21 de fevereiro de 2010

REALPOLITIK – GUERRA DAS MALVINAS AINDA FAZ VÍTIMAS

Uma grande tempestade cai sobre la Plaza de Mayo. A poucos metros da Casa Rosada, sede do governo federal argentino, a figura curiosa de Carlos Javier Meléndez Ibarra, de 28 anos, protege-se sob uma lona preta, ao lado do acampamento que os veteranos da Guerra das Malvinas fazem no meio da praça, em que se destacam faixas branco-celestes com dizeres em preto.

Uma horda de turistas fotografa os vários piquetes que ocorrem durante o dia, com gritos de ordem e reinvindicações de aposentadorias para os veteranos, alguns amputados ou em cadeiras de rodas. Meléndez é filho do ex-soldado Oscar Orlando Meléndez, de 51 anos, que num ataque aéreo logo no início do combate perdeu as duas pernas. A praça, famosa pelas “La Madres de la Plaza de Mayo”, está cheia de ex-militares, todos uniformizados, portando bandeiras e faixas.

Meléndez pai nasceu em Catamarca, região noroeste da Argentina, capital da província de mesmo nome, numa pobre e numerosa família de agricultores. Seu pai era operador de colheitadeira, membro de uma cooperativa, e a mãe, professora do ensino primário. O então jovem agricultor que ajudava o pai na plantação de um latifundiário não gostava de estudar e não via perspectivas para ele numa fazenda em que ele não passava de “mero empregado”. Alistou-se no exército e, aos 18 anos, mudou-se para um quartel em Buenos Aires. Queria fazer carreira.

Eram os anos de ditadura na Argentina, instaurada em 1976, através de golpe militar, um dos mais duros e violentos de toda a América Latina. Milhares de desaparecidos, torturados e mortos nos porões dos quartéis. Meléndez pai diz que nunca viu torturas ou pessoas sendo mortas enquanto serviu na capital, “mas ouvíamos os gritos à noite, quando fazia silêncio no quartel”. De acordo com o ex-soldado, os militares, para se livrarem dos corpos, muitas vezes jogavam os torturados de aviões que sobrevoavam o rio da Prata, a 2, 3 mil metros de altitude. Ele garante, com a experiência e o convívio com outros militares, que muitos foram atirados ainda vivos.

Feliz em sua nova carreira, mesmo longe da família, aos 23 anos, Meléndez viu sua vida mudar ao entrar em prontidão, na manhã de 31 de março de 1982. Ele havia se casado um ano antes com uma bancária chamada Rosalina, na época com 21 anos. O conflito eclodiu no dia 2 de abril, quando o pelotão em que Meléndez pai servia desembarcou a 100 quilômetros de Port Stanley, capital do arquipélago. Mais numeroso que o Reino Unido, contudo menos equipado, o exército argentino sofreu uma derrota rápida e humilhante; a guerra durou pouco mais de dois meses, até o dia 14 de junho. Como saldo, 908 mortos, sendo 650 militares argentinos e 258 britânicos – 255 militares e 3 civis que viviam na capital. Meléndez pai só soube da gravidez quando retornou a Buenos Aires, muito ferido e já sem as pernas.

Para os argentinos que combateram na Guerra das Malvinas, no entanto, estas feridas ainda estão abertas. “Somos milhares de homens que foram separados de suas famílias para lutar pela honra argentina, mas estamos abandonados”, revolta-se Meléndez pai, cujo sobrenome lembra o do comandante argentino, o general Mario Benjamin Menéndez. “Tenho vergonha da forma como o país trata seus veteranos”, interrompe Meléndez filho, concluindo em seguida: “muitas das famílias dos soldados feridos passam fome porque sem braços ou pernas eles não podem trabalhar”.

Um grupo numeroso de ex-combatentes saiu de Bahia Blanca, no litoral da província de Buenos Aires, para protestar na Praça de Maio. Caminharam quase 700 quilômetros pelo país para chamar a atenção das autoridades, somando-se aos já acampados em frente ao palácio do governo. Enquanto eles gritavam palavras de ordem e faziam um tradicional panelaço, a presidenta Cristina Fernández de Kirchner estava envolvida em escândalos (o financiamento fraudulento do hotel de Nestor Kirchner, marido de Cristina e ex-presidente do país, em Calafate, além de denúncias de enriquecimento ilícito); em uma crise pela renúncia do presidente do Banco Central (amiga de longa data de Cristina, Marcó Del Pont, foi a escolhida para substituir o demissionário Martín Redrado, gerando críticas até mesmo de alguns aliados); problemas com a morosidade da Justiça (o midiático julgamento dos supostos responsáveis pelo acidente aéreo que, em 1993, causou a morte de 65 pessoas, conhecido como “Caso LAPA”; lá, como cá, não houve condenações); e o aumento da violência e do desemprego em todo o país.

As reivindicações dos veteranos são, em sua maioria, básicas: aposentadoria integral para todos os que combateram nas Malvinas, com a consequente promoção de posto; pensão para as famílias dos mortos na guerra; e reconhecimento dos mortos que nunca foram encontrados ou identificados. Meléndez pai acredita que o movimento dos veteranos nunca esteve tão perto de “conquistar um direito que colocará a Argentina no curso da história”. Carlos, o filho do ex-soldado, é ainda mais contundente: “só mesmo cumprindo com estas exigências é que se fará justiça com os heróis que defenderam as Malvinas dos invasores”.

As Ilhas Malvinas, ou Falklands para os britânicos, estão sob controle do Reino Unido desde 1833. Conflitos pelo controle das ilhas datam do século 17, quando França, Espanha e Inglaterra lutaram por elas. Os veteranos se aproveitaram de um acontecimento importante, uma vez que a Grã-Bretanha espera prospectar petróleo na região. O governo argentino, através de um decreto, da ajuda da ONU e do Grupo do Rio, quer o controle marítimo do local em que os europeus farão a exploração e que o arquipélago seja devolvido ao país sulamericano, que teve soberania nas Malvinas entre 1820 e 1833. Envolvida com denúncias de favorecimento e de fraudes, Cristina Kirchner também se aproveita do momento para atrair simpatia para uma causa que é cara aos argentinos. “Espero que os acontecimentos das Malvinas chamem atenção para as necessidades dos veteranos, e não seja apenas uma questão política de soberania nacional”, espera Oscar Meléndez.

Em 1982, com as manifestações internacionais contra as torturas e assassinatos perpetrados pelo regime militar e o contínuo crescimento da oposição interna à ditadura devido à inflação alta e degradação das condições econômicas no país, o general Leopoldo Fortunato Galtieri, então chefe da junta militar que governava a Argentina, invadiu o arquipélago, liderados pelo general Mario Benjamín Menéndez. A soberania das Ilhas Malvinas é um tema que impele o imaginário argentino ao patriotismo, sobretudo no período em que os militares comandaram o governo. A resposta da Grã-Bretanha foi imediata. Governado pela primeira-ministra Margareth “Dama de Ferro” Thatcher, o país teve o apoio da Commonwealth (Comunidade das Nações Britânicas), da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

A Guerra das Malvinas durou 75 dias. Vencido, o comandante Menéndez assinou a rendição no dia 14 de junho. Para os ex-combatentes argentinos, no entanto, o conflito ainda não terminou e, possivelmente, ainda estaria longe de acabar: “enquanto o governo não atender às nossas reinvindicações, não deporemos as armas”, diz um exultante Oscar, sob o olhar orgulhoso de Carlos, as duas gerações feridas dos Meléndez, cujas cicatrizes marcadas na pele doem menos do que o esquecimento dos que deveriam honrá-los.

Rodrigo De Giuli

2 comentários:

  1. Fernando Abranches - São Paulo22 de fevereiro de 2010 15:22

    incrivel como as historias vao e voltam e o ciclo de desgracas nunca acaba, seja aqui no Brasil ou nos paises vizinhos.

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  2. Militares, tenho nojo dos altos escalões militares, sejam de que país forem, eles mandam os jovens para a morte enquanto nos seus salões planejam suas estrategias como se fosse um jogo de xadrez, pouco se importando se morram milhares ou não, isto foi assim durante toda a historia e continuará sendo, sempre criando intrigas e fomentando rivalidades para justificar a sua existencia, assim é por exemplo o militarismo americano, estou com 70 anos e não me lembro de ter vivido nem um dia sem que os americanos estivessem envolvidos em uma guerra, sempre na casa dos outros, se eu estou sempre a brigar nas casas dos outros omau, o raivoso, o agressor sou eu e não o que está em sua casa. Que raça peçonhenta esta dos militaristas!!!!

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