19 de janeiro de 2010

7ENTREVISTA - "FARIA TUDO DE NOVO PARA MANTER O PAÍS LIMPO DO RISCO DO COMUNISMO"

Nascido em Paraguaçu Paulista (distante 460 quilômetros de São Paulo), o ex-coronel do exército Antônio Erasmo Dias foi o braço armado da ditadura e do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo, especialmente no período em que foi secretário de segurança pública do Estado de São Paulo, durante o governo de Paulo Egydio Martins.

Considerado "linha dura" até mesmo por seus aliados, Erasmo Dias ficou célebre pela invasão à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 1977, quando o campus da universidade acolheu a reunião em que a União Nacional dos Estudantes (UNE) seria refundada. Mais de mil estudantes foram detidos; diversos deles ficaram feridos. Acusado de intolerante, Dias responde que "não importa que eram estudantes, eles não obedeceram à ordem de evacuação".

Formado em Direito e História, Erasmo Dias foi deputado federal, estadual e vereador em São Paulo após deixar a secretaria. O ex-coronel morreu no último dia 4 de janeiro, vítima de um câncer no estômago, aos 85 anos. Personagem importante de um período histórico rico, sua morte foi pouco repercutida pelos meios de comunicação de massa; uma notinha na Folha de S.Paulo, meia página n'O Estado de S.Paulo, poucas informações em portais da rede, quase nada nas TVs.

Na entrevista abaixo, concedida em junho de 2007, Erasmo Dias não refuta as acusações, defendendo-se "desta mídia comunista vendida aos interesses da União Soviética". Alternando o tom de voz e sempre olhando o interlocutor nos olhos, o ex-coronel não se furtou a responder nenhuma pergunta. Veja a seguir trechos da entrevista.


7CISMO: O senhor é tido como "linha dura" por todos que conviveram com o senhor, tanto na secretaria de segurança como no exército. Como o senhor responde a esta afirmação?

Erasmo Dias: Simples, eu sou linha dura mesmo, sem aspas. Fiz o que fiz pelo bem do Brasil, para livrar este país da ameaça comunista.

7: A ocupação da PUC, quando o senhor era secretário de segurança, não foi exagerada? Muitos estudantes relataram, na época, que foi uma tentativa de desocupação violenta, com bombas incendiárias e que eles teriam saído de forma pacífica.

ED: Claro que não houve exagero! Se aquele bando de comunista tivesse obedecido à ordem de evacuação do campus, eu nunca teria ordenado que os soldados jogassem bombas de efeito moral. Não joguei bomba incendiária, não sou assassino. Tinha homem barbado chorando de medo, e foram as mulheres, todas muito jovens, que ficaram na linha de frente. Então é possível que algumas tivessem sofrido queimaduras, mas foram todas atendidas por ambulâncias do exército e da PM.

7: O senhor realmente acreditava que o comunismo tinha chance de se instalar no Brasil?

ED: Tinha. E se não tomarmos cuidado, ainda tem. Sabe por que o Lula ainda está no Palácio do Planalto? Porque ele mudou seu discurso, guinou-o à direita. Imagine se o Lula de 2002 fosse o de 1989? Já tinha sido apeado de Brasília.

7: O senhor está dizendo que o exército teria tomado o poder?

ED: Não precisaria nem ser o exército. As elites econômicas teriam patrocinado a mudança. Tenho plena convicção disto. Assim como o exército foi o esteio da revolução de 1964, seria novamente agora. Entretanto, quem realmente patrocinou a revolução, que vocês da mídia adoram chamar de golpe militar, foram empresários e a elite intelectual, inclusive o Estadão, a Folha, a Globo, que agora ficam se fazendo de inocentes e defensores das liberdades constitucionais.

7: Mas não houve excessos no período chamado de "Anos de Chumbo"?
ED: Que excessos? Na Argentina morreram centenas de militantes de esquerda, jogavam de avião. No Chile outras centenas, dentro do Estádio Nacional. Teve morte no Perú, no Uruguai. Aqui dois se suicidam nos porões e a culpa é do exército? Este país sempre viveu na baderna, desde os tempos de República Velha. A revolução deu unidade federal ao Brasil e defendeu os interesses do país dos comunistas soviéticos, que queriam nos transformar em uma outra Cuba.

7: Mas o jornalista Vladimir Herzog e o sindicalista Manuel Fiel Filho foram assassinados... (Erasmo Dias me interrompe irritado)

ED: Isso é você que está dizendo!

7: Mesmo o legista Harry Shimada já teria confirmado os laudos forjados... (Erasmo Dias me interrompe novamente)

ED: Você só vai ficar falando do período da revolução? Fui deputado federal, deputado estadual, vereador, tive muitos projetos aprovados que beneficiavam a população, e você vai ficar fazendo o papel de escrivão da mídia comunista?

7: Não, só queria ouvir sua versão sobre os fatos...
ED: Mas os fatos já foram contados e recontados incessantemente. Vocês jornalistas só querem saber de acusar o exército e a revolução pelas mazelas cujos verdadeiros culpados são os políticos. Antes a junta tivesse fechado o Congresso antes!

7: Mas uma atitude destas não iria contra os parâmetros iniciais da revolução, como o senhor a chama, de ser um - vou repetir sua afirmação - esteio do movimento?

ED: Não necessariamente. A ideia nunca foi fechar Congresso. Esperava-se, no comando da junta, que seria um período de transição, de libertar o Brasil do pesadelo comunista, das garras da União Soviética. Os vermelhos queriam que o Brasil ficasse sob sua influência, uma nova Cuba. O que ocorreu é que o Congresso, preocupado apenas com suas liberdades e não se importando com o risco do comunismo, não deu sustentação aos militares, para que estes pudessem devolver o comando político aos civis. A sob o grave risco de baderna e até de guerrilhas, o comando militar acreditou que manteria a ordem se permanecesse no poder. E foi o que ocorreu.

7: Mas e os casos de tortura, do RioCentro, Herzog, AI-5?

ED: Foram atitudes tomadas pelo bem do Brasil. Não havia outra forma de defender o país. Havia um risco sério do comunismo tomar o poder e entregar nossas riquezas aos bolcheviques.

7: O senhor está dizendo que havia provas, que a junta militar tinha informações de que comunistas tomariam o poder?

ED: Claro que havia. Era um risco inerente ao período, estávamos no auge da Guerra Fria. Os EUA e a URSS brigavam dedo a dedo por corações e mentes dos países que tivessem alguma riqueza ou posição estratégica. Então é claro que, sendo o Brasil exportador de aço, alimentos, matéria-prima em geral e estando numa posição de liderança na América do Sul, sua importância era enorme. E havia no Brasil muitos comunistas que tinham contatos com a União Soviética, através de Cuba e até da China.

7: O senhor poderia dizer quais eram estas provas?

ED: Não.

7: Mas seria de grande importância saber sobre este período. Temos muita litaratura sobre o golpe...

ED: Não foi golpe, foi revolução!

7: ... sobre a revolução, mas são trabalhos de historiadores respeitados, que nem sempre chega à mídia popular, pouca gente conhece...

ED: E não serei eu que vai abrir o bico. É tudo secreto. Está tudo arquivado em Brasília. Você não vai tirar estas informações de mim. Elas são de vital importância estratégica para o país. Um dia, quando estes arquivos forem abertos, não estarei mais aqui para ver. Já estarei descansando, pois trabalhei muito pelo Brasil. Tenho a consciência tranquila.

Rodrigo De Giuli

5 comentários:

  1. Nossa. Todo Jornalistas 7cistas são ditadores? Contra o Comunismo ?

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  2. Cara Kiyomaro Takamine,
    Tudo bem? Obrigado pela visita!
    Bem, a entrevista é do Erasmo Dias. A frase é dele. Meu papel, ao entrevistá-lo, é levar ao leitor e seguidor 7co o que o entrevistado tem a dizer. Nem sempre somos opinativos; por vezes, deixamos que o 7co leitor tire suas próprias conclusões. Se observar a frase, verá que ela está entre aspas, o que coloca na "boca" do entrevistado. Preferi não emitir opinião nesta entrevista porque o personagem dela morreu dia 4 de janeiro; ele nunca mais poderá se defender, a não ser que ressuscite - coisa que, por minha formação ateia-agnóstica, acredito que nem Cristo conseguiu!
    Repito: as palavras contidas no texto são do entrevistado, como fica claro na separação entre as perguntas (em negrito e com o 7 na frente) e as respostas (com as inciais do nome de quem respondeu.
    Não posso responder à sua pergunta em nome dos outros 6 membros do blog. Posso responder por mim, mesmo que à contra gosto, pois visão política, assim como religiosa e o time que eu torço (já vou logo dizendo, o Palmeiras!) são assuntos de ordem particular. Abro minha posição política porque, neste caso, prefiro dizer a ser taxado de ditador: tenho um viés "subversivo", sou anarquista (ao Google molecada!).
    Um abraço e volte sempre!
    Rodrigo De Giuli

    Leia mais: http://www.7cismo.com/2010/01/7entrevista-faria-tudo-de-novo-para.html#comments#ixzz0dAsztffD

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  3. Obrigada. Me esclareceu *-* O anarquismo é algo fascinante. Será que algum dia terá algum governo que faça feliz todas as classes ? E que faça do anarquismo (não que eu ache ruin) uma extinção?


    Grata. Adoro pessoas que me respondem de forma direta e correta. Tira todas as minhas dúvidas.


    Renata Oliveira

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  4. Cara Renata Oliveira,
    Sempre que um(a) leitor(a) nos escreve, sentimo-nos obrigados a dar satisfação; queremos que o 7CISMO seja um canal cujo (aí vem uma palavrinha da moda!) feedback nos ajuda a melhorá-lo. É muito importante a sua participação pois é com o seu comentário que saberemos se estamos no caminho certo: informar, divertir e - por que não? - causar polêmica. A entrevista de Erasmo Dias teve esta finalidade, trazer a discussão de um período importante de nossa história, cuja dicotomia entre militares e civis é flagrante. Quase nunca damos espaço para que o "outro lado" dê sua versão dos fatos - mesmo que não concordemos com ela - este pode ser o meu caso específico, já vou logo dizendo antes que me chamem de fascista!
    Mais uma vez, nós, 7cos, agradecemos a visita de vocês e seus comentários, positivos ou não (tem alguns 7cos que até gostam mais dos negativos!).
    Um grande abraço e muito obrigado,
    Rodrigo De Giuli

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  5. Eu sou absolutamente fascinada por essa época da História brasileira. Desde que Vargas deu seu primeiro 'golpe' em 1930. Dai eu passei a me apaixonar cada vez mais sobre este período, e quero ver até se consigo assistir todos os Bastardos Englórios (é assim que escreve?).

    Gostei da entrevista. E por falar li uma materia sua do Jornal Enfoca, que você fala sobre Getulio e a fama depois da morte. Percebi também que você é o que mais costuma escrever sobre estes temas. Eu realmente acho fascinante este assunto. E por mais 'vermelha' que eu seja, eu admiro muito Hitler e Mussolini.
    Tem que ter muita capacidade pra se fazer o que os dois fizeram.

    Grata. Renata Oliveira.

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