20 de maio de 2010

7CRÍTICA - FLORESTAN FERNANDES

A REVOLUÇÃO BURGUESA NO BRASIL: ENSAIO DE UMA INTERPRETAÇÃO SOCIOLÓGICA
Livro de Florestan Fernandes

“Nas ciências sociais, bons livros são aqueles que mantêm sua atualidade ao longo dos anos. (...) É o caso de A Revolução Burguesa no Brasil.”

Na abertura de seu prefácio, José de Souza Martins, sociólogo, sem floreios e elogios desnecessários, colocou o livro de Florestan Fernandes um patamar acima. O primeiro esboço de A Revolução Burguesa no Brasil começou a ser escrita em 1966, tendo inserções e ajustes ao longo dos anos. Apesar dos 40 anos, o livro continua atual como nunca. Muda-se os nomes, o sistema é o mesmo.

Contextualizando: Florestan Fernandes, de família pobre, nasceu em 1920 e faleceu em 1995. Em 1941, ingressou na USP e formou-se em ciências sociais. Na década de 50, ainda na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, defendeu a tese de doutoramento “A função social da guerra na sociedade tupinambá”. Em 69, aposentado pela ditadura militar, Florestan lecionou na Universidade de Columbia, de Toronto e na famosa Universidade de Yale.

O sociólogo, sempre em contato - por exemplo - com Roger Bastide e Fernando Henrique Cardoso, participou de atividades políticas, tornando-se parlamentar do Partido dos Trabalhadores (PT). Foi também perseguido pela ditadura militar em 1964.

Em 1975, A Revolução Burguesa no Brasil vai à público. Radicalizando o tradicionalismo da burguesia e a história capitalista do país, seu ensaio permeia por perspectivas teóricas da sociologia que dialogam inúmeros imbróglios. A dialética do marxismo clássico e moderno também foi explorada.

“É preciso que o leitor entenda que não projetava fazer obra de ‘Sociologia acadêmica’. Ao contrário, pretendia, na linguagem mais simples possível, resumir as principais linhas de evolução do capitalismo e da sociedade de classes no Brasil. Trata-se de um ensaio livre, que não poderia escrever se não fosse sociólogo. Mas que põe em primeiro plano as frustrações e esperanças de um socialista militante”.

Florestan ‘antropofagizou’ Karl Marx, Friedrich Engels, Émile Durkheim, Marx Weber e Vladimir Lenin. Discutiu com afinco o socialismo e marxismo em terras tupiniquins.

Um dos pontos principais de seu livro é a independência do proletariado. A classe operária que terá que começar sua luta, desenvolvendo a independência e uma política social revolucionária.

Florestan acredita que uma revolução seria possível somente através da classe operária. A burguesia brasileira (atual classes A e B), principalmente após o golpe militar de 64, representou a consolidação de uma contra-revolução permanente. A burguesia teria se tornado antissocial, antinacional e antidemocrática. O capitalismo havia esgotado todas suas potencialidades construtivas. Voltando ao começo dessa resenha, aqui as palavras de José de Souza Martins se confirmam, nossa burguesia é o espelho da “antiga” e o capitalismo provou-se desconstrutivo e ineficaz.

Para o sociólogo, revolução não é simples palavra de ordem contra o imperialismo. Mas sim, a importância de se educar politicamente o proletariado para buscar a transformação socialista da sociedade. Seu emprego também é deturpado nas sociedades em geral, com a colaboração das mídias e a maioria dos livros didáticos. A palavra revolução é utilizada para maquiar a violência dos ‘donos do poder’. Como um exemplo, a ‘revolução institucional’, o golpe militar de 1964. Os oficiais militares e seus meios invertem os valores e anunciam à sociedade que seu intuito era servir a nação como um todo. Mas, na realidade, privados de uma ordem política legítima, da democracia, a maioria da sociedade ‘engoliu a língua’ pelo significado de determinadas palavras-chave. Ficando mais difícil o entendimento das classes dominantes. Reflete muito mais que um problema semântico que perdura até hoje. Essa é a revolução burguesa.

“Para o senso comum a palavra se aplica para designar mudanças drásticas e violentas e como uma mudança que “mexe nas estruturas” e que subverte a ordem social imperante na sociedade”

Partes do livro “O Manifesto do Partido Comunista”, escrito por Karl Marx e Engels, são citadas por Florestan. As passagens dizem que a maioria irá dominar a minoria e em uma etapa mais avançada tudo será eliminado e o comunismo será a única forma de padrão de uma civilização. Uma utopia? Para responder essa pergunta, apenas varando madrugada na mesa de bar.

No campo das ações, primeiramente o proletariado precisa conquistar o poder. Na época, praticamente impossível. Hoje, realidade. Em seguida, a construção de um processo realmente democrático e assim construir uma sociedade igualitária e socialista. Mas, as revoluções proletárias herdaram os atrasos e as contradições do capitalismo que sempre achou uma maneira de atrapalhar essa luta e suas várias formas de revolução. Florestan explica que a própria burguesia era/é contraditória, cedia/cede às pressões do sistema capitalista e sempre dependente dos ‘imperativos’ da propriedade privada.

A classe operária desenvolve-se nesse processo complexo e fica dispersa, incoerente e desunida. Devido ao desenvolvimento industrial capitalista e verdadeiras lavagens cerebrais midiáticas, ela acaba subordinada aos interesses econômicos, artimanhas e aos objetivos políticos da burguesia.

O número de operários crescendo, organizando-se em conjuntos, formas de sindicatos; batem com a burguesia e começam a ter a consciência de seus interesses. Podendo atuar coletivamente como “partido político”, buscando melhores condições de trabalho e maior autonomia social. Uma situação formada a longo prazo.

Quem faz a revolução é a grande massa proletária, quem lhe dá sentido é a própria massa, isso nos mostra que os envolvidos dessa revolução não são apenas proletários, mas também aqueles que se identificam politicamente com o proletariado na destruição das formas burguesas de propriedade e de apropriação social.

“Todos os movimentos históricos precedentes foram movimentos minoritários ou em proveito da imensa minoria. O movimento proletário é o movimento consciente e independente da imensa maioria, em proveito da imensa maioria. O proletariado, a camada inferior da nossa sociedade, não pode erguer-se, pôr-se de pé, sem fazer saltar todos os estratos superpostos que constituem a sociedade oficial (...). Haverá uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos”.


A Revolução Burguesa no Brasil mostra a importância da solidariedade de classes, a consciência e o comportamento revolucionário, “pois se ele não estiver preparado para enfrentar suas tarefas revolucionárias concretas, não poderá levar a revolução até o fim e até o fundo, no contexto social imediato e a longo prazo”. Florestan Fernandes cita que a luta de classes é um processo histórico que gradua o componente humano e psicológico de toda evolução. Erros e acertos acontecem, cabe a cada um de nós saber aproveitar as oportunidades favorecendo ora burguesia, ora proletariado. A classe que não souber aproveitar pagará um alto preço.

Evocando Karl Marx e Engels, que escreveram também “A Sagrada Família”, o autor discorre que a história não se constrói sozinha, tudo se deve ao homem, “acima de tudo, é o homem, o homem real está é vivo, que faz tudo isso e realiza combates”. Os discursos dominantes aniquilam tentativas de modificações sociais com exemplos históricos. “... não é a história que se serve do homem como de um meio para realizar seus próprios fins; ela não é mais que a atividade do homem que persegue seus objetivos.”

Florestan analisa também um fato de suma importância: as desigualdades sociais herdadas desde a sociedade colonial e pela posição dependente do país no sistema capitalista mundial. Tendo dúvidas quanto existir uma burguesia nacional com interesses antagônicos ao imperialismo, capaz de liderar as transformações sociais decorrentes da revolução democrática e da revolução nacional. E enfatiza a importância da revolução operária adotar uma linha política autônoma, articulada em torno dos interesses estratégicos do proletariado; discutindo a dificuldade encontrada pela classe operária da periferia para enfrentar as estratégias do mundo globalizado, obrigação imposta pelas burguesias dependentes.

A relação ‘trabalho x capital’ possui dois lados no Brasil. A burguesia pouco se importa com sua história, deixando as traças o processo autônomo de sua própria classe. Resumindo, a burguesia quer simplesmente obter o poder aliado ao capital. E nada mais.

A grande parte do proletariado se preocupa com sua história, com a participação coletiva das massas. A força destes mecanismos de transformação social. Completando o sentido, Florestan diz que a revolução não surge somente de toda situação revolucionária, mas somente no caso em que todas as transformações objetivas e subjetivas, no que concerne à classe revolucionária, de conduzir ações de massa vigorosas o bastante para destruir completamente - ou parcialmente - o governo. Ele não cairá jamais se não for forçado a isso.

Finalizo este texto com uma passagem selecionada por Florestan Fernandes, utilizada em As Revoluções Burguesas no Brasil. Que a citação de Vladimir Lenin, político revolucionário russo, não seja esquecida.

“A lei fundamental da revolução, confirmada por todas anteriores e especialmente pelas três revoluções russas do século 20; para que a revolução tenha lugar, não é suficiente que as massas exploradas e oprimidas tomem consciência da impossibilidade de viver como antes e reclamem das transformações. Para que a revolução tenha lugar, é necessário que os exploradores não possam viver e governar como antes. E somente quando os de baixo não querem mais e os de cima não podem mais continuar a viver da antiga maneira, é somente então que a revolução pode triunfar”.


Felipe Payão

0 comentários:

Postar um comentário