4 de junho de 2010

7CRÍTICA - DARCY RIBEIRO - PARTE 2: UMA OUTRA VISÃO


O POVO BRASILEIRO, DE DARCY RIBEIRO

“Darcy Ribeiro é um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve. Não apenas pela alta qualidade do seu trabalho e da sua produção de antropólogo, de educador e de escritor, mas também pela incrível capacidade de viver muitas vidas numa só, enquanto que a maioria de nós mal consegue viver uma”
Antonio Candido, Folha de São Paulo

A obra de Darcy Ribeiro, demonstra como o povo brasileiro veio fazendo a si mesmo para se tornar o que somos hoje.




Nascido em Montes Claros, Minas Gerais, Darcy Ribeiro (1922-1997), através de uma explanação histórico-antropológica se propõe a explicar a formação e o sentido do Brasil para revelar as origens da enorme desigualdade econômica que campeia até hoje entre nós. Desde as matrizes étnicas, passando pelo processo civilizatório escravista e genocida até a industrialização e urbanização, o autor expõe um trabalho embasado em anos de pesquisas e reflexões.

“Composta como uma constelação de áreas culturais, a configuração histórico-cultural brasileira conforma uma cultura nacional com alto grau de homogeneidade. Em cada uma delas, milhões de brasileiros, através de gerações, nascem e vivem toda a vida encontrando soluções para seus problemas vtais, motivações e explicações que lhes afiguram como o modo natural e necessário de exprimir sua humanidade e sua brasilidade.”

Formado em antropologia pela Universidade de São Paulo (USP), o autor busca a interpretação da história na contramão do etnocentrismo europeu, visando demonstrar a singularidade daquilo que qualifica como a macro-etnia brasileira.

Foi ministro chefe da Casa Civil no período em que João Goulart foi presidente da República, vice-governador do Rio de Janeiro (1983-87) durante o governo de Leonel Brizola, quando idealizou os Centros Integrados de Ensino Público (Cieps), e senador (1991-1997).

Uma obra que pretende revelar o povo brasileiro a si mesmo.

Explicar uma nação não é tarefa simples. Darcy Ribeiro foi, dentre tantos antropólogos, sociólogos, filósofos e historiadores, um dos que mais se aprofundaram na análise crítica do Brasil, buscando soluções criativas e engajadas voltadas sempre para o erguimento da auto-estima do povo brasileiro. Não são poucos os teóricos que consideram a obra do antropólogo ambiciosa.

O livro O povo brasileiro é a síntese do trabalho de Ribeiro, é sua vida. São estudos antropológicos, finalizados pouco antes de sua morte. Dividido em partes, o autor, leva mais de três décadas para concluí-lo, segue uma cronologia de quase 500 anos, sem deixar de perscrutar possibilidades de interpretação acerca de eras mais remotas. Desde a “descoberta da ilha de Vera Cruz”, passando pelo genocídio contra os nativos da colônia recém conquistada, o escravismo negro e indígena, o extrativismo de bens naturais, as monoculturas de exportação e as relações de compadrio, até os momentos em que a nova sociedade vai sendo moldada, ele persegue os motivos de tão desigual desenvolvimento.

Na ótica de Darcy Ribeiro, a “indiaiada”, na plenitude de sua nudez emplumada” é a primeira grande vítimas de colonizadores gananciosos, cujo o único e principal projeto era usurpar e saquear tudo o que fosse possível. Há teóricos que consideram sua teoria como Rousseauniana, no sentido romântico do “bom selvagem”, ponto de vista que pode ser refutado na primeira passada de olhos em que se encontra uma análise séria acerca do comportamento das varias etnias nativas presentes. É inegável a imparcialidade pertinente a análise da força bruta com que o colonizador impõe sua cultura políticos em detrimento da diversidade nativa e da posterior mestiçagem decorrida.

Quando relata a história recente do Brasil, sobre a chegada dos imigrantes, com a industrialização e consequente urbanização, o antropólogo novamente recorre à miscigenação e desculturação para explicar a nova sociedade. Moldaram-se aos costumes daqui, adaptaram-se rapidamente e integraram-se de maneira a formar um componente singular de uma nova “Romanidade”. Essa (des) identidade se repete através dos tempos: com o índio, com o negro escravizado, com o imigrante, fosse ele estrangeiro (contingente aportado em meados do século XIX e o início do XX), ou oriundos de outras regiões do país (especialmente do nordeste, a partir da década de 1930). Para o autor, tornamo-nos “latinos tardios de além-mar, amorenados na fusão com brancos e com pretos, afastados das tradições de suas matrizes ancestrais”.

Os números (gráficos e análises econômicas), as referências aos autores que o precederam e o rigor científico, não o impedem de revelar seu ponto de vista político, como ele mesmo escreve no último parágrafo do prefácio: “Portanto, não se iluda comigo (...) Sou homem de fé e partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um fundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas”.

“Um povo novo”, nas palavras de Ribeiro, é a expressão que mais se assenta à teoria por que o autor encadeia o trabalho. “Um novo modelo de estruturação societária”.

Outros conceitos abordados no livro como “cunhadismo”, “moinhos de gastar gente”, “povos transplantados”, “deseuropeus”, “desíndios” ou “desindianização”, “desafros”, “brasilíndios”, os vários “brasis” (o crioulo, o caboclo, o sertanejo ou o caipira), “transfiguração étnica”, levam rapidamente ao entendimento. O autor visita todos os espaços da formação da sociedade brasileira – e nas diversas camadas da “estrutura societária” que esta desenvolve, busca explicá-la, percorrendo incansavelmente toda a história do país.

Transcendendo a forma científica.

Acima e paralelamente ao conteúdo de O povo brasileiro, a forma de narrar deve ser destacada, na medida em que o literato Ribeiro se mostra presente e fluído. Científico, porém não cientificista, seu trabalho absorve a experiência do antropólogo com a literatura ensaísta e poética. Ainda que a formação do povo brasileiro tenha sido sua preocupação principal – o autor produz outras obras: Maíra, Eros e Tanatos, Uirá sai a procura de Deus e Utopia selvagem. São raros os estudos antropológicos como o de Darcy, que têm uma narrativa literária mesclada ao rigor científico sem perder o caráter de conhecimento objetivo.

Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro, apresenta seu ponto de vista político

O principal trabalho do antropólogo Darcy Ribeiro, a obra O povo brasileiro, estribada em ampla e sólida bibliografia, é leitura imprescindível a quem se interesse em conhecer aspectos da formação social e política do Brasil de um viés politizado e simultaneamente permeado por uma visão científica humana, no sentido em que sua obra mantém aberto o diálogo franco com outros trabalhos antropológicos, por vezes fundamentados exclusivamente em pesquisa documental.
O livro é um tratado fundamental, sua releitura torna-se urgente a cada novo passo civilizatório. Ribeiro é um autor que não se esconde sob a máscara da imparcialidade; ele faz questão de ser carne e osso em sua peculiaridade.

“Nós brasileiros, nesse quadro, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na “ninguendade”. Assim foi até se definir como uma identidade étnico-nacional, a de brasileiros”.


Claudio Zumckeller

Um comentário:

  1. a “indiaiada”, na plenitude de sua nudez emplumada” é a primeira grande vítimas de colonizadores gananciosos, cujo o único e principal projeto era usurpar e saquear tudo o que fosse possível.

    Digo, é a primeira grande vítima...

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