15 de dezembro de 2009

REALPOLITIK - UMA APOSENTADA INSTITUCIONALMENTE MORTA


Benedita Vasconcellos da Silva, a dona Benê, está morta. A aposentada de 71 anos, solteira e sem filhos, foi enfermeira do Hospital das Clínicas, de São Paulo, por 36 anos. Contou ter cuidado de Tancredo Neves, quando o então presidente eleito pelo Congresso esteve internado na capital antes de morrer, em 21 de abril de 1985.

Moradora do Jardim João XXIII, zona oeste de São Paulo, ela vive com 4 vira-latas na parte de baixo de um sobrado cor de rosa e portões com grades enferrujadas, numa rua movimentada do bairro, entre um boteco com balcão de fórmica azul clara e tampo branco descascado e encardido – deve ser o único que sobrou na cidade – e uma lotérica.

Nascida em Juazeiro, na Bahia, a ex-enfermeira é conterrânea de Luís Pereira, o maior zagueiro da história do futebol mundial. Luisão Chevrolet jogou 568 vezes com o manto palmeirense e marcou 35 gols, a maioria de cabeça. O genial zagueiro de pernas arqueadas fez parte do que se convencionou chamar "Segunda Academia", timaço comandado por Osvaldo Brandão, fora de campo, e pelo refinado craque Ademir da Guia, o Divino, entre 1968 e 1975. Vendido ao Atlético de Madrid, clube no qual é ídolo até hoje, voltou ao time do Parque Antárctica em 1981, ficando até 1984, com o mesmo brilho e amor à camisa alviverde.

Voltemos ao curioso caso de dona Benê. Para o governo brasileiro, ela está morta. Contudo, ao contrário do que diz o Ministério da Previdência, a aposentada está vivíssima. Me oferece o café após tocar um dos 4 vira-latas para fora da cozinha. Chaves é o nome do pequeno labrador misturado com algo parecido a um terrier de pelo duro, marrom e preto, estranhíssimo. Não, não é uma "homenagem" ao Hugo, presidente da Venezuela. É que ela não perde um episódio da série que vira década, sai século, está lá na tela do SBT.

Os outros cachorros têm nomes de personagens da série mexicana: Kiko é um labrador marrom, Seo Madruga é um absoluto SRD muito magro e Chiquinha é um fox misturado com labrador. Pergunto para dona Benê se é coincidência ter vários "labradores" entre eles. Ela ri alto e me responde com outra pergunta: "já viu cachorro de pobre ser castrado?".

A ex-enfermeira descobriu que estava morta ao ficar dois meses sem receber a aposentadoria. Foi ao posto do INSS de Pinheiros, e lá ouviu que o governo considera Benedita Vasconcellos da Silva, nascida em Juazeiro-BA, de 71 anos, RG número 1.167.397, morta desde 2003. Bem humorada, a ex-enfermeira ironiza o governo: "puxa vida, eu aqui 'vivinha da silva' e o Lula achando que estou morta. Daqui a pouco, o Tancredo aparece para receber meu ordenado!". Ela conta que, durante o atendimento, um funcionário da agência lhe disse que casos de homônimos mortos são comuns.

O calvário de dona Benê vem desde então. Passa horas na fila para ser atendida, perde dinheiro – a aposentada trabalha como babá – e, cada vez que ela volta ao posto, os atendentes sempre alegam que falta um documento, uma certidão, um atestado. Até ao IML ela já disse ter ido. Um funcionário do INSS de Brasília ligou para a ex-enfermeira dizendo que corrigiria o problema, após relatar que o órgão descobriu quem era a homônima: Benedita Vasconcelos (com um "l" só) da Silva, nascida em Juazeiro do Norte, Ceará – terra de Rubem, um obscuro zagueiro reserva do Palmeiras, nos anos de 1960 – e morta em São Paulo, em 2003, vítima de câncer. Suprema ironia, duas mulheres com os nomes idênticos, com o pequeno detalhe do "L" a menos, de cidades "homônimas".

Toda vez que tenta provar que está viva, dona Benê vai até o posto de Pinheiros durante a madrugada para pegar a senha e não perder o dia todo. São duas vezes por semana – a espera ao relento, as manhãs frias, o sono teimando em roubar-lhe o lugar na fila. O cansaço e a idade apresentam-se implacáveis e a saúde, apesar da cabeça boa, já não é a mesma. É o único momento em que a ex-enfermeira perde o humor e se mostra desanimada, entristecida.

A aposentada nunca se casou e não tem filhos que possam ajudá-la. "Os únicos parentes que me sobraram estão na Bahia. Um tio velhinho e uma prima chamada Benedita", ri dona Benê. Novamente ela perde o humor e fica irritada: "Amanhã tenho que voltar lá no INSS", resigna-se de seu destino, lembrando-se que todos acham seu caso curioso, mas que nenhum funcionário consegue resolver.

Ao sair da casa da aposentada, com os latidos dos "labradores mexicanos" ficando para trás, olho para dentro do boteco. Dois velhos jogam conversa fora, sob o olhar do atendente atrás do velho balcão de fórmica. Na lotérica, uma jovem aguarda a vez para fazer uma aposta. O movimento na rua é grande, são quase 18 horas de sexta-feira.

A vida que segue na vizinhança do Jardim João XXIII é tão natural quanto a visão de dona Benê segurando o portão de casa, o olhar perdido, viva como a jovem na lotérica ou o motorista do caminhão das Casas Bahia, que procura um endereço no guia. Ela deturpou a inexorabilidade da morte. Uma morta que caminha, alimenta os cachorros e ri da própria falta de sorte. Dona Benê está institucionalmente morta. Contudo, remediavelmente morta.

Rodrigo De Giuli

Um comentário:

  1. Fernando Abranches - São Paulo17 de dezembro de 2009 16:51

    Inadmissível que num país como o Brasil uma pessoa que trabalhou a vida toda passe por uma situação destas! Solidarizo-me com ela! Excelente relato, mesmo com a viajada no meio - sou corintiano.

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