltei à região da Luz e assaltei novamente. Era noite de sexta, o trânsito estava parado na Avenida do Estado. Não sei como, mas vi, pela janela aberta, uma carteira no console do carro. Me enfiei pela porta do passageiro e tentei agarrá-la. O motorista de táxi puxou o revólver e atirou duas vezes. Só me lembro de acordar no Hospital das Clínicas com minha mãe ao meu lado. Estava amarrado na maca. Nunca pegaram o motorista que disparou em mim.

Faz seis meses que estou nesta clínica. Fica perto de meus pais. Como dizem aqui dentro, caminhando um passo de cada vez. Não sei se vou voltar a fumar. Espero que não. Mas nunca estarei curado. Preciso pensar em meus pais. Eles nunca desistiram de mim. Meu pai perdeu tudo e minha mãe morreu um pouco por dentro. Eles se separaram, mas vêm me visitar juntos. Meu pai está envelhecido, os cabelos ralos e brancos. Minha mãe está sempre triste, não se cuida mais como antes.

Comecei a namorar a Daniela* aqui na clínica. Ela é ex-policial e tem me ajudado muito, me aconselhado. Ela foi exonerada depois de ser pega várias vezes drogada, todas em horário de trabalho. Fazia batidas com a delegacia de entorpecentes. A chefia perdoava, dava uma chance, mas ela voltava a se drogar. Conheceu o crack e perdeu tudo, como eu, como minha família.

Saio daqui a três meses. Me sinto forte, confiante, mas ainda temeroso. Meus pais estão velhos, já não têm mais dinheiro como antes. Não posso acabar com a vida deles, com o descanso de uma vida inteira trabalhando para criar os três filhos. Não sei o que vai acontecer daqui para frente. Vou lutar, tentar ficar longe da pedra. Não bebo, não fumo, mas sei que está tudo aqui dentro, pronto para sair ao menor chamado. O tuím nunca mais vai me deixar.”

Depoimento de André*, 29 anos, usuário de crack em tratamento numa clínica de reabilitação de dependentes de droga de Mogi das Cruzes.

* Nomes fictícios a pedido do entrevistado

Rodrigo De Giuli

2 comentários:

  1. Um depoimento único, mas ao mesmo tempo plural.
    Parabéns!

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  2. estou emocionada c/ o relato deste moço.Espero q a família tenha forças p/ recomeçar.adorei o blog de vcs, aki tem d td!
    continuem assim

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