26 de maio de 2010

UMUNDUNU - SAMBA DE RAIZ, UM RECADO DE QUEM CONHECE A MATÉRIA

Faz alguns anos que eu não falo com o Dorivalinho, forma carinhosa com que a dona Nonô, sua mãe, o chamava, acrescentando: “Traz os moços que o café está servido”.
Essa fala atravessava, por vezes, algum trabalho do nosso tempo de barraco da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (USP). Em outras, algum acerto para o próximo futebol varzeano, ou ainda a busca juvenil por versos e acordes de uma nova canção para o festival. Eram bons tempos!

Dorival Marques de Oliveira, o Dorinho Marques, 57 anos, é paulistano do Ipiranga. O interesse por música começou na era dos festivais dos anos 1960 e 70. Os primeiros versos e sambas foram apresentados entre amigos nos campos de várzea e em festivais estudantis.

Em 1974, participou da fundação da escola de samba Barroca Zona Sul, onde fez o primeiro enredo. Entre idas e vindas, sua participação no carnaval de rua está registrada em mais de 40 sambas. Paralelamente, nos anos 1980, fez parte de trios elétricos que se apresentavam nas ruas da capital. Fez parte ainda de grupos que acompanharam bambas como Geraldo Filme, Talismã, Oswaldinho da Cuíca, Jovelina Pérola Negra, Clementina de Jesus, Eliana de Lima, Boca Nervosa e Zeca Pagodinho. A partir de 1990, passou a cantar em bares de música ao vivo divulgando um trabalho autoral. Suas composições, cerca de 200, foram gravadas por vários intérpretes.

Dois dias após procurá-lo para esta reportagem, recebo o telefonema. A mesma fala pausada, a atenção distinguida de sempre: “Vejamos se posso ajudar, vou mandar meu recado, obrigado pela lembrança!”, emendando a seguir, com seu jeito matreiro: “Eu já ando fritando vela para comer torresmo”. Sem conter o riso, vou direto ao assunto: “Então, diz aí meu irmão: o que é samba de raiz?”

O discurso de Dorinho é certeiro: “o samba de raiz tem ancestralidade africana”. Ele continua: “Um dia cruzou o mar nos navios tumbeiros e desembarcou nas senzalas, alojou-se nos morros e favelas e depois ganhou o asfalto das cidades”. Para Dorinho, os estados da Bahia e do Rio de Janeiro são os locais em que o samba ocorre mais vigorosamente. Várias outras localidades preservam o gênero, ora mais rural, ora mais urbano, ainda de acordo com o sambista paulistano. Ele é crítico também na opinião forte, quando afirma que o estilo “não repercute nos meios de comunicação de massa”.

Nesses escabrosos caminhos o samba segue conservando sua identidade. Para Dorinho, o samba de raiz é dinâmico, a soma da polirritmia dos batuques com a riqueza da língua portuguesa. “Resiste contra falsificações, vulgarizações e a concorrência massiva de outros cânticos. Tradicionalista em atitudes e valores, porém aberto a inovações que respeitem a sua linha evolutiva transmitida hierarquicamente, de mestre para aprendiz”, diz o músico.

O samba tem muitas vertentes, e o “de raiz”, nas palavras de Dorinho, é uma delas, conservando a sua forma mais autêntica nas rodas improvisadas de canto e dança com a participação coletiva dos sambistas. Hoje, nos grandes centros urbanos, existem comunidades revitalizando o seu legado. “Em São Paulo, partindo da periferia, existe quase uma centena de núcleos de novos sambistas que defendem a bandeira e que realizam um trabalho que as escolas de samba, salvo exceções, não fazem”, enumera o sambista. “O importante desse movimento é que muitas pessoas podem desenvolver sua vocação musical, preservando uma cultura genuína ou simplesmente para se divertir com música que é a melhor maneira de celebrar”.

Passados alguns dias, recebo outra mensagem de Dorinho: “Claudio, aí vai um samba novo de partido alto que é meio como uma carta de referência para o perfil. Abraço!”









































Ainda não corri os dedos na viola para sentir a harmonia, mas, à quem interessar possa, fica o endereço eletrônico do autor para falar do compasso: dorinhomarques@hotmail.com

(Clique nas imagens para uma melhor visualização)

Claudio Zumckeller

Um comentário:

  1. Valeu meu caro, estarei sempre às ordens da equipe do 7cismo. Obrigado pelo auxílio luxuoso do pandeiro... e do cavaco!

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