22 de janeiro de 2010

UMUNDUNU - ALGUM OGUM CYBERASSOMBRADO

É madrugada, o canto do galo que eu acordei ecoa indignado. É tarde para mim, cedo demais para ele. Chove forte lá fora, pinga sobre a mesa. A busca para o desfecho da trama que envolve a questão de vida ou morte de Isis, a fisioterapeuta pedófila, é o empecilho. Deixo para amanhã. Quem sabe o cotidiano traga algum toque mágico. Percebo que já é dia e para espreitar a realidade antes de pegar no sono adentro os emails. Lazar Delfuego está em minha caixa de entradas, jamais ouvi falar desse nome, temo que seja um vírus ou qualquer brincadeira tosca. Porém, lá dos escombros da memória vem uma associação qualquer, não me contenho, abro e leio intrigado:

“Bom dia! O texto em anexo é parte de um dos diálogos do conto Minutos Descontínuos, assinado por Luigi Magnamana, 35 anos, paulistano da Mooca. Trata da narrativa de uma conversa telefônica que o autor manteve com seu personagem Abraão Jr., ex pugilista, peso pena, boêmio arruaceiro e band leader do "Vagabundos Celestiais", grupo de free jazz cuja biografia desautorizada está prestes a editar.
Lê, se quiser, penso que pode ser útil”.

Após o terceiro toque, aquela voz soou enérgica:

- Diga lá! Contador de histórias! Sou Jorge Ogum e estou plenamente incorporado em seu personagem Abraão Jr., agora meu cavalo que, como de costume, está à beira de mais um coma alcoólico. Portanto, ou você faz de mim um protagonista dos seus contos babacas ou invado definitivamente esta tumultuada existência! E aí, como disse Zumbi, nem mel; nem cabaça.

- Não entra nessa, Magnamana, você me conhece bem e sabe que sou um rato.
Indagou Abraão, cruzando a linha no intuito de demonstrar que controlava a situação. E prosseguiu tentando passar sobriedade.

- Um rato, isso mesmo, no sentido mais chulo possível da metáfora. Aquele especialista em pequenas transgressões. Dos furtos fortuitos nos supermercados desta vida a galope. Um dragão por dia. Jack Daniel’s, Camembert, chocolates e outras quinquilharias! Reencontro-te, quem sabe! Uma hora dessas, irmão, quem sabe? Até as pedras se reencontram. Não podemos ignorar a condição da surpresa! Haveremos de ser um susto, o acaso. Nunca esquecendo aquele respeito que sempre vigorou, e se perpetuará entre nós, e que há de estar de braços dados com a justiça de Oxalá.
Estive em transe, estou tranquilo, esteja em paz.
Agora, cá entre nós, se for possível, arranja uma cena qualquer, uma pontinha que seja para esta entidade. Ainda que eu morra no final, fico devendo o favor.

É... Lazar, caso esquisito esse, muito estranho! Não sei o que dizer.
Fui tratando de responder para me desvencilhar do intruso e trancar novas investidas. Preciso dormir um pouco, tenho compromissos daqui a pouco. Mas não me contenho e emendo: esclareçamos, ainda que mal pergunte, de onde é que eu lhe conheço.


Claudio Zumckeller

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