24 de maio de 2010

7CRÍTICA - DARCY RIBEIRO


Principal obra do antropólogo Darcy Ribeiro, o livro O Povo Brasileiro é amplo tratado sobre a sociedade do país

O antropólogo, escritor e político mineiro Darcy Ribeiro (1922-1997) propõe, já no prefácio da obra O Povo Brasileiro – a formação e o sentido do Brasil, uma pergunta fundamental que será o esteio de seu trabalho: “Por que o Brasil ainda não deu certo?”. A resposta, célere, ainda no prefácio, não tira o interesse pela leitura do clássico da antropologia brasileira:

“Primeiro, pela análise do processo de gestação étnica que deu nascimento aos núcleos originais que, multipli-cados, vieram a formar o povo brasileiro. Depois, pelo estudo das linhas de diversificação que plasmaram os nossos modos regionais de ser. E, finalmente, por via da crítica do sistema institucional, notadamente a proprie-dade fundiária e o regi-me de trabalho - no âmbito do qual o povo brasileiro surgiu e cresceu, constrangido e deformado.” (RIBEIRO, 2008, p. 26)

Darcy Ribeiro, mineiro de Montes Claros, morreu de câncer, aos 74 anos, em 1997. Ele se definia com um educador. Formado em antropologia pela Universidade de São Paulo (USP), dizia-se ignorado pelos pares e seguido por filósofos e historiadores, pronto para desafiar as “convenções da moderna ciência do estudo do homem”, em que a visão do branco dominante para todo o resto seria invertida. Foi ministro chefe da Casa Civil no período em que João Goulart foi presidente da República, vice-governador do Rio de Janeiro (1983-87) durante o governo de Leonel Brizola, quando idealizou os Centros Integrados de Ensino Público (Cieps), e senador (1991-1997).

Uma obra que aspira a ajudar o Brasil encontrar-se a si mesmo

Explicar o Brasil não é uma tarefa das mais fáceis. Darcy Ribeiro foi, dentre tantos antropólogos, além de sociólogos, filósofos e historiadores, um dos que mais se aprofundaram na análise crítica do país, buscando soluções criativas e engajadas voltadas sempre para os mais pobres. Não são poucos os teóricos que consideram a obra do antropólogo ambiciosa.

O livro O Povo Brasileiro é a síntese do trabalho de Darcy Ribeiro, compilação de seus estudos, finalizado pouco antes de sua morte. Dividido em partes, o autor, que teria levado mais de três décadas para finalizar a obra, segue uma cronologia de quase 500 anos. Desde o “achamento da ilha de Vera Cruz”, passando pelos abusos da metrópole contra a colônia recém descoberta, o escravismo, o extrativismo de bens naturais e as monoculturas de exportação e as relações de compadrio, entre tantos temas pelos quais a sociedade do país foi sendo moldada, para explicá-la atualmente, como e por que ela é tão desigual.

Na visão de Ribeiro, há uma clara dicotomia entre a “indiaiada, na plenitude de sua nudez emplumada” (barrocos, solidários, ingênuos, bons) e os colonizadores “feios, fétidos e infectos” (góticos, gananciosos, usurpadores, maus). Seus detratores consideram tal teoria manisqueísta. A partir daí, não há imparcialidade na análise da força do recém chegado português para impor sua cultura (religião, modos de vida, valores sociais e políticos etc.) em detrimento da nativa e da posterior mestiçagem decorrida deste fato.

Mesmo quando trata da história recente do Brasil, a respeito da chegada dos imigrantes, passando pela industrialização e consequente urbanização – e sua posterior deterioração –, o antropólogo recorre à miscigenação e aculturação dos estrangeiros para explicar a sociedade.

Moldaram-se aos costumes daqui, adaptaram-se rapidamente e integraram-se de forma indelével. É fato que se repete através dos tempos: com o índio, com o negro, com o imigrante, seja ele estrangeiro (aqui aportados numerosamente entre meados do século XIX e o início do XX), seja de outras regiões do país (especialmente os oriundos do nordeste pobre e seco, a partir da década de 1930). Para o autor, tornamo-nos “uns latinos tardios de além-mar, amorenados na fusão com brancos e com pretos, desculturados das tradições de suas matrizes ancestrais” (RIBEIRO, 2008, p. 130).

O uso dos números (gráficos e análises econômicas), as várias referências aos autores que o precederam, a explicação mais científica que, por vezes, enriquece o trabalho, desnuda um posicionamento político não disfarçado, como ele mesmo escreve no último parágrafo do prefácio: “Portanto, não se iluda comigo (...) Sou homem de fé e partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um fundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas.” (RIBEIRO, 2008, p.17).

Eufemismos e novas expressões surgem, como “povo novo”, nas palavras de Ribeiro, é uma das que mais se adequam à teoria pela qual o autor encadeia o trabalho. Povo novo, ou um “novo modelo de estruturação societária” (RIBEIRO, 2008, p. 19). Tantos outros temas abordados no livro como “cunhadismo”, “os moinhos de gastar gente”, “povos transplantados”, “deseuropeu”, “desíndios” ou “desindianização”, “desafros”, “brasilíndios”, os vários “brasis” (o crioulo, o caboclo, o sertanejo ou o caipira), “transfiguração étnica”, termos que levam rapidamente ao entendimento. O autor passa por todos os espectros da sociedade brasileira – e em todas as camadas da “estrutura societária”, como ele define no estudo – para explicá-la, visitando cronologicamente toda a história do país.

Além da antropologia, a forma dando corpo ao conteúdo

Transpassado o conteúdo de O Povo Brasileiro, ponto primordial da obra, a forma também deve ser destacada, na medida em que o estilo literário de Ribeiro se mostra atraente, fluído. Acadêmico, contudo não academicista, o livro é um trabalho que absorve a experiência do antropólogo como romancista, ensaísta e até poeta, ainda que o índio seja tema recorrente – o autor escreveu Maíra, Eros e Tanatos, Uirá sai a procura de Deus, Utopia selvagem, entre outros. São poucos os estudos antropológicos que têm base numa escrita romanceada sem perder a essência.

A imparcialidade não é o forte de Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro

Voltando ao principal trabalho do antropólogo Darcy Ribeiro, a obra O Povo Brasileiro, encorpada com uma ampla bibliografia, é primordial aos que se interessam em entender a formação social e política do Brasil numa ótica politizada – engajada até, como já explicitado pelo autor no prefácio –, não se atém ao cientificismo clássico, como tantos trabalhos antropológicos menores, baseados apenas em pesquisa ou no puro levantamento de documentos.

O livro é um tratado importante na medida em que o autor não se esconde sob uma cortina de imparcialidade; ele dá sua visão particular, que é importante em se tratando de um estudo tão amplo, rico em detalhes e historicamente contextualizado, e cabe ao leitor levar isso em consideração.

Rodrigo De Giuli

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