26 de janeiro de 2010

7ENTREVISTA - MARA GABRILLI - INCLUSÃO SOCIAL


Mostraremos para vocês algumas entrevistas que fizemos sobre o tema inclusão social. Participaram das entrevistas algumas pessoas importantes – e atuantes - nessa área. A primeira delas é a vereadora Mara Gabrilli.

Mara Cristina Gabrilli é vereadora da cidade de São Paulo e fundadora da ONG Projeto Próximo Passo, recentemente com o nome Instituto Mara Gabrilli. Em 1994, sofreu um acidente de automóvel e tornou-se tetraplégica. Em 2005, foi convidada pelo então atual prefeito de São Paulo, José Serra, para assumir a Secretaria da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (SEPED) – nosso próximo entrevistado é Marcos Belizário, titular atual da pasta da SEPED.

A vereadora nos recebeu na Câmara Municipal de São Paulo.

7cismo - O que é inclusão social?

Mara Gabrilli - Inclusão social é uma questão muito abrangente. Diz respeito às pessoas que precisam ter acesso aos direitos, as oportunidades que o serviço público oferece, a legislação, a informação, a educação, ao transporte, a saúde, ao trabalho, ao entretenimento, a todas essas questões. Todos esses setores são evolvidos a criar possibilidades pra que aja inclusão social. Então a gente fala de todas as pessoas, inclusão social da mulher, do idoso, do adolescente, das pessoas com deficiência, da criança. Enfim, é um tema muito abrangente.

7 - Um cadeirante é um excluído social?

MG - Depende muito. O que acontece com o cadeirante é que ele tem barreiras físicas a vencer. Então, se ele chega num lugar não tem rampa, não tem elevador, a calçada não é em nível com a rua... Ele não vai subir. Essa acaba sendo uma limitação e ele acaba excluído de várias coisas por falta de estrutura física na cidade. Porque pensa bem, se a gente conseguisse um antídoto mágico que jogasse por toda São Paulo pra acabar com o preconceito das pessoas, e com o preconceito a mulher, ao negro, ao índio, ao idoso, a pessoa com deficiência, as barreiras físicas iriam continuar. Por mais que não existisse preconceito, o cadeirante continuaria subtraído do direito de ir e vir. E isso acontece com uma pessoa idosa de mobilidade reduzida também.

7 - O que falta nas cidades?

MG - Além do acesso que eu já falei, as questões físicas, o que eu acho que tem de se fazer – já que o antídoto não é uma coisa fácil, que você jogue e pronto – é um trabalho quase que pedagógico, de sensibilização, de conscientização da população. A importância de ter um olhar para a diversidade, saber contemplar aquilo que é diferente de você, e isso não diz respeito só a uma pessoa com deficiência, diz respeito a uma pessoa que tem uma renda diferente da sua, de uma pessoa que é mais alta que você, obesa, uma pessoa que é feia, que está com o pé engessado... Diz respeito a todo mundo. Então acho que o que a gente precisa ainda é desenvolver esse olhar e contemplar essa diversidade humana em qualquer projeto. Então, independente de qual seja seu projeto, desenvolva isso, treine sua equipe para criar acesso para qualquer tipo de pessoa, não importa quem seja você ou o que vai fazer, você pode colocar um toque de mudança nesse cenário.

7 - O excluído social é resultante do sistema capitalista ou ele estaria presente em qualquer outro regime político?

MG - Eu acho que tem diferença. Acho que o excluído tem várias facetas. Claro que se você pegar uma pessoa que mora lá numa favela, numa comunidade no Grajaú, que não teve outras oportunidades, veio do nordeste pra cá, teve que invadir uma área e construir um barraco, mora do lado de um córrego, não tem uma habitação, entendeu? Ele é um excluído. Isso foi culpa de um crescimento totalmente não planejado da nossa cidade, das cidades grandes, abriu as portas para todo mundo e não tinha como receber. As pessoas vinham com uma promessa de algum lugar pra cá, então, claro que fez parte de todo esse crescimento desmedido que a gente vem passando. Em cidades que o crescimento é planejado, isso acontece muito menos. Agora, tem outras facetas também. Eu posso te falar, como uma pessoa que tem uma deficiência aparentemente até grave, porque eu não mexo um músculo do pescoço pra baixo, mas como eu tenho muita oportunidade, eu tenho uma condição que me permite muita coisa, eu praticamente não sinto essa deficiência. Então pra você saber quem é excluído, você precisa levar em consideração o meio em que ele vive. Porque ter uma deficiência não é pré condição de exclusão. E tem mais uma questão... Se uma pessoa não sentir-se incluída, não importa que característica ela tenha, ela jamais vai ter a capacidade de incluir alguém. Então pra começar, você precisa incluir a você mesmo.

7- E os cidadãos que gozam de todos os privilégios que a sociedade oferece, como lazer, cultura, saúde, e não tem consciência de cidadania. Não tem consciência da vida coletiva, eles são excluídos?

MG - Talvez ele não seja excluído desse pequeno mundinho em que vive. Mas ele é um deslocado, né? Porque é uma pessoa que não exerce cidadania. Então, o que eu acho dele, e olha que tem muita gente assim, que estaciona em vaga de emergência, guia rebaixada, joga lixo no chão, e não precisa ser humilde, ser pobre, ter uma renda pequena, pra fazer isso não. Você vai aos shoppings de bacana aqui em São Paulo, é aonde tem mais carro parado em vaga de pessoa com deficiência. Isso é falta de cidadania, e você pode ter certeza que essa pessoa tem uma concepção de mundo muito restrita.


Felipe Payão e Claudio Zumckeller

2 comentários:

  1. A cidadania inclui muitas coisas, e a inclusão social é algo visivelmente falho. Está apenas na cabeça de muitas pessoas. Há pessoas que se dizem sem preconceito, mas aparece na escola algum cadeirante ou pessoa com limitação, esta pessoa foge. As vezes com pequenos gestos e ajuda, o inicio à inclusão social e a cidadania começam a surgir cada vez mais.

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