30 de novembro de 2009

UMUNDUNU - CORRENTE ALTERNADA/CORRENTE CONTÍNUA

Dia 27 de novembro. São sete horas e meia. O sono está longe, tento pregar o olho desde as 3 da manhã e a angústia corrói qualquer lapso sonífero. Tática infalível, pego um livro – só não o queimo por causa destes momentos – chamado “Quando Ele Voltar”. Agora sim... Essas palavras têm realmente algum poder mágico. Acredito que dormi por volta das oito horas.

Além alvorada, acordo acelerado, abstêmio. Apago abajur. Abrigo abafado. Alimento: abacaxi ácido. Ameaço ancorar-me. Aniquilo. A ansiedade agrava. Acintosamente agrupo adianto. Abonado. Aliás... Alma alucinada, agenda apertada, afago, agradeço. Aparvalhado, apaixonado, arranco-rabo. Aclamado automóvel acarinha a avenida.

Na metade da Avenida 23 de Maio, o carro pára. Trânsito intenso. Cruzar a cidade de São Paulo nas tardes de sexta-feira é, praticamente, missão impossível. O clima agrava certo mal-estar. São 32 graus. O sol não castiga, mas o mormaço transforma o interior do carro em uma sauna. O percurso de 16,5 km até o estádio Cícero Pompeu de Toledo seria longo.

Tudo parado na Avenida Rebouças. Já estávamos cozendo dentro do carro. O rádio ligado na Kiss FM, trazia inúmeros sucessos da velha guarda rockeira: Jimi Hendrix, Queen e Pink Floyd. Mas quando os primeiros acordes de Hells Bells rasgaram os alto-falantes, fomos ao delírio. Janelas abertas, cabeças para fora. Não éramos os únicos, a maioria dos motoristas aumentou o volume de seus rádios e o show começou ali. A banda AC/DC subiu ao onírico palco às cinco horas da tarde, em plena Rebouças.

Já estamos três horas dentro do carro. Chegamos ao estacionamento do Shopping Butantã, nossa única esperança, até que algum filho da puta lembrou-se do mundo capitalista selvagem em que vivemos. Preço: R$100. Passamos batido, amaldiçoamos o ser que cometeu tal ato, e fomos à busca de um canto para largar o pequeno Palio.

Conseguimos. Rua Roteiro. Alguns metros do estádio. Preço cobrado pelo flanelinha: R$20 mais um cigarro. Dei de bom grado, com sorriso no rosto. A rua era tomada, aos poucos, por pessoas, vans, viaturas, vendedores ambulantes e ambulâncias. A praça em frente ao glorioso estádio estava lotada. Homens novos, velhos, mulheres novas, velhas, lindas. O caminho até o portão número cinco é cheio de obstáculos. Inúmeros fãs andavam em fila indiana para não se perderem. Após apresentar o ingresso, guardado com extremo zelo durante dois meses, e a revista policial, entramos no estádio.

Era um verdadeiro culto. Milhares de pessoas amontoavam-se no gramado, cadeiras e arquibancadas. O número divulgado é de 65 mil, mas os olhos não se enganam. O Morumbi recebia muitos milhares a mais. Seres de todas as crenças, cores, tamanhos e idades. Em minha frente: dois senhores de, provavelmente, 50 anos. A minha direita: duas belíssimas mulheres. A minha esquerda: alguns jovens bem alterados pelo álcool. Atrás: alguns jovens bem alterados pela ganja. Com o estádio mergulhado na escuridão, era possível ver inúmeros chifres vermelhos piscando. O adorno pintava o negro com luzes intermitentes.

21:30. Pontualmente, o espetáculo começa. Explosões, muitas explosões. Um trem invade o palco e os vovôs australianos aparecem. Frenesi. Êxtase. Logo ali na frente estão Angus Young, com seu terno e sua guitarra Gibson SG, Brian Johnson e sua boina, Malcom Young, Cliff Williams e Phil Rudd segurando a cozinha.

Escrevi esse parágrafo inúmeras vezes. Reescrevi. Não é possível externar os sentimentos que o AC/DC causa em seus fãs e como seu show foi magnífico. Só não digo perfeito, pois faltaram alguns clássicos (a turma jovem não liga). Tecnicamente, vou descrever alguns acontecimentos. Durante a música The Jack, Angus Young fez um strip-tease que só chegou ao fim quando mostrou sua cueca preta desenhada com o logo da banda. Whole Lotta Rosie foi acompanhada com uma gigantesca boneca, apenas de lingerie, montada - e “cavalgando” – sobre um trem que ficava no fundo do palco. Em Hells Bells, um enorme sino ficou suspenso e Brian Johnson, no auge dos seus 62 anos, correu mais de 100 metros até o badalo do idiofone e dependurou-se nele até o som começar a vibrar através da lingueta interna. Highway To Hell trouxe o inferno ao estádio. Fogo, chifres e gritos. O espetáculo foi finalizado com For Those About To Rock. Inúmeros tiros de canhão e fogos de artifício fecharam a noite. Brian grita no microfone: “We salute you, São Paulo. We salute you”. Estranho dizer isso, mas eu não era o único com os olhos marejados.

Saímos do estádio como crianças em uma manhã natalina. Era fácil descrever como nos sentíamos: todos os adjetivos positivos, juntos. Foram 13 anos de espera.
Voltamos em 45 minutos para nossas casas. Contrastante com o tempo de ida.

Os carros passavam ao nosso lado, as pessoas, tudo parecia lindo e ao mesmo tempo sem sal. Dificilmente viveríamos outra noite igual a essa. AC/DC nos deixou em pedaços. Ficamos atordoados.

“Sound of the drums beating in my heart. The thunder of guns tore me apart. You've been… Thunderstruck.”


Felipe Payão

Um comentário:

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