27 de dezembro de 2009

REALPOLITIK - CRÔNICA DA CIDADE - COMO É DIFÍCIL VIVER NOS "JARDINS"


Encravado entre o centro e as zonas oeste e sul de São Paulo, os Jardins, como convencionou-se chamar a região do Jardim América, Jardim Paulista, Jardim Paulistano e Jardim Europa, é um bairro rico, onde vive boa parcela do PIB nacional, da classe política e artística do Brasil. Lá vive, por exemplo, o ex-prefeito Paulo Maluf, que fez Celso Pitta sucessor, que nomeou, em uma de suas secretarias, Gilberto Kassab, que é o atual prefeito da cidade, um morador dos Jardins.

Com bares, restaurantes, parques e museus espalhados por vários endereços do bairro, a vida nos Jardins não é difícil. O trânsito caótico das avenidas que cortam os Jardins convida ao uso de suas ruas arborizadas e tranquilas, muitas delas com belas praças, além da “proximidade” entre os pontos visitáveis da região, que seduz em deixar o carro na garagem.

Não moro em nenhum dos Jardins descritos acima. Minha condição social não me permite, nem em meus sonhos mais delirantes, investir num dos metros quadrados mais caros do mundo. Estou mais perto de viver noutros “jardins”, bem mais longe, distante 50 quilômetros a leste, extremo leste da capital paulista.

É neste extremo leste, cuja a vida é bem mais dura e difícil, que se encontram outros “jardins”: Jardim Romano, Jardim Helena, Jardim Pantanal. Os “jardins” da zona leste não são sombra da vida sócio-cultural dos Jardins famosos. Com exceção de um CEU recentemente inaugurado e de um conjunto habitacional da CDHU, não haveria sequer urbanização, quanto mais vida cultural.

Apesar das diferenças econômicas entre ambos, o da zona leste também é um bairro calmo, com ruas tranquilas, contudo pouco arborizadas. Os “jardins” da zona leste, no entanto, acabam de ganhar as manchetes, pelo pior motivo possível. Inundada pelo rio Tietê, nas chuvas da semana passada, a região – agora chamada de invasão pelo “honorável” alcaide Gilberto Kassab – sofre com o cheiro ruim, doenças e falta de estrutura e atenção da prefeitura da maior cidade do hemisfério sul.

Esquecidos pelo Kassab, os moradores dos “jardins” estão abandonados à própria sorte. Sofás sobre botijões de gás, carros boiando ou presos nas garagens, crianças brincando nas águas podres e trabalhadores que perderam tudo nas cheias. A visão do bairro é desoladora, um grande esgoto a céu aberto. Criatividade e urgência são imperativos para resolver o problema dos moradores dos “jardins” da zona leste. Não é possível que seres humanos vivam sob as condições em que se encontram as pessoas alagadas dentro de suas casas.

Senhor prefeito, por favor, mexa-se! Não culpe a população por “jogar lixo nas ruas”, nem São Pedro, porque os índices pluviométricos foram maiores neste ano, nem “combine com Papai Noel para não chover mais”, como fez troça da desgraça alheia Milton Persoli, subprefeito de São Miguel Paulista, durante entrevista ao programa SPTV, da Rede Globo de Televisão. Faça sua parte, ajude os moradores dos “jardins” da zona leste. Cumpra sua obrigação de zelador da cidade, ou tente dormir tranquilo no luxuoso condomínio em que mora nos Jardins, longe dos problemas que sua bem nascida vida nunca lhe impingiu.

Rodrigo De Giuli

2 comentários:

  1. Fernando Abranches - São Paulo28 de dezembro de 2009 08:30

    Este texto exprime bem qual é a realidade do país, suas diferenças, seus abismos. A triste realidade de quem vive nos Jardins da Zona Leste é tão contrastante com a que vivem os moradores do rico bairro central que parecem países distintos. É bom ver que ainda fazem jornalismo pensando em mostrar esta realidade sem máscaras.

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  2. Os carinhas dos "Jardin$" consomem zilhões de vezes mais que os carinhas dos "Jardins", mesmo assim insistem dizer que a poluição no ambiente urbano é culpa dos "pobres que não têm educação e jogam lixo na rua". Ora, fiscalizem as indústrias que jogam milhões de litros de merda no Tiête diariamente. Ter Kassab como prefeito é foda. Mas, cada povo tem o político que merece.

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