23 de novembro de 2009

UMUNDUNU - AS TORCIDAS ORGANIZADAS


O futebol passou a unir cada vez mais as pessoas, há tempos se formam pequenos grupos de torcedores para assistir ao time do coração, e isso foi ficando cada vez mais constante, até que surgiu a necessidade de se organizar esses torcedores que a cada dia crescia mais. E assim iam surgindo as torcidas organizadas.

Cresceram tanto que se tornaram um problema para a sociedade e autoridades, pois se antes havia dois torcedores discutindo e até brigando, hoje existem cem ou mais se matando. Mas quando o assunto é violência, o Brasil não é o único, com a bola nós pés os brasileiros são indiscutivelmente os melhores, mas quando se trata de torcer, nem se compara à paixão que os ingleses, italianos e os argentinos têm pelo futebol. Os Hooligans, Tifosi e as Barra Bravas são ao mesmo tempo os mais apaixonados e os mais violentos torcedores do mundo.

As Barra Bravas argentinas são conhecidas por incentivarem seus times com cantos intermináveis, localizam-se nos setores mais baratos da arena, sempre de pé. Representam a alma e a garra dos clubes, apóiam incondicionalmente a equipe, cantam até quando o time está perdendo.
Contudo, são responsáveis por espetáculos de violência dentro e fora dos estádios, muitas vezes provocados pelos próprios jogadores, que em muitos casos iniciam a discussão dentro do gramado.

Os italianos são os mais emotivos, talvez os mais apaixonados. Tratam o futebol, ou o cálcio como chamam esse esporte por lá, de uma forma diferente, muito provavelmente por associarem a si a invenção do mesmo. “Estou vendo o dia em que o Papa vai falar sobre um determinado clássico” disse o jornalista Flávio Prado referindo-se ao tamanho da paixão italiana pelo futebol. Entre esses torcedores os níveis de violência são bastante baixos, mesmo assim sempre existe algum confronto antes de alguns jogos.

Já os ingleses, que foram os que melhor assimilaram esse esporte, tratam o futebol quase que religiosamente. São os mais recatados talvez por uma questão cultural. Os Hooligans misturam a paixão clubística com a vontade de fazer vandalismo, na maioria das vezes alcoolizados. A essa torcida é atribuída o principal caso de violência no futebol já existente, a tragédia de Heysel, que foi um catastrófico episódio ocorrido em 29 de Maio de 1985, pouco antes da final da UEFA Champions League, entre Juventus da Itália e Liverpool da Inglaterra, em Bruxelas na Bélgica. 39 torcedores foram mortos por esmagamento e pela queda de uma parede (32 italianos e sete belgas). Mais 350 ficaram feridos após uma grande confusão causada por torcedores ingleses. Como penitência, todos os clubes ingleses ficaram cinco anos sem disputar competições européias e o Liverpool seis. A Juventus ficou com o titulo após pênalti convertido por Michel Platini, mas a final ficou ofuscada pela tragédia.

Os Hooligans surgiram na Inglaterra da década de 60, mas ficaram mais evidentes na década de 70. Durante alguns jogos a violência passou a ser noticiada e televisionada. Hoje a violência é punida com muito mais rigor e muitos torcedores já foram presos, alguns proibidos de frequentar as torcidas e até mesmo de entrarem nos estádios.

No Brasil, esses grupos de torcedores foram denominados de organizadas, por agirem sempre em conjunto, a favor não só de seu time, mas de si próprios. Começaram a surgir nas décadas de 60,70 e em 80 tiveram seu ápice. Hoje se pode afirmar que cada time de futebol do Brasil seja ele profissional ou não, tenha sua torcida organizada. Mas o calcanhar de Aquiles dessa massa torcedora é a violência, talvez por amarem tanto seu time, o torcedor se torna cego e nada enxerga na sua frente senão o distintivo do clube. É aí que surgem as divergências, as discussões e as brigas.

Um dos principais casos já registrados no país aconteceu no dia 20 de agosto de 1995, o Pacaembu, um dos estádios de futebol mais tradicionais de São Paulo, foi o campo de batalha entre torcedores do Palmeiras e São Paulo, durante jogo final da extinta Supercopa de Futebol Júnior. O saldo da batalha foram 101 feridos e um morto. Segundo Herbert César Ferreira, ex-presidente da maior torcida organizada do país, a Gaviões da Fiel, a violência é um problema social e não exclusivo do futebol. “O cidadão ganha R$ 380 por mês, sai pra trabalhar e pega ônibus lotado, trabalha 10, 12 horas, aguenta a má educação do patrão, nas folgas não tem acesso à diversão ou um descanso sadio, junta tudo isso e o cara vê nos jogos a oportunidade de tirar toda essa carga negativa, e tudo isso gera violência”, afirma.

O problema da violência existe e faz com que os torcedores se afastem dos estádios e que algumas pessoas tenham uma visão distorcida das torcidas organizadas, como o jornalista Flávio Prado, da TV Gazeta, que tem uma opinião contrária à existência delas: “isso (torcida organizada) não tem nada haver com o futebol, isso é caso de policia”, diz. Mas torcida organizada não é apenas isso, infelizmente a mídia transformou-as nisso, claro que ela tem sua parcela de culpa, mas não é esse monstro que o jornal e a TV impõem.

Herbert César ainda diz que a imprensa só vê o lado ruim, que os jornais sensacionalistas só pensam no ibope, apontam o erro, mas nunca a solução. E que as torcidas estão agindo, depois da pressão imposta pelo Ministério Público, estão eliminando membros violentos de dentro delas e buscando a solução do problema.

Os projetos sociais são um grande passo para a solução do problema, poucas pessoas sabem da existência de tais projetos, nos Gaviões da Fiel existem cerca de oito projetos na ativa, voltados aos moradores da Favela do Gato, que fica ao lado da quadra da torcida no bairro do Bom Retiro. Dentre esses projetos estão: aula de corte e costura, adereço, Muay Thai, distribuição de cestas básicas e de brinquedos para as crianças. Herbert lembra que uma vez chegou a chamar a imprensa para cobrir um desses eventos, mas ninguém apareceu.

Essa difícil relação com a imprensa faz com que se tenha uma visão distorcida do que se passa dentro de uma torcida organizada, não se sabe qual o interesse de acabar com essas torcidas, que apesar da violência, fazem um belo espetáculo dentro dos estádios e tornam o futebol mais belo a cada dia. Do lado de fora do estádio a história é outra, cabe as autoridades cumprir o seu papel e a mídia deixar de ser tão parcial e mostrar esse outro lado dos já tão sofridos torcedores, senão eles terão o mesmo fim dos Hooligans, a extinção.

Renato Souza

3 comentários:

  1. Concordo em muito, mas aulas de Muay Thai apenas ensinam violência, não estão excluindo os violentos, estão ensinando os pacatos a se defender. A torcida organizada surgiu como uma maneira de uniformizar os cantos de apoio ao time e acabou virando uma gangue. Acredito que a solução está em não isolá-los e sim educá-los, para poderem voltar a dividir espaço com o "povão". Enquanto continuar essa campanha de demonização do torcedor organizado, mais revolta existirá e a violência continuará crescendo.

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  2. Caro Guilherme,
    Concordo com muito do que você escreveu, especialmente quando demonstra consciência ao dizer "acredito que a solução está em não isolá-los e sim educá-los". Contudo, ao contrário da forma consciente que você manifestou nesta frase, foi deselegante ao afirmar que "aulas de Muay Thai apenas ensinam violência". Não, isso não é verdade. Nas aulas ministradas por mestres conceituados - não vou discutir a qualidade das aulas dadas em torcidas organizadas, não as conheço - de qualquer arte marcial, sejam elas jiu-jitsu, judô, caratê, qualquer uma!, o principal conceito ensinado é o respeito ao oponente e ao mestre, respeito à arte como um caminho para encontrar paz espiritual - para quem acredita nisto - e força da mente através do conhecimento de seu físico e de sua capacidade de disciplina, sempre rígida, num tatame. Nunca conheci um mestre que tratou de forma vulgar ou violenta a arte marcial que ele ensina. Ao contrário.
    Não brigue, lute!
    Abraços e continue prestigiando o 7CISMO!
    Rodrigo De Giuli
    www.7cismo.com

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  3. Concordo contigo no que diz respeito às artes marciais, porém o Muay Thai, e isso todos sabem, é a luta favorita dos brigões das organizadas. Não acho que ensinar essa luta para eles ajude, mas vale o esforço.

    Abs!!!

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