29 de novembro de 2009

UMUNDUNU - A VIDA QUE É MENOS VIVIDA QUE DEFENDIDA

O poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, morto há 10 anos, adaptado em muitas linguagens, já foi encenado por José Celso Martinez Corrêa, musicado por Chico Buarque e filmado por Zelito Viana

Mais um Severino como tantos. Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba, de cabeça grande, ventre crescido, pernas finas e sangue ralo. Severino vem de onde se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia, de fraqueza e de doença, de morte morrida ou de morte matada.

Segundo o filósofo alemão Martin Heidegger, o homem é um ser que caminha para a morte, a única certeza da existência humana. Não há outra forma de explicar a saga do retirante Severino, senão como a fuga da morte. Obra popular e escrita como uma peça teatral medieval, o poema Morte e Vida Severina – Auto de Natal Pernambucano, de João Cabral de Melo Neto, é uma interessante alegoria da morte que persegue Severino durante sua viagem ao Recife. Como personagem da obra, a morte aparece de várias formas durante o percurso do emigrante.

Severino vive no agreste pernambucano. Sem trabalho e fugindo da seca, resolve ir para o Recife, em busca de vida melhor. Pelo caminho, o personagem encontra outros Severinos em situações que lhe impingem dúvidas e medos. Um defunto, Severino, morto em emboscada por causa de terra. A triste visão do rio Capibaribe seco, que lhe faz perder o rumo. É outra metáfora, desta vez a da sina do retirante que vai para o mar fugindo da seca que corta a passagem. O velório de mais um Severino, numa das paradas. A procura pelo trabalho escasso, esperando que o rio dirija o caminho novamente. A rezadeira profissional vivendo da morte alheia, talvez uma das poucas com uma vida menos severina. Avista um canavial, a terra cultivada, a água que mina abundante. O emigrante pensa na fartura, até descobrir que o que vê é um latifúndio. A crítica ao coronelismo aparecendo de forma lírica. E mais um velório, provavelmente o morto é outro Severino. Continua sua saga em direção ao mar. Já cruzou o Agreste, a Caatinga e a Zona da Mata. Até chegar ao Recife.

Na capital, descansando ao lado de um cemitério, Severino ouve a conversa de dois coveiros. Eles reclamam das gorjetas maiores dadas pelas famílias dos mortos enterrados em outro cemitério.

O retirante descobre que a vida severina também está no Recife, dura, sem facilidades. O que os retirantes seguem é seu próprio enterro. Torcem para que a morte chegue logo; o Severino do poema pensa em se matar. É quando a explosão da vida lhe ensina, através das palavras do Zé Carpina, que não há espetáculo maior que o da vida, mesmo que seja uma vida severina acabada de nascer.

Assim como no romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, o retirante é o tema central da história. Em contrapartida, o poema Morte e Vida Severina é mais otimista. No romance, o emigrante foge da seca e nunca encontra refúgio seguro. Está preso a um ciclo. Em João Cabral de Melo Neto, o homem sofrido do nordeste tenta escapar da morte inutilmente, até descobrir a explosão da vida, mesmo manifestada num corpo recém-nascido raquítico.

Entretanto, o otimismo não direciona a narrativa do poema a um típico final feliz. Ao contrário do que escreveu outro filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, o que não mata o retirante também não o fortalece – a fome e a seca esgotam-no. O poema é direto, visceral. Sua oralidade facilita a interpretação. O naco de esperança exposto apenas no final não é um mero clichê, mas clara valorização da beleza e da crença na vida, através da contradição entre a dureza do sertão e a fragilidade do ser humano que, apesar disso, resiste.

Obra: Morte e Vida Severina – Auto de Natal Pernambucano
Autor: João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

Editora Objetiva

Poesia

2007
- 176 páginas - R$ 29,90 (preço sugerido pela editora)


“Os homens temem a morte como as crianças temem ir no escuro; e como esse medo natural das crianças é aumentado por contos, assim é o outro.” (Francis Bacon)

Rodrigo De Giuli

0 comentários:

Postar um comentário