11 de novembro de 2009

UMUNDUNU - O DIA EM QUE SÃO PAULO PAROU (OU QUASE)


Caos. O manto negro cobre toda a cidade de São Paulo. Os motoristas querem chegar ao seu destino final o mais rápido possível. Os semáforos não funcionam. A única forma de luz é propagada pelos faróis dos carros. Vejo apenas sombras de prédios, árvores e pessoas. Ouço o gritante giroflex de alguma viatura.
Próximo ao meu destino, ligo o rádio do meu celular. 90,5 FM. A primeira coisa que escuto: “As autoridades pedem para que todos fiquem em suas casas e não saiam.”
Será que hoje é o dia em que as conspirações se tornarão realidade?
Seria algum atentado terrorista? Algum golpe político? Uma antecipação da invasão alienígena de 2012, a chegada de Nibiru ou alguma maracutaia de Sarney? Devido ao seu histórico, jogo a culpa nele.

São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Rondônia, Alagoas, Acre e Pernambuco. Trechos de quinze estados brasileiros, e Distrito Federal, ficaram sem luz das 22 horas até madrugada adentro. Os estados mais afetados pelo apagão foram Rio de Janeiro e São Paulo. Boa parte do Paraguai também ficou às escuras por quase meia hora.

Já seguro das trevas que assolam as ruas paulistas, sento no sofá de meu apartamento.
O coração está a mil, penso em tomar um calmante. As primeiras palavras que ouvi pelo rádio deixariam qualquer teórico da conspiração excitado. Não sabia de nenhuma outra informação, então, comigo não foi diferente. Com os olhos grudados na janela e o pequenino rádio grudado no ouvido, não sabia para onde olhar. Espero tropas armadas nas ruas ou naves alienígenas no céu? Os dois ao mesmo tempo!? Não sei. Muita calma, febril conspirador! Escutemos os fatos com cautela.

Dilma Pena, secretária de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo, diz na rádio CBN que São Paulo sofre de um problema grave. As linhas de transmissão (servem para transmitir energia eletromagnética, mais informações: google it) são velhas. Sua infra-estrutura é preocupante, sendo assim, podemos ter problemas de falta luz a qualquer momento. Segundo Dilma, as autoridades foram avisadas em 2007. O processo de renovação está em andamento (iniciada este ano), o imbróglio é que o tempo levado para a troca é de três anos.

Já é meia noite. O manto negro ainda cobre a cidade, e a escuridão preenche o interior das casas e apartamentos. A fina e fraca luz da vela que acendi não serve para quase nada. Tento materializar tudo que ouço e o pouco que vejo. Anoto em garranchos num pedaço de papel.
Se os olhos já não podem trabalhar com tanta eficiência, os outros sentidos ficam mais aguçados.
Empoleirado na janela, o mar negro é cortado vez ou outra por viaturas de polícia, caminhões de bombeiro e ambulâncias. A imagem é linda. Depois que os veículos passam a toda velocidade, ficam nos olhos o rastro de luz vermelha pintando em linha reta, horizontal, o denso e obscuro quadro.
Uma, duas, três, quatro viaturas enfileiradas correm na avenida saudando as entidades da noite.

Em uma entrevista ao vivo da rádio CBN, Jorge Samek, o Diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, disse que o cronograma de troca das linhas de transmissão está correndo normalmente, e que se o problema não fosse na usina de Itaipu, ninguém iria perceber. Ainda arrematou: “temos energia de sobra”. Perguntado sobre o que causou o blecaute, Samek respondeu que a provável culpa é do problema climático. Uma “questão atmosférica”.

Uma e meia da manhã. Por relatos saídos do pequenino rádio, e por ver alguns pontos mais claros iluminando o céu, descubro que a cidade está dividida. Alguns pontos isolados já voltaram a ter luz. Mas o primeiro deles é a Avenida Paulista.
A conspiração volta a latejar na minha cabeça. Porque só na Avenida Paulista?
Fácil resposta. O local é antro dos maiores bancos. Os donos do mundo. Os donos de nós. Quanto dinheiro e ações as empresas e bancos estariam perdendo com a nuvem negra deitando sobre cidade? No capitalismo selvagem, tempo é dinheiro.
Passaram-se dez minutos e minha teoria foi por água abaixo (não totalmente...).
A repórter anunciava no rádio que a energia estava oscilando e a Avenida Paulista mergulhou novamente no mar “aluno”.

O ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, quando procurado pela CBN, não quis se manifestar sobre o caso. Mais tarde, por volta da uma hora da manhã, o ministro afirmou que a operação da usina de Itaipu foi retomada, em condições de fornecer os 14 mil megawatts de energia que faltavam para o sistema e só restava saber as condições em que se encontravam as linhas de transmissão. Já o presidente da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos), Wagner Victer, disse à rádio que o problema era ainda maior. Com a energia cortada, o esgoto do Rio de Janeiro seria escoado para os mares. Em São Paulo, o blecaute também deixou inúmeras pessoas presas dentro de trens da CPTM. As pessoas foram atendidas dentro do próprio vagão e nenhuma composição ficou parada entre duas estações. Um sistema de emergência fornece energia até que o trajeto se complete.

Duas horas da manhã. A energia voltou e dessa vez ela não oscila. Desligo o rádio e olho pela última vez o quadro que é pintado através de minha janela.
A noite desvenda uma estranha clareza. Algumas pessoas saem às ruas, olham para o céu, parecem agradecer o bálsamo que cai em seus olhos.

Consigo ouvir um rapaz franzino gritando de celular em punho: “a luz voltou! A luz voltou!”. Devia ser algum “twitteiro” que estava passando pelo primeiro estágio da abstinência.

O papo agora não é o blecaute. É outro, e esse destrói os muros. Será que não é hora de mudarmos nossa fonte arcaica de energia? Mas isso é assunto para outro texto.

Não vi tropas armadas. Não vi naves espaciais. Não tive notícia do Sarney aprontando por aqui (até agora).
Com certeza, algo que não saberemos realmente a razão, aconteceu. Nem que seja um sagaz golpe político para derrubar a frase de Lula - “Não vamos mais ter apagões!” - e balançar um pouco mais sua credibilidade.
Por enquanto, tudo continua como conspiração de nossas mentes sedentas pela verdade. As teorias conspiratórias fizeram jus ao nome. Ou não...

Felipe Payão

2 comentários:

  1. Me perdoem meus amigos,SC não ficou sem luz,sou morador em balneario camboriu e aqui teve luz sim!!!

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  2. Olá Juarez!
    Pode ser que Balneario não ficou sem luz mesmo. Mas de acordo com informações da Folha, Estadão e CBN, trechos de SC ficaram sem luz.
    ( http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u650831.shtml )
    Não foi SC inteira.

    Abraços! Volte sempre.
    Felipe Payão

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