2 de maio de 2010

UMUNDUNU - EM "A ESTRADA", ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE(U)


Muitos dizem que vão ao cinema para se divertir, deixar o mundo real lá fora e imergir numa fantasia que os levará a lugares inimagináveis, encantados, em que tudo e todos serão felizes para sempre. Cores, sons, diálogos alegres, um grande “Alice no país das maravilhas” sem Tim Burton.

Se o parágrafo anterior corrobora sua opinião, pare de ler agora mesmo.
Em “A estrada”, de John Hillcoat, obra baseada no premiado livro homônimo de Cormac McCarthy, autor de “Onde os fracos não têm vez”, o cinza predomina. Não só o cinza, mas o desespero, a falta de perspectiva e de humanidade.

Num mundo pós-apocalíptico, devastado por algum evento cataclísmico desconhecido, um pai (interpretado pelo ator Viggo Mortensen), conduz o filho ainda pequeno (um expressivo Kodi Smit-McPhee) em direção ao sul. Não se sabe bem por que, mas parece, no filme, que o sul é a solução para todos os problemas: comida, abrigo e um mínimo de proteção contra as hordas violentas de canibais que perseguem os “bons”, estes, apenas na ótica dos protagonistas, claro. Neste mundo futurista, em que não restam mais fauna e flora intactas, a humanidade apenas sobrevive. Menos: ela está em coma, com a míngua respiração mantida por aparelhos.

O cinza dominante usado como recurso estético é impressionante. O filme parece ter sido produzido em preto e branco. Contudo, algumas cores dão o tom em cenas específicas: o sangue, as latas de comida num abrigo e, por vezes, as roupas maltrapilhas dos últimos seres “humanos” que restaram. O recurso da cor esmaecida é forte, na medida em que o seu destaque é quase nulo. É possível, por vezes, observá-las, no entanto não se pode concluir que ela dá vida à cena. Ao contrário, a pouca cor que se destaca é enfraquecida pelo onipresente cinza.

Aqui não será contado o final da história, que traz um pequeno resquício do que restou de humano para o futuro, ainda que muito triste. A (pouca) esperança é um prelúdio da desgraça que ainda virá. Se não há saída e a tristeza discursada em 99% do filme é atroz (é impactante a cena em que o pai ensina o filho como se suicidar, no caso de ser pego pelos canibais), o restante da película é suficiente para que os otimistas cantem vitória – um clichê, por conta da casa: vitória de Sísifo. É o fim dos tempos. Vá logo ver “A estrada”, um filme desolador, como pessimista que sou. O 1% que sobra, é a cereja do bolo.

(Confesso que o filme deixou os olhos deste pequeno 7co marejados - Felipe Payão)

Rodrigo De Giuli

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