14 de janeiro de 2010

UMUNDUNU - OS CABEÇAS DE TURCO

Creio que daqui a cinquenta anos, quando, talvez, eu não exista mais, CONTINUANDO, PORÉM A EXISTIR O PALESTRA - O PALESTRA CONTINUA, como diz o De Martino, o vezo que toma os palestrinos a cada derrota do seu quadro, também continuará, sem esperanças de desaparecer. É este, sem dúvida alguma, um vezo que nasceu com o Palestra e, logicamente, só poderia morrer com o Palestra, mas, o Palestra... Não morrerá.

Na hora da despedida, o palestrino - triste e cabisbaixo, ou então, muito zangado - limita-se a critica. Não sabe fazer outra coisa. Critica em primeiro lugar, a diretoria; critica, depois, os jogadores, critica o campo, os juízes, a entidade diretora, tudo. Por fim, na ânsia desastrada de desabafar, acaba criticando a si mesmo, porque, sendo ele um sócio e um torcedor, ao mesmo tempo, criticando os palestrinos de todos os tipos, critica, logicamente, a si mesmo.

Que se há de fazer? - Nada. Moléstia sem cura.

Todos aqueles que porfiam, desde a sua fundação, nas hostes palestrinas conosco, devem estar lembrados, com certeza, de todas as crises e de todos os casos em que determinados jogadores, determinados diretores, tiveram que bancar como soe dizer-se vulgarmente, os "CABEÇAS DE TURCO". Se não se encontra um culpado, um "BODE EXPIATÓRIO", não ha sossego para o palestrino na hora da desgraça.

Eu me lembro perfeitamente de todos os jogadores palestrinos que passaram pela guilhotina da bílis concentrada do "fan" palestrino.

Quando o Palestra tornou-se um clube de peso, o jogador visado foi Ministro. No dia da derrota, a culpa recaia no Ministro, que não se interessara bastante no encontro, que matara o jogo de Caetano, que se demonstrara displicente como resultado do encontro, e o resto. Isto, o que se diz hoje de um jogador "cabeça de turco", dizia-se também naquela época de iniciação palestrina.

Depois de Ministro, foi Heitor, o Ettore, lendário dos palestrinos. [...] Cada vez que o Heitor devia jogar contra o Paulistano era aquela incrível ladainha de sempre: o homem contra os pupilos de Antônio Prado Junior, não sabia ou não queria jogar, não sabia chutar em gol, não queria ganhar o jogo.

Depois, veio a vez Romeu. A cada derrota do Palestra, lá ia no embrulho do mais espalhafatoso desabafo hepático dos palestrinos, o nome do pobre Romeu, que até as iras das Julietas palestrinas tinham que suportar com franciscana paciência.

Veio a vez de Jurandyr. E foi aquela tragédia que todos sabem.

No fim da série, está presentemente o Luisinho Mesquita. Nunca, na minha longa vida de cronista bisbilhoteiro esportivo, vi eu tanta paixão, em formas diversas, envolver um jogador como se dá com o caso do Luizinho. Nenhum jogador, no Palestra ou fora dele, teve o privilégio de açambarcar tanta defesa hiperbólica e tanta censura ilimitada, como o Luizinho. Ou o Luizinho, no gênero futebolístico, é uma personalidade inconfundível, ou se trata de um episódio de loucura coletiva.

O Luizinho pode-se orgulhar de representar na história, longa e rica, de todos os episódios mais característicos do Palestra, o maior "cabeça de turco" da sua produção futebolística.

Para mim, o fato não tem expressão individual. Cito-o apenas como exemplo. Porque estou convencido, há muito tempo, que o palestrino em geral, salvo várias louváveis exceções, tem mais queda para destruir com insultas críticas, do que construir com a sua colaboração sensata. O estádio... Inacabável... E a piscina, que o digam. Mesmo porque, destruir é mais fácil do que construir. E custa menos tempo, menos dinheiro e menos aborrecimento.

Paciência!

No entanto, não desanimemos.

Façamos com o De Martino, o velho De Martino, o eterno otimista de todos os tempos, sempre alegre e confiante que nunca, jamais desespera. A piscina virá. O Palestra continua. A piscina... Virá. O Palestra... Continua.

* texto de Vincenzo Ragognetti, jornalista, escritor e, acima de tudo fundador do Palestra Itália, publicada em maio de 1941, na Revista Vida Esportiva Paulista, muito pertinente aos dias atuais vividos pelo Palestra Itália-Palmeiras.

Enviado por Gabriel Lopes

2 comentários:

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  2. A piscina veio... O Palestra virou Palmeiras... E a mesma ladainha de sempre continua...

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