29 de junho de 2010

APOIO 7CO - Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo

"Realizado anualmente desde 2005 pela Abraji, o Congresso reúne jornalistas, estudantes e professores de jornalismo para discutir as melhores práticas jornalísticas e técnicas de reportagem. A edição de 2010 reforça a parceria da Abraji com a Universidade Anhembi Morumbi, que já sediou as palestras e cursos na 4ª edição do Congresso, realizada no ano passado em São Paulo. Entre os palestrantes estão alguns dos mais experientes jornalistas brasileiros e mais de dez convidados internacionais.

O evento é dividido em palestras e workshops simultâneos, baseados em dois grandes eixos temáticos: a cobertura das eleições de 2010, e de megaeventos esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Cada participante escolhe as palestras a que quer assistir e monta sua grade no ato de inscrição, tudo on-line. Além dos eixos temáticos, o 5º Congresso oferece cursos e palestras sobre fundamentos da reportagem e técnicas de RAC (Reportagem com Auxílio do Computador). A programação inclui também palestras sobre a cobertura da crise econômica e do meio ambiente, entre outros temas."

Dias 29, 30 e 31 de julho de 2010.

Mais informações: http://abraji.org.br/?id=112


7cismo

23 de junho de 2010

UMUNDUNU - A CHAVE DO CARRO

Não dá pra dizer que começamos a namorar. Mas já está tudo encaminhado para isso. Hoje à noite vamos sair. Marcamos de ir ao cinema. Ela mora próximo ao shopping, então não há necessidade de ir buscá-la. Até mesmo por que ia ficar feio eu aparecer na casa dela a pé para sairmos.

É sábado, fim de tarde. Essa hora não passa. É mais fácil amanhecer o domingo do que anoitecer esse sábado.
Banho tomado, barba feita. Hora de escolher a roupa. Tenho que caprichar na vestimenta. Não sou um primor de beleza então não posso fazer feio na beca.

Meu pai me pergunta. Vai sair?
Respondo. Sim, pai. Vou ao cinema.
Sozinho? Com os amigos? Ele questiona.
Não, pai. Vou sair com uma menina. Uma amiga minha.
Ele nada fala. Volta para a sala e continua a assistir a TV.

Eu no quarto. Já devidamente vestido e perfumado começo a amarrar o cadarço do tênis. Tarefa simples não fosse o meu problema com nós. Ainda mais eles sendo pequenos.
Sentado na cama, vejo os pés do meu pai vindo em minha direção.
Ele diz: Toma.
Pensei que fosse dinheiro. Eu trabalho, tenho minha grana. Não ia precisar da grana dele, não dessa vez.

Ao levantar a cabeça mal posso acreditar no que vejo em suas mãos.
Por alguns segundos o mundo parecia estar em câmera lenta.
Da mão dele refletia uma luz muito forte, quase me cegando. Não podia ver o que ele segurava. Aos meus ouvidos o cântico do mais belo coral de vozes. Um som maravilhoso. Pareciam anjos anunciando a chegada do salvador. Esse momento deve ter durado uns dois segundos, mas foram os mais longos da minha vida.
Do mesmo modo que a luz e as vozes vieram, elas se foram.

Ainda congelado. Estático. Parecia ter morrido ali. A luz refletiu sobre o objeto nas mãos de meu pai e me despertou de meu êxtase.

Era a chave do carro.

Não podia acreditar naquilo.
Havia batido o carro já duas vezes. Meu pai sempre escondia a chave para que eu não pudesse sair. Mas naquela noite, era ele que me oferecia o automóvel. A responsabilidade era dele. E partiu de livre e espontânea vontade. Não podia acreditar.
Ele disse com uma voz bem forte: Toma cuidado!

É claro que tomaria. Mais dele do que me mim.
Peguei a chave. Uma energia jamais sentida me dominou entrando pelas minhas mãos, subindo pelos meus braços. Uma força que nunca havia sentido começou a tomar conta de mim. Invadindo todos meus órgãos e sentidos. Do nada explodiu dentro de mim. E ao me levantar pude ouvir ao fundo uma voz gritar: I got the Power!!!

Parecia outra pessoa. Não era mais um moleque. Senti até alguns órgãos ganhando um volume jamais visto. Seria esse o momento em que se separam homens de meninos?
Saí de casa. Mas antes de ir até o carro agradeci meu pai dizendo que não iria decepcionar.
Fim da sessão. Tarde da noite. Ela se despede sem saber da minha novidade. Ofereço-me para levá-la em casa. Ela no começo parecia não acreditar, então caminhamos até o carro.

Já na porta de sua casa começamos a nos despedir. Um beijo não seria uma má idéia. Apesar de estar mais preocupado com o lugar onde estacionei não conseguia tirar os olhos dela. Abracei. Beijei. E o que era para ser um beijo de despedida se transformou em vários, um seguido do outro. Já estava por avançar o sinal quando me lembrei dos conselhos do meu pai sobre transito. Freei. Ele sempre me disse que devagar sempre se chega e você ainda aproveita mais a viagem.

Eu nunca dirigi com tanto gosto no retorno para casa.

Eu nunca vou me esquecer desse dia. Valeu Pai. No dia dos namorados o presente é seu.

Renato Souza

21 de junho de 2010

REALPOLITIK – “EU ESTAVA MORTO, ME SENTIA ASSIM”


“Nasci em berço esplêndido. Meu pai era empresário, tinha uma pequena metalúrgica em Suzano. Ele está doente. Morávamos numa casa em condomínio fechado, cada membro da família tinha seu próprio carro. Ele é autodidata, nunca passou do então ensino primário, mas montou uma fábrica há 23 anos com o suor do rosto e a venda de um sítio. Hoje ele está ‘desempresado’, é a expressão que ele usa para justificar a falência da metalúrgica, que chegou a ter 150 funcionários. Minha mãe é pedagoga, formou-se no magistério, depois fez Pedagogia na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), na grande São Paulo. Atualmente ela trabalha numa creche mantida pela prefeitura de Poá, na mesma região.

Sou o caçula de 3 irmãos. O mais velho é advogado, trabalha num escritório da Faria Lima e o do meio é administrador de empresas. Ele cuidou dos negócios da empresa da família depois que meu pai ficou doente, até que ela faliu. Ambos se formaram na UMC. Meu pai pagou nosso colégio e a faculdade deles com alguma dificuldade, pois tudo que a metalúrgica lucrava, era reinvestido nela mesma, regra de bons negócios, segundo meu pai, conselho seguido à risca pelo meu irmão administrador.

Eu não fiz faculdade. Era músico, tocava rock numa banda formada pelos meus amigos da escola. Nunca fizemos grande coisa, estávamos mais pela aventura e pela noite, mulheres e bebidas. As drogas também, mas elas vieram depois. Abandonei qualquer carreira musical por outra carreira, uma branca e ardida. Eu já fumava maconha, mas achava que tinha o controle. Até que um colega me esticou uma carreira de cocaína e eu cheirei pela primeira vez. A sensação foi incrível. Viciei no mesmo instante, eu sabia.

Meus irmãos, até aquele momento, eram uma espécie de ídolos para mim. Eles são bonitos, altos, esportistas, saudáveis. Até ver meu irmão mais velho fumar maconha quando eu tinha 12 anos. O do meio, quando eu já terminava o ensino médio. Não os culpo, a fraqueza foi minha. Mas eram meus espelhos. Meus irmãos faziam tudo o que meu pai queria. Eu sempre fui rebelde, deixava minha mãe louca. Mas ela achava que eu sairia disso e nunca me dedurou ao meu pai. Eu teria sido internado na mesma hora.

Experimentei crack pela primeira vez há 5 anos. Estava com uma namorada, a Paula*, que estudava na USP. Sabe, aquele clima uspiano, maconha nos corredores da FFLCH, eu achava aquilo tudo infantil. Ela me incentivava a não fumar crack, mas como todos sabem, o cachimbo do diabo vicia no primeiro tuím. Ela me deixou e contou tudo para minha mãe. Era o fim. Meu pai ficou sabendo. Desesperou-se, brigou, tirou meu carro, parou de me dar dinheiro. Teve crises do coração, contraiu diabetes. A isso eu me culpo.

Comecei a roubar em Mogi das Cruzes mesmo, perto da estação. Vivia na rua e só voltava para casa quando meu pai não estava. Minha mãe me dava comida, roupa limpa, me deixava tomar banho. Depois de um tempo, eu só queria o dinheiro que ela me dava. Comida? Banho? Eu não tinha vontade de fazer nada. Só fumar, só de sentir o estalo na cabeça e deitar, viajar.

Fui preso pela primeira vez há três anos. O delegado de Suzano ligou para meu pai. Ele disse que era para eu passar um tempo na cadeia. Seria bom para mim e que eu veria onde eu iria parar se continuasse naquela vida. Só que aquela vida já estava impregnada no meu DNA. Não tinha mais volta. Eu estava morto, me sentia assim. Minha mãe foi na delegacia. Era sábado de manhã, dia lindo, ainda me lembro dela me olhando como se eu estivesse num caixão. Ela chorava por dentro. Ela também estava morrendo.

Meus pais tentaram me internar. Fiquei dois meses numa clínica em Guararema. Clima agradável, gente boa cuidando de nós. Mas eu só fingia lá dentro. Minha cabeça estava na pedra. Eu só queria fumar. Fugi. Morei um mês na Luz. Assaltei em semáforo, puxei bolsa de idosa na rua, ataquei mulheres jovens para conseguir dinheiro. Estava irreconhecível. Sujo, maltrapilho, magro. Estava morto.

Há 2 anos me internaram novamente. Eu havia voltado para casa. Estava acabado, mas a esperança de que minha mãe me acolheria era mais forte. Fui de trem. Pude perceber, nos poucos momentos de lucidez, como as pessoas me olhavam. Eu era um zumbi. Ninguém se sentou ao meu lado. Pensei em me matar, me jogar debaixo do trem. Desisti ao lembrar de todo o esforço da minha família. Cheguei em casa, minha mãe ligou para meu pai. Ambos me levaram para uma clínica em Santa Isabel.

Na nova clínica a vida era dura. Tínhamos que trabalhar. Era uma prisão, de certa forma. Fiquei lá quase um ano. Soube que a empresa de meu pai faliu quando eu saí da clínica. Meus irmãos me jogaram na cara, a culpa era minha. Todo o dinheiro gasto em tratamento, em buscas pela madrugada, o descanso que eles não tinham, as faltas de meu pai na metalúrgica para ajudar minha mãe. Meu irmão mais velho chegou a dizer que era mais barato me enterrar do que tentar salvar causa perdida. Ele tinha razão. Voltei a fumar.

Encontrei o fundo do poço. Voltei à região da Luz e assaltei novamente. Era noite de sexta, o trânsito estava parado na Avenida do Estado. Não sei como, mas vi, pela janela aberta, uma carteira no console do carro. Me enfiei pela porta do passageiro e tentei agarrá-la. O motorista de táxi puxou o revólver e atirou duas vezes. Só me lembro de acordar no Hospital das Clínicas com minha mãe ao meu lado. Estava amarrado na maca. Nunca pegaram o motorista que disparou em mim.

Faz seis meses que estou nesta clínica. Fica perto de meus pais. Como dizem aqui dentro, caminhando um passo de cada vez. Não sei se vou voltar a fumar. Espero que não. Mas nunca estarei curado. Preciso pensar em meus pais. Eles nunca desistiram de mim. Meu pai perdeu tudo e minha mãe morreu um pouco por dentro. Eles se separaram, mas vêm me visitar juntos. Meu pai está envelhecido, os cabelos ralos e brancos. Minha mãe está sempre triste, não se cuida mais como antes.

Comecei a namorar a Daniela* aqui na clínica. Ela é ex-policial e tem me ajudado muito, me aconselhado. Ela foi exonerada depois de ser pega várias vezes drogada, todas em horário de trabalho. Fazia batidas com a delegacia de entorpecentes. A chefia perdoava, dava uma chance, mas ela voltava a se drogar. Conheceu o crack e perdeu tudo, como eu, como minha família.

Saio daqui a três meses. Me sinto forte, confiante, mas ainda temeroso. Meus pais estão velhos, já não têm mais dinheiro como antes. Não posso acabar com a vida deles, com o descanso de uma vida inteira trabalhando para criar os três filhos. Não sei o que vai acontecer daqui para frente. Vou lutar, tentar ficar longe da pedra. Não bebo, não fumo, mas sei que está tudo aqui dentro, pronto para sair ao menor chamado. O tuím nunca mais vai me deixar.”

Depoimento de André*, 29 anos, usuário de crack em tratamento numa clínica de reabilitação de dependentes de droga de Mogi das Cruzes.

* Nomes fictícios a pedido do entrevistado

Rodrigo De Giuli

17 de junho de 2010

APOIO 7CO

O novo apoio cultural do/ao 7cismo!

Conheça este magnífico lugar que encontra-se na rua do Bosque, Barra Funda.
(clique na imagem para melhor visualização)




Reveja aqui o sofisticado trabalho que fizemos para o Cantinho do Hélio. Requinte e sofisticação.



7cismo

14 de junho de 2010

UMUNDUNU - UM DIA DAQUELES

Ainda é sexta. Noite de orientação. O TCC é o projeto do ano. É dia também de bar, logo depois da faculdade a galera se reunirá para tomar umas cervejas e comer alguns salgadinhos. Não vou beber muito como de costume. Tenho um compromisso no sábado. Não posso faltar.

São 4 horas da manhã de sábado. Chegando em casa, ainda sob o efeito da promessa não cumprida. É, bebi. E não foi com moderação. Melhor dormir, descansar. Amanhã o jogo é às 13h.
11h30. Acordo assustado. Sabia que tinha perdido a hora. Até coloquei o celular para despertar. Mas deve ter acabado a bateria. Já que estou atrasado vou de carro, é bem mais rápido.

Bola, chuteira, bermuda, meião... É, tudo certo.

Trânsito no caminho. Por essa eu não esperava, não num sábado de manhã. Mas vai dar tempo. E agora, 23 de Maio ou Marginal? Melhor a segunda opção, com sorte em meia hora estou lá. Um idiota me fechou e perdi o acesso da pista expressa. Vou pela local, logo tem outra entrada. Mas...

Um susto. Bati? Não! Acidente? Não! O carro morreu. Muito estranho, não liga. Encosto. Abro o capô. Não que entenda de mecânica automotiva, mas alguns problemas são visíveis. Aparentemente está tudo ok. Pode ser a bateria. Mas ela é nova... Entro no carro e dou partida.
Nada. Do mesmo nada vejo um problema. As luzes acendem, mas o ponteiro da gasolina não se move. Seria falta de gasolina? Como posso ser tão burro a ponto de não notar o ponteiro na reserva? Bom, vamos a um posto. É só comprar gasolina e prosseguir o meu role.

Descubro então o segundo problema do dia. Ao arrumar as coisas do futebol troquei de mochila, a carteira ficou na outra. Burro. Saí sem carteira, sem dinheiro e sem habilitação. Maluco. E agora, o que fazer?

Só há uma solução. A única sensata no momento. Ligar pra mamãe.
Mas como diz o ditado, desgraça pouca é bobagem. Eis o terceiro problema do dia. O celular. Ele não despertou. Estava sem bateria, por que haveria te estar funcionando agora?
Pensei neste momento em perguntar “o que mais poderá dar errado”, mas fiquei com medo de conseguir uma resposta.

Já havia pensado em trancar o carro e voltar pra casa, mas o bilhete do ônibus também havia ficado na outra mochila. O problema era a mochila? Era a pressa? Era a PQP!!!
Tirei o carro da rua. Coloquei na calçada. Só me faltava um CET me multar. Completaria o dia.

Vejo um telefone publico a uns 30 metros. Tranco o carro e vou até ele. Quebrado. Não era mesmo o meu dia. Mas a frente há um posto de gasolina. Mas quem te disse que em posto há telefones públicos? Conversei com o frentista. Expliquei parte da história, explicá-la toda seria vergonha demais. Ele me emprestou o celular. Minha mãe se assustou, não entendeu nada, ma disse que viria.

Pouco mais de 1 hora depois ela aparece, esse tempo, que para mim demorou mais que uma vida, passaram por mim milhares de carros, de motoristas que se soubessem ririam de mim.
Agora era fazer alguém acreditar nessa história maluca e justificar minha ausência no já sagrado futebol de sábado. A história até que era boa, mas mente de jornalista é muito fértil, vá saber. Ainda mais aquele pessoal que não acredita em nada.

Coincidência? Destino? Praga? Azar?
Sei lá, mas da próxima vez eu vou de ônibus.

Renato Souza

12 de junho de 2010

UMUNDUNU - FUTEBOL É BOLA NA REDE!


O estádio estava vazio, os refletores acesos iluminavam o gramado gotejado de orvalho. Havia um silêncio sepulcral e me incomodava muito mais o frio interior daquele palco deserto do que o inverno paulistano de junho. Afinal por que eu estava ali se não tinha jogo. Avistei o sorveteiro e gritei, tem de abacaxi? Não, ele respondeu e logo perguntou:

- Você é jornalista esportivo?
- Não! Respondi de bate pronto e emendei um por quê. Ele sorriu e relatou o que segue:

- Assim me disse certa feita, um jornalista esportivo especializado em futebol, um tal Osmar Gigliotti Kfouri Neves, se bem me lembro.
- Pasmei diante do disparate, mas deixei prosseguir. Ah! Ele embalou forte...

-Como a vida, o tempo, o espaço e o homem, que estão, e sempre estiveram em constante movimento, sem com isso deixarem de ser essencialmente o que foram, são e serão, é o futebol.
Não penso que seja possível aceitar as afirmativas: o homem de hoje não é homem, é outro animal. Nosso tempo já não é mais tempo, é outra entidade.

Quanto ao espaço, da mesma forma, é impensável que o espaço deixe de ser espaço para ser outro ser, ainda que seu ser como todo e qualquer ser, se mostre em diversa e dinâmica configuração.

Resumo da ópera, as coisas são na exata medida que se apresentam a nós. Contudo nos remetem, quando se apresentam, àquilo que nos representaram anteriormente. Desta forma o outro e o mesmo se consubstanciam em essência e seguem únicos até que outro se apresente.
O retângulo, os vinte e dois jogadores, o trio de arbitragem, a bola e as cornetas. As vuvuzelas! Bola na rede, gooool!! É isso o futebol.

Mas os goelas empinando suas pipas ao vento de seus ventiladores entre as linhas de seus apartamentos tecem comentários sobre um futebol de mesa. Este sim, inequivocamente um outro jogo.

Temi que ele prosseguisse aquela enxurrada de despautérios e aproveitando a pausa, saquei cinco e desloquei a prosa:
- Tem de chocolate?
- De casca e de picolé – ele respondeu
- Dá um de cada e morre a nota. Valeu! É nóis! Um abraço.

Enquanto eu saía, as luzes se apagaram e o frio cessou.

Claudio Zumckeller

9 de junho de 2010

7CRÍTICA - FLORESTAN FERNANDES: PARTE 2

Significado do Protesto Negro

A Lei Áurea (Lei Imperial n.º 3.353), sancionada em 13 de maio de 1888, foi a lei que extinguiu a escravidão no Brasil.

Essa seria a solução para o problema da escravidão que desde os primórdios do “descobrimento” do Brasil fazia com que negros fossem tratados não como humanos, mas sim como mera mercadoria. Como animais eram vendidos pelo porte físico, pela força que tinham para exercer tarefas árduas. O mercado de escravos poderia se assemelhar ao de venda de cavalos, os mais fortes e vistosos custavam uma fortuna. Os fracos ficavam por último. Mas isso existe até hoje, até por que vivemos num mundo onde os fracos não têm vez, mas isso é assunto para outro texto.

A Lei Áurea pôs fim à escravidão no país. Desde então o problema passou a ser outro, a discriminação racial. Numa sociedade em que o negro era visto como um animal, como passar a conviver normalmente com esses “novos seres”?

Penso que para algumas pessoas, o 14 de maio de 1888 possa ter sido ao mesmo tempo o dia mais feliz e o mais estranho da vida. O fazer a partir do momento em que se poder fazer o que bem entender? Um escravo então liberto iria fazer o que para se alimentar? Procurar um trabalho digno ou continuar com sua vida escrava. Vida essa única que conhecera até o momento.
A sociedade não recebeu os negros da forma mais afável possível, foi uma relação difícil. Se ainda hoje é assim, o que dirá de cem anos atrás?

Nascia então o preconceito racial. Tudo bem que ele já existia. Mas a relação era diferente. Não era de branco para negro, mais sim de dono para mercadoria.

O negro passou a ser visto com outros olhos, não eram mais escravos, eram a partir de agora cidadãos como todos os outros neste país. Mas não teriam os mesmos direitos. Os negros nunca foram tratados como membros da sociedade, estavam sempre a parte. Isso gerou o que se pode chamar de marginalização racial. Não conseguindo espaço na sociedade, os negros passaram a viver isolados, nos chamados quilombos (um local de refúgio dos escravos). Essa da realidade avançou e chegou aos dias de hoje, não há como não comparar esses quilombos às favelas e morros, onde em sua maioria vivem pessoas que descendem de negros.

Mas o negro parece ter acordado para sua cruel realidade. No início deste século, parece não haver dúvidas sobre a consolidação do movimento negro no cenário das lutas sociais do Brasil. Seu combate contra o racismo chega de modo bastante forte e atuante. Numa demonstração de importância em relação ao conjunto dos movimentos sociais. Graças a isso, a discriminação racial, que é um dos principais problemas estruturais da nação brasileira, ganhou uma ampla visibilidade social. O que, de certa forma, forçou mais uma vez o debate sobre a questão racial no Brasil e a situação dos negros.

Renato Souza

7 de junho de 2010

7CRÍTICA - SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA


Raízes do Brasil

No livro Raízes do Brasil, o historiador e jornalista Sérgio Buarque de Holanda faz um retrato da história deste país sob sua ótica. Membro ativo da “elite intelectual" brasileira, Holanda corroborava com a análise européia em relação ao Brasil, ou seja, de acordo com ele, a cultura brasileira era “menos desenvolvida” que a do velho continente, pois fomos colonizados pelos portugueses que eram “aventureiros”, o que tornou as relações (de forma geral) pessoais. Ainda segundo Holanda, a cultura anglo-saxã era desenvolvimentista o que levava subsequentemente, a um progresso nas suas colônias.

Mas, e quanto à Jamaica, África do Sul, Antilhas, República do Botswana, Chipre, Brunei e Dominica? Os ingleses não fizeram um bom trabalho por lá. E mesmo em relação aos EUA ou a Austrália, será que a colonização britânica foi fundamental para o progresso destes países? Eu acho que não.

Não há heróis nem bandidos nesta história. Nada ou ninguém é totalmente bom ou ruim, e o processo de desenvolvimento de um país não é determinado pela sua colonização; pela mentalidade de seus colonizadores. É muito mais complexo do que isso. Obviamente que há uma influencia, mas, não é uma regra. E quanto à “cultura mais (ou menos) desenvolvida”, isto não existe. A cultura de um povo está adequada a sua realidade, portanto, não há uma cultura melhor do que a outra. Um índio não se daria bem no centro de Paris, assim como um parisiense não sobreviveria no meio de uma selva, pois, cada cultura reflete a sua realidade.

Thiago Menezes

4 de junho de 2010

7CRÍTICA - DARCY RIBEIRO - PARTE 2: UMA OUTRA VISÃO


O POVO BRASILEIRO, DE DARCY RIBEIRO

“Darcy Ribeiro é um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve. Não apenas pela alta qualidade do seu trabalho e da sua produção de antropólogo, de educador e de escritor, mas também pela incrível capacidade de viver muitas vidas numa só, enquanto que a maioria de nós mal consegue viver uma”
Antonio Candido, Folha de São Paulo

A obra de Darcy Ribeiro, demonstra como o povo brasileiro veio fazendo a si mesmo para se tornar o que somos hoje.




Nascido em Montes Claros, Minas Gerais, Darcy Ribeiro (1922-1997), através de uma explanação histórico-antropológica se propõe a explicar a formação e o sentido do Brasil para revelar as origens da enorme desigualdade econômica que campeia até hoje entre nós. Desde as matrizes étnicas, passando pelo processo civilizatório escravista e genocida até a industrialização e urbanização, o autor expõe um trabalho embasado em anos de pesquisas e reflexões.

“Composta como uma constelação de áreas culturais, a configuração histórico-cultural brasileira conforma uma cultura nacional com alto grau de homogeneidade. Em cada uma delas, milhões de brasileiros, através de gerações, nascem e vivem toda a vida encontrando soluções para seus problemas vtais, motivações e explicações que lhes afiguram como o modo natural e necessário de exprimir sua humanidade e sua brasilidade.”

Formado em antropologia pela Universidade de São Paulo (USP), o autor busca a interpretação da história na contramão do etnocentrismo europeu, visando demonstrar a singularidade daquilo que qualifica como a macro-etnia brasileira.

Foi ministro chefe da Casa Civil no período em que João Goulart foi presidente da República, vice-governador do Rio de Janeiro (1983-87) durante o governo de Leonel Brizola, quando idealizou os Centros Integrados de Ensino Público (Cieps), e senador (1991-1997).

Uma obra que pretende revelar o povo brasileiro a si mesmo.

Explicar uma nação não é tarefa simples. Darcy Ribeiro foi, dentre tantos antropólogos, sociólogos, filósofos e historiadores, um dos que mais se aprofundaram na análise crítica do Brasil, buscando soluções criativas e engajadas voltadas sempre para o erguimento da auto-estima do povo brasileiro. Não são poucos os teóricos que consideram a obra do antropólogo ambiciosa.

O livro O povo brasileiro é a síntese do trabalho de Ribeiro, é sua vida. São estudos antropológicos, finalizados pouco antes de sua morte. Dividido em partes, o autor, leva mais de três décadas para concluí-lo, segue uma cronologia de quase 500 anos, sem deixar de perscrutar possibilidades de interpretação acerca de eras mais remotas. Desde a “descoberta da ilha de Vera Cruz”, passando pelo genocídio contra os nativos da colônia recém conquistada, o escravismo negro e indígena, o extrativismo de bens naturais, as monoculturas de exportação e as relações de compadrio, até os momentos em que a nova sociedade vai sendo moldada, ele persegue os motivos de tão desigual desenvolvimento.

Na ótica de Darcy Ribeiro, a “indiaiada”, na plenitude de sua nudez emplumada” é a primeira grande vítimas de colonizadores gananciosos, cujo o único e principal projeto era usurpar e saquear tudo o que fosse possível. Há teóricos que consideram sua teoria como Rousseauniana, no sentido romântico do “bom selvagem”, ponto de vista que pode ser refutado na primeira passada de olhos em que se encontra uma análise séria acerca do comportamento das varias etnias nativas presentes. É inegável a imparcialidade pertinente a análise da força bruta com que o colonizador impõe sua cultura políticos em detrimento da diversidade nativa e da posterior mestiçagem decorrida.

Quando relata a história recente do Brasil, sobre a chegada dos imigrantes, com a industrialização e consequente urbanização, o antropólogo novamente recorre à miscigenação e desculturação para explicar a nova sociedade. Moldaram-se aos costumes daqui, adaptaram-se rapidamente e integraram-se de maneira a formar um componente singular de uma nova “Romanidade”. Essa (des) identidade se repete através dos tempos: com o índio, com o negro escravizado, com o imigrante, fosse ele estrangeiro (contingente aportado em meados do século XIX e o início do XX), ou oriundos de outras regiões do país (especialmente do nordeste, a partir da década de 1930). Para o autor, tornamo-nos “latinos tardios de além-mar, amorenados na fusão com brancos e com pretos, afastados das tradições de suas matrizes ancestrais”.

Os números (gráficos e análises econômicas), as referências aos autores que o precederam e o rigor científico, não o impedem de revelar seu ponto de vista político, como ele mesmo escreve no último parágrafo do prefácio: “Portanto, não se iluda comigo (...) Sou homem de fé e partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um fundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas”.

“Um povo novo”, nas palavras de Ribeiro, é a expressão que mais se assenta à teoria por que o autor encadeia o trabalho. “Um novo modelo de estruturação societária”.

Outros conceitos abordados no livro como “cunhadismo”, “moinhos de gastar gente”, “povos transplantados”, “deseuropeus”, “desíndios” ou “desindianização”, “desafros”, “brasilíndios”, os vários “brasis” (o crioulo, o caboclo, o sertanejo ou o caipira), “transfiguração étnica”, levam rapidamente ao entendimento. O autor visita todos os espaços da formação da sociedade brasileira – e nas diversas camadas da “estrutura societária” que esta desenvolve, busca explicá-la, percorrendo incansavelmente toda a história do país.

Transcendendo a forma científica.

Acima e paralelamente ao conteúdo de O povo brasileiro, a forma de narrar deve ser destacada, na medida em que o literato Ribeiro se mostra presente e fluído. Científico, porém não cientificista, seu trabalho absorve a experiência do antropólogo com a literatura ensaísta e poética. Ainda que a formação do povo brasileiro tenha sido sua preocupação principal – o autor produz outras obras: Maíra, Eros e Tanatos, Uirá sai a procura de Deus e Utopia selvagem. São raros os estudos antropológicos como o de Darcy, que têm uma narrativa literária mesclada ao rigor científico sem perder o caráter de conhecimento objetivo.

Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro, apresenta seu ponto de vista político

O principal trabalho do antropólogo Darcy Ribeiro, a obra O povo brasileiro, estribada em ampla e sólida bibliografia, é leitura imprescindível a quem se interesse em conhecer aspectos da formação social e política do Brasil de um viés politizado e simultaneamente permeado por uma visão científica humana, no sentido em que sua obra mantém aberto o diálogo franco com outros trabalhos antropológicos, por vezes fundamentados exclusivamente em pesquisa documental.
O livro é um tratado fundamental, sua releitura torna-se urgente a cada novo passo civilizatório. Ribeiro é um autor que não se esconde sob a máscara da imparcialidade; ele faz questão de ser carne e osso em sua peculiaridade.

“Nós brasileiros, nesse quadro, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na “ninguendade”. Assim foi até se definir como uma identidade étnico-nacional, a de brasileiros”.


Claudio Zumckeller

2 de junho de 2010

REALPOLITIK/UMUNDUNU - OS INVISÍVEIS E O CRACK


Andei pelo centro nos últimos dias. Pude reparar em um dos projetos do Governo do Estado juntamente com a Prefeitura da Cidade de São Paulo.

A chamada “Nova Luz” está a plenos pulmões.

O projeto de revitalização de um dos bairros mais castigados da região central está funcionando. É o Governo e a Prefeitura, enfim, trabalhando juntos.

Essa área próxima à estação da Luz ficou nacionalmente famosa por abrigar inúmeros usuários de crack. Não só consumidores dessa droga, mas também por traficantes. Era uma favela nas ruas do centro, a chamada “Cracolândia”. O mundo viciante das drogas. O paraíso para qualquer viciado. Seja ele de classe média, alta ou baixa. Rico ou pobre. Trabalhador ou vagabundo. Todos convivendo em perfeita harmonia.

O projeto de revitalização incluía a retirada dessas pessoas dali. O que se esperava, era que elas fossem encaminhadas para algum tipo de serviço social ou que pudessem frequentar uma clínica de desintoxicação, para se tratar e enfim se livrarem do vício. Mas isso não pode ser imposto, essa vontade deve partir do próprio usuário. Ele não pode ser forçado a se tratar, infelizmente, quanto a isso não se pode fazer nada.

E aos que fazem da região um comercio ilícito, que vivem da venda do crack, ou de qualquer outra droga, o que se espera de nossos governantes é que punam essas pessoas. Exemplarmente.

Pena que o que é bom, dura pouco. Andei por menos de cinco minutos, saindo da região da Luz até a Praça da República. A Cracolândia simplesmente se mudou. Andou menos de 2 km e hoje se encontra na região da Praça da República e nas ruas escuras de seu entorno.
Como um verdadeiro nômade, ela caminha para se abrigar em outro lugar.

Não há como ignorar esse problema.

Já no viaduto Orlando Murgel, um ponto mais afastado do centro, entre os bairros de Campos Elíseos e Barra Funda, sou obrigado a conviver com esses usuários diariamente. Escondidos sob a mureta. Esse pequeno muro os esconde da polícia. Mas não é só isso, parece separá-los do mundo, da sociedade. Um muro capaz de torná-los invisíveis por quem passa por ali.

Na ponta do cachimbo uma brasa, uma droga. Na outra o que sobrou de um ser humano.
Um caminho sem volta.
Mas quem sou eu para indicar o retorno?

Renato Souza