15 de fevereiro de 2010

UMUNDUNU - UM ESTUDO ESTRITAMENTE ANTROPOLÓGICO - BUENOS AIRES PARA OS "COMUNS"

Da janela do hotel vejo uma profusão de veículos pretos com o teto amarelo. O cheiro de carne assada que vem do restaurante ao lado é muito forte. A avenida Corrientes, com seus inúmeros teatros e parrillarias, está congestionada. Turistas caminham pelo centro de Buenos Aires com máquinas fotográficas e filmadoras. A língua portuguesa é onipresente, você se sente em casa, se achar que estar ao lado de brasileiros seja reconfortante. Como eu não penso assim, fujo deles como o Diabo da cruz.

Permito-me um passeio a pé pela bela capital argentina, apesar da chuva. Passo diante dos clichês de sempre, avenida Nueve de Julio e o Obelisco, Casa Rosada, avenida de Mayo e o mais que centenário Cafe Tortoni, a bela livraria El Ateneo com suas ótimas edições de Jorge Luís Borges ou Julio Cortázar. Meu interesse, contudo, é bem mais mundano – ou humano, pode-se dizer. Quero ver como vivem os portenhos “comuns”, povo trabalhador como o brasileiro, entretanto mais culto e politizado.

Para isso, elejo um quesito para que eu analise o “argentino médio”. Como sou basicamente um turista, não posso perder tempo dentro de um banco ou supermercado, vendo-os trabalhar; tampouco visitar uma fábrica, pois poderia atrapalhar o objeto pesquisado. Penso e, rapidamente, encontro uma resposta satisfatória: futebol, o esporte das massas. Ver uma partida de futebol num estádio argentino seria um estudo antropológico curioso, senão divertido, por que não? Em La Bombonera, com sua “mística”, seria ainda mais interessante.

Compro, numa agência de turismo, um pacote chamado Boca Experience – o nome pomposo não esconde a pequena fortuna gasta com os ingressos para ver Boca Juniors e Lanús, com minha esposa: US$ 300 – sim, dólares, em verdinhas, nada de pesos ou tarjeta. O jogo é válido pela segunda rodada do Clausura (uma espécie de segundo turno do campeonato argentino, que acompanha o calendário europeu, sábia decisão). Uma van da agência viria nos buscar no hotel.

Na hora combinada, nosso guia, Javier Burcnich, 26 anos, um rapaz magro e baixo, nos dá as credenciais e o par de ingressos. No interior da van, dois casais de ingleses, um por volta dos 60 anos, o outro nos 30, um alemão com a camisa do Boca, um mexicano e dois norte-americanos que falavam espanhol. No caminho o silêncio era quebrado pelo guia, tentando ser simpático, mas que confundia os idiomas e falava inglês comigo, portunhol com o casal de ingleses mais velhos – pobre Javier.

Em menos de uma hora chegávamos ao bairro da Boca, famoso pelo rio Riachuelo, pela Viejo Puente de la Noria e o Caminito (outro clichê bonairense), uma pequena favela em que turistas tiram fotos e aprendem, com muita dificuldade, a dançar tango. A pequena rua com casas construídas com chapas de metal, todas coloridas, de janelas e portas minúsculas, por onde famílias inteiras pedem trocados aos turistas.

A van estaciona a 20 metros do estádio. Somos convidados a comer bife de chorizo ou morcillas (um embutido, parecido com uma linguiça, feita sem carne e recheada com sangue coagulado, geralmente de porco) com um pão seco e duro, por módicos 12 pesos (uns 5 reais, no câmbio do dia), num bar tradicional ao lado do estádio La Bombonera, famosa casa dos xeneizes. Pode-se fazer compras no Quique, hincha fanático do Boca que montou uma lojinha cheia de tralhas azuis e ouro – mas onde se encontram até camisas do River Plate, do Racing, do San Lorenzo ou do Independiente. O vendedor usava uma camisa do Palmeiras, baita orgulho! Veja na foto que há um cachecol do Verdão atrás de nós.

Com as credenciais penduradas no pescoço, passamos pelos bloqueios policiais e, após deixar os ingressos nas catracas, entramos no Museo Boquense – nada mais do que um corredor com relíquias de jogos históricos, fotos e camisas de Maradona e alguns vídeos de gols do Boca. O som das arquibancadas invade os corredores internos do estádio. Os gritos e cantos ritmados fogem do padrão brasileiro de autoexaltação das torcidas – na Argentina, a comemoração da hinchada é pelo time, e nada mais.

Já na arquibancada exclusiva – e coberta, graças aos 300 dólares! – de cativos, é possível ver idosos com seus filhos e netos, todos devidamente uniformizados com a camisa azul y oro ou cachecóis do time de maior torcida na Argentina. Vendedores gritam “tiengo los 3 ‘C’, cafe, Coca, cerveza, cafe, Coca, cerveza”, com uma tábua pendurada abaixo do braço esquerdo, amarrada numa cordinha fina em volta do pescoço, e vários copos de papelão cheios com os 3 “C”, café, Coca-Cola e cerveja Quilmes – uma espécie de Kaiser piorada.

A partida em si foi muito ruim, apesar do bom resultado para os xeneizes: 3 a 1, gols de Medél, Palermo e Erbes. Castillejo descontou para o Lanús. A chuva que caiu durante todo o dia em Buenos Aires atrapalhou o futebol de toques rápidos do time da casa, especialmente quando eles contam com um craque, o melhor jogador do time: Juan Román Riquelme. Mesmo nos piores momentos do Boca, la 12, como são chamados os barrabravas da curva norte, não parou de incentivar a equipe.

Na saída do jogo, nenhum tumulto. Pensei que fosse pelo fato de ser uma partida menor, diante de time em que a torcida não comparece fora de casa. No entanto, Marcelo Russo, 25 anos, também guia da agência, contou-me que mesmo no Superclassico (apelido do clássico contra o River Plate, maior rival do Boca), as confusões diminuíram e que só ocorrem longe do estádio – em estações de ferrocarril (trem) e do subte (metrô bonairense). Senti-me em casa!

Tanto Javier Burcnich como Marcelo Russo, os dois guias da agência que nos acompanharam, são boquenses. Estavam felizes em mostrar esta faceta do portenho para estrangeiros que, certamente, levarão mais este lugar-comum da bela Buenos Aires para seu local de origem. Eu, contudo, de espírito crítico, sempre 7co, sobretudo sendo palmeirense, sou obrigado a dizer: não concordo com a maioria dos clichês portenhos – existem alguns, como o mau humor crônico dos garçons! –, mas assistir a uma partida no La Bombonera é realmente diferente.

Rodrigo De Giuli – o repórter NÃO viajou a convite de ninguém; todas as suas despesas foram pagas pela agência “Suor da minha testa”.

2 comentários:

  1. A matéria ficou da hora...
    Mas, Digão joga a real, vc pagou pro cara vestir a camisa do Porqueiras, né não?

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  2. Thiagão,
    Juro pela honra de meu adorado papai! E tem um cachecol do Palmeiras pendurado atrás de nós, ao fundo; clique na foto e veja aumentada - está lá. Mais: se você notar o tamanho da camiseta do vendedor, verá que ela NUNCA poderia ser minha - ela não passaria nem no meu pescoço!
    Até eu me surpreendi em ver um boquense com a camiseta do Palmeiras. Ele gosta muito de futebol brasileiro, e se disse torcedor alviverde porque a origem dos dois times é a mesma - da colônia italiana, dentre a classe trabalhadora pobre. Mas ele disse que tem alguns boquenses amigos que torcem pelo Corinthians por causa de Carlitos Tevez, outros que brincam com ele ser "palmeirense" porque o time eliminou o River Plate da Libertadores de 99 e perdeu o título - em 2000 - e uma semifinal - 2001 - para os xeneizes.
    Abraços!

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