29 de dezembro de 2009

UMUNDUNU - O FRIO E UM SORRISO

- Vamos, rapaz. Se solte. Está sentado aqui em minha frente faz mais de meia hora e não abre a boca.

O cheiro de carvalho da sala era dissipado pelas baforadas do cigarro. O psiquiatra usava colete, óculos finos, um relógio grande. Fumava charuto. É homem requintado e paciente.
O infrator vestia uma camisa velha, igual todas as outras. Seu jeans não é de marca. Não usa óculos, apesar dos vultos que vê constantemente e alguma dificuldade em enxergar à distância. Mirou em seus olhos e disse:
- Mas o que você quer que eu fale?

A única coisa que aborrecia o infrator era o pequeno cachorro deitado nos pés de seu futuro inquisidor moral e a cara que fazia ao tentar analisá-lo.
- Bom, vamos do começo. Qual foi o motivo?
- Um sorriso.

O psiquiatra coçava a cabeça. Era a última sessão antes do infrator ser transferido para a penitenciária, então, ele resolveu esclarecer:
- Eu andava na rua. Numas ruas aí do centro. Já era de madrugada e eu não ando desarmado. Em cima da porta de um hotel tinha uma câmera, percebi que enquanto passei ao lado dela, ela me acompanhou. Então eu parei. Olhei para o olho de vidro da câmera e fiquei encarando-o por uns cinco minutos. Esse é o começo.

Ele não acreditava, já estava se despindo de todo estudo psiquiátrico. O homem fino, agora balançava seu pé direito freneticamente e tirava seu colete. Talvez não fosse excitação, talvez fosse o mormaço que enchia a sala. O suor escorria na testa de ambos.
- Por favor, continue. Foram milhares de sessões... Não pare.
- Matei pelo frio. Por causa do frio e do sorriso. Enquanto admirava as luzes refletindo na diminuta bola de vidro, o frio congelava minhas articulações, e em razão disso, cerrei minhas mãos com força. No mesmo instante, um senhor, devia ter seus 50 anos, parou ao meu lado e sorriu.
- Por isso o matou?
- Por isso? Seu olhar me recriminava. Seu sorriso era de medo. Viu-me de punhos fechados e provavelmente pensou que era um assalto. Eu não sou um criminoso. Então, embalado pelo frio e vigiado pela câmera, puxei a arma e apertei o gatilho. Acertei o projétil no meio do sorriso. O corpo caiu. A boca se abriu e o sorriso ficou ainda maior. Sendo assim, peguei um cano que estava jogado na rua e bati cinco vezes em seu rosto. Seu sorriso sumiu.

O criminoso apagou o cigarro. O psiquiatra acendeu um charuto.
Os estudos foram por água abaixo:
- Certo que o homem que você matou não era boa pessoa. Um diplomata corrupto não merece perdão. Mas isso? Ultrapassa o perfil dionisíaco. Como você mata alguém por um sorriso? Nem sabia quem ele era! Você não tem escrúpulos?
- Tenho. Não entendo suas perguntas. Você quis a verdade. Eu dei. Poderia ser mais um que vem aqui e diz que foi deus quem mandou matar. Que ouvia vozes. Não. Entreguei algo racional. Trabalhe com isso. O frio e o sorriso.
- Trabalho meu não. Estou dando graças a deus que você vai para penitenciária. Escória dos homens.

As gotas de suor se intensificaram, o pequeno cachorro se afastava cada vez mais da dupla, a primeira vista, maniqueísta.
- Bom saber disso. Não me encontrarei mais com você. Vocês são assim. Querem analisar outros, e não analisam a si. Querem cuidar dos outros, e não cuidam de si. Querem salvar o planeta, e não salvam a si.

Sem palavras, o inquisidor moral ficou observando seu rosto. Não entendia o criminoso. Pensava: “o que este filho da puta quer dizer?”. O cachorro deitou no canto da sala procurando ar. Estava pesado, quente. Misturavam-se o cheiro do cigarro apagado, do charuto aceso, o mormaço e a forte colônia que exalava do inquisidor.

- Não vai dizer nada? – Analisou e perguntou pela primeira vez o criminoso.

O inquisidor levantou-se e ficou em frente ao armário atrás de sua poltrona. Em um movimento brusco, virou-se para o criminoso de dedo em riste, cara fechada, carrancuda, e o suor empapando seu rosto.

- Frio e o sorriso? É isso, então!?

Não terminou. O criminoso pegou um móbile de avião em bronze que estava ao seu lado e arremessou contra a cabeça do inquisidor.
Foi o calor e a carranca.
O corpo deitado, já inerte - mas não morto -, repuxava em trôpegos o diafragma. As sinapses emitidas pelo cérebro não causavam nenhum efeito.
Exaurido pelo calor, o criminoso olhou aquela carranca admirando-o e desferiu mais três golpes.
Dois na testa. Liquidou o movimento das sobrancelhas. Um entre os olhos. Liquidou o olhar estático.

Com frio ou calor, independente de como se sentia e de qual foi seu último pensamento, não importa mais. O leitor terá que buscar suas razões ao longo do texto.
Um tiro na nuca. O criminoso está no chão.

Crédito foto: ygksm

Felipe Payão

2 comentários:

  1. A história é lenta e complexa. Muito bom de ler. (:

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  2. Muito bem Felipão...
    texo inspirador... dos melhores...

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