8 de novembro de 2009

UMUNDUNU - QUEM É ELA?


Nossas conversas limitavam-se a mensagens de celular e troca de palavras online. Nunca vi seu rosto, apenas meia dúzia de fotos refletiam-na na tela do computador. O que eu sabia? Cabelo preto e profundos olhos negros.
Ela era inteligente. Diferente. Apreciava bons livros.
Conversávamos madrugada adentro, e na manhã seguinte, belas palavras pintavam nossos pensamentos através de um celular. Era Nietzsche pra lá, Shakespeare pra cá. Lindo. Passaram-se meses assim.

Sexta-feira

“Vamos sair?” – resolvi convidá-la logo, mesmo que não passássemos da conversa, a experiência seria gratificante. Resolvemos nos encontrarmos quinta-feira, iríamos passear pela Paulista, depois um teatro.

Quarta-feira

Liguei para ela durante a noite e cancelei o encontro. Foi a primeira vez que ouvi sua voz. Não era como imaginava. Esse é um dos prazeres que acompanham o desconhecido. Quando a projeção se torna realidade.

Apesar disso, ela aceitou - novamente - sair comigo.

Sábado

Oito horas da noite. Na televisão a seleção canarinho vai atrás de outra vitória. Ela está sentada ao meu lado. Eu tomo cerveja. Ela pede uma caipirinha. Até agora não estabelecemos nenhuma conversa. Frases soltas e sorrisos. Estamos tímidos com o encontro e a minha projeção se tornou realidade. Não era como eu imaginava, ela era mais bonita. Fiz questão de dizer:
- Você é muito mais bonita do que nas fotos.

O jogo chegou ao fim. Perguntei se queria ir até minha casa, poderíamos assistir a um filme. Admito que arrisquei.
Deito ao seu lado enquanto o filme se desenrola. Ela faz um carinho em minha cabeça. Pouco tempo depois ela diz:
- Você também. – Fiquei com uma cara de interrogação. – É mais bonito que nas fotos.
Foi a deixa para o beijo.

Acordamos cedo, sete horas da manhã. Acompanhei-a até o táxi e a vi ir embora.
Cinco minutos depois, a mensagem no meu celular: “Temos história para contar”.

Logo quando cheguei, sento em minha cama. O cheiro dela ainda estava ali. Continuava me perguntando: quem é ela? Da sua vida, não conhecia nada. Em contra partida, eu também não tinha um passado.

Segunda-feira

Ambos excitados pelo nosso encontro, novamente resolvemos sair juntos o mais rápido possível. Estava rapidamente se tornando uma paixão.

A semana seria longa e arrastada, o que dava prazer era conversar com a maravilhosa desconhecida.

Sábado

Já é noite. Vamos a um restaurante de cozinha japonesa. Dessa vez não estamos sozinhos, fomos acompanhados por um casal amigo.

Atravessamos o local de mãos dadas. Éramos dois cúmplices do desconhecido. Vivíamos o presente.
Eu peço uma cerveja. Ela suco.

A conversa era boa e a comida também. As fatias de peixe milimetricamente dispostas uma ao lado da outra, os pequeninos bolinhos de arroz envoltos por uma fina alga, os “hashis” – aqueles pauzinhos de madeira – manchados de molho shoyu, minha mão acariciando seu joelho e o sorriso estampado no rosto dela, tornavam a noite perfeita.

Talvez a presença de outro casal, juntos há um bom tempo, ao nosso lado, tenha nos assustado um pouco.

Chegamos ao meu carro. O trajeto não é muito longo até o destino final, mas rimos e sorrimos até o fim.

Despeço-me dela, o beijo ainda é intenso, queima tal qual um fósforo que tem a morte prematura. Só não sabíamos se já estava chegando ao final. Seria a última vez em que ouviria sua voz.

Domingo

Fruto de inúmeros textos, livros, músicas, peças de teatro, filmes, pinturas rupestres... O amor e a paixão são discutidos desde o começo de nosso processo evolutivo. A resposta ainda é uma incógnita, temos suposições, impressões e expressões.

Ela não tem um passado. Eu também não.
Incendiados, chegamos ao fim.

Felipe Payão

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