11 de dezembro de 2009

FUTEBIZARRICES - TIME PEQUENO QUE PENSA COMO GIGANTE

O Campeonato Brasileiro de 2009 foi exceção a regra de um sistema de competição que premia o clube mais competente. O campeão deste ano não tem um quadro de sócios tão grande como o do Internacional, a infra-estrutura do São Paulo, um Centro de Treinamentos como o do Cruzeiro ou uma academia moderna como a do Palmeiras. Muito pelo contrário: um clube extremamente endividado, sem um campo descente para treinar e dá regalias ao seu principal jogador. Precisou contratar um antigo ídolo para negociar sua dívida trabalhista e investiu em um treinador tampão que, possivelmente, voltaria à função de auxiliar nos primeiros tropeços.

É chato "chorar" agora e, principalmente, não reconhecer que o futebol apresentado pelo clube carioca foi de campeão. Mas, o que ninguém pensa ainda é que esse estilo de administração, mais comum no futebol em outros tempos, pode ser usado como exemplo. Os clubes citados acima são sempre exemplo a ser seguido e essa situação amadora não pode voltar ao futebol.

Aliás, conhecendo melhor um clube da capital paulista, comecei a perceber que existe dirigentes preocupados com o "jogador ser humano". Um time que investe na formação do jogador como atleta e também como cidadão. Este é o Pão de Açucar Esporte Clube, clube-empresa ligado ao Grupo Pão de Açúcar, de Abílio Diniz. Com apenas cinco anos de atividade no futebol e debutando na Série A2 do Campeonato Paulista, o PAEC, como é mais conhecido, coleciona dois acessos nos últimos três anos como equipe profissional. Mas não é esse o diferencial da equipe.

"É um trabalho muito gratificante para todos nós, que somos um clube recém-formado. Temos um projeto de inclusão social com jovens jogadores, para a formação de cidadãos. Esses garotos recebem toda a atenção até tornarem-se profissionais. Estou contente com os resultados obtidos pelas categorias de base e, principalmente, pelos dois acessos conseguidos em três anos de trabalho", afirmou o presidente do clube, Fernando Enes Solleiro.

Entre 2005 e 2007, o Grupo Pão de Açúcar acertou uma parceria com o Juventus para trocar experiências, comandar um clube de futebol e emprestar jogadores para disputar grandes competições. "A parceria com o Juventus foi para darmos condições aos nossos jogadores disputarem divisões mais elevadas. A experiência foi muito válida, nos serviu como base para entender o funcionamento do mundo do futebol. Acredito que foi um período muito vantajoso para os dois clubes, que criaram um laço forte. É um clube-irmão, oferecemos alguns jogadores para eles e torço para que a equipe volte a disputar a A1 o mais rápido possível", comentou.

O elenco conta atualmente com muitos jogadores que saíram das categorias de base e apenas cinco com idade acima dos 23 anos: o zagueiro Max Sandro, o atacante Sérgio Lobo (ambos desde 2005), o lateral Mineiro, o meio-campista Luiz Fernando e o atacante Leandrão, recém-contratados. Para Solleiro, esses atletas são primordiais para a formação dos jogadores mais novos. "Esse trabalho de integração é muito importante. Por mais que o jovem treine e se dedique no dia-a-dia do futebol, não consegue ter algumas manhas necessárias. Os mais experientes são fundamentais para transmitir sua história de vida. E isso ajuda, inclusive, na formação do caráter desses atletas novos", acrescentou.

Os próprios jogadores concordam com Salleiro. No clube desde 2007, o zagueiro Max Sandro e o atacante Sergio Lobo são as referências para os mais jovens e dividem a responsabilidade de orientá-los. "Todos os meninos nos tratam da melhor forma possível, com muito carinho. Sempre nos perguntam sobre a nossa carreira e procuramos passar nossa experiência para eles. Passei por muitos clubes, mas o PAEC tem uma postura muito profissional. Desde as categorias de base até o elenco profissional, a diretoria nos dá todo o suporte necessário, com palestras e visitas de especialistas. Além disso, a direção procura ter o máximo de critério nas contratações. Eles sempre procuram trazer jogadores que sejam bons dentro e fora de campo", afirmou o zagueiro de 37 anos. Sérgio Lobo, de 33 anos, completa. "Sabemos das nossas responsabilidades e o clube nos dá esse respaldo. O legal é que os jovens também nos passam algumas coisas e essa troca de experiência é benéfica para todos", explicou.

O Pão de Açúcar é conhecido por ter uma infra-estrutura voltada para a formação de jogadores (sim, eles pensam em lucrar também, seria muita inocência achar que não) e criou diversos métodos de motivar e estimular as jovens promessas do futebol.

Um dessas ferramentas é o "Hall de Camisetas", com camisas de jogadores que atuam ou atuaram pela equipe e obtiveram algum destaque no cenário do futebol. O último a ingressar nesse espaço foi o zagueiro Héverton, de 21 anos. Atualmente no Grêmio, ele foi o primeiro atleta formado pelo PAEC a jogar uma partida na Série A do Campeonato Brasileiro. "É uma maneira de valorizar e premiar o atleta. O Hall está no saguão do Centro de Treinamentos, lugar de maior movimento no clube, e o objetivo é imortalizar os acontecimentos e os jogadores formados pelo Pão de Açúcar. É uma forma, porque não, de estimular os mais novos, que poderão ter a oportunidade de ter os seus feitos guardados no time que abriu as portas para eles", explicou Tiago Scuro, diretor de futebol do clube.

No espaço estão ainda camisas de jogadores como Bruno Uvine, zagueiro atualmente na equipe júnior do São Paulo (é o primeiro atleta revelado pelo PAEC a ser convocado para uma equipe de base da Seleção Basileira); do meio-campista Juca, que esteve no acesso à Série A2 neste ano; e do atacante Léo, autor do gol do título do Campeonato Paulista Sub 17, em 2008.

A direção de futebol procura manter contato com os jogadores que foram revelados pela equipe. O mais novo observado é o atacante Rafael Martins, de 19 anos e que atua pela equipe B do Real Zaragoza, da Espanha. Disputando a Terceira Divisão do país, ele marcou quatro gols na vitória por 5 a 0 sobre o CD Cuarte Industrial, no último domingo. "Procuramos manter contato constante. Os jogadores, mesmo já participando do elenco profissional de um clube, continuam em formação e procuramos dar todo o suporte a eles, desde psicólogos até advogados. E um dever do clube formador. É a nossa filosofia", informou o diretor.

Como forma de preparação para 41ª Copa São Paulo de Futebol Júnior, que se iniciará em janeiro de 2010, o clube organiza diversas palestras para motivar e colaborar na formação do jogador. "Os atletas precisam de todas as formas de ajuda para a sua formação. Isso constrói seu caráter e molda sua relação com a sociedade. Até o final do ano, teremos duas palestras por semana com temáticas diferentes e já temos as presenças confirmadas de Hortência, que falará da dedicação ao esporte; José Carlos Brunoro (coordenador de futebol do PAEC), que passará sua vivência no futebol; e Abílio Diniz, que fará uma palestra sobre liderança e competitividade. Já trouxemos também atletas paraolímpicos, que passaram um mensagem de superação, e um treinador de jiu-jitsu, que ensinou-lhes princípios de disciplina", finalizou.

Sobre contratações, o presidente ratificou o que o foi dito por Max Sandro e afirmou que o clube é muito criterioso na escolha dos nomes dos possíveis contratados. Para ele, o jogador não pode ser bom apenas dentro de campo. "Sempre buscamos atletas que se encaixem em nosso perfil e que aceitem a nossa filosofia de trabalho", disse.

E antes que alguém comente algo sobre "dor de cotovelo paulixta", eu queria informar que há um clube na cidade do Rio de Janeiro chamado Sendas Esporte Clube, do mesmo Grupo de Abílio Diniz e presidido pelo mesmo Fernando Enes Sollerio, que faz os mesmo tipos de serviços.

* Texto elaborado a partir de matérias publicadas no Site Oficial da Federação Paulista de Futebol

Gabriel Lopes

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