18 de novembro de 2009

REALPOLITIK - CORRUPÇÃO, PROSPERIDADE E SOCIEDADE

A República da Irlanda, que viveu o período de maior prosperidade de sua história nos últimos sete anos, foi um dos países que mais sofreram com a crise mundial. Essa grande ilha que esbanjava empregos e que paga um dos maiores salários mínimos na Europa é, em grande parte, dependente do bom desempenho das inúmeras empresas americanas e inglesas instaladas no país.

Esta crise, que os irlandeses estão atravessando no momento, não é nada comparado com o passado marcado por guerras civis e fome, levando milhares de irlandeses migrarem para todos os cantos do mundo, marcando a paisagem antiga, do interior da ilha, com ruínas de casas abandonadas, hoje transformadas em cartões postais.

Junto com o passado afundado em pobreza, também está a marca da corrupção descarada, protagonizada por políticos que nunca pensaram que um dia pagariam pelos roubos que cometeram enquanto estiveram no governo. Junto com a prosperidade financeira nos anos recentes, vieram as cassações dos corruptos de hoje e do passado.

Os irlandeses tem algumas semelhanças com os brasileiros em alguns aspectos. Por exemplo, igual a brasileiros, é fácil encontrar irlandeses pelo mundo afora. Eles adoram a sua cultura, mas não gostam de seus pais e, quando possível, tentam se mudar para o exterior. Muitos brasileiros procuram viver fora do Brasil em busca de oportunidade financeira. Já os irlandeses, fogem do clima frio, úmido e nublado predominante quase o ano inteiro, e vão atrás dos países abençoados pelo calor do sol.
E uma das características de maior destaque entre esse povo, de sangue celta, está o bom humor e a simpatia. (nota do blog: destaque também para a cerveja).
Todas essas características não fazem com que a população irlandesa ignore os problemas políticos do país. Quase todos os finais de semana acontecem protestos em Dublin, capital da Irlanda.

Semana passada, um grande protesto organizado pelo "Frontline Services Alliance Members" (Membros da Aliança dos Serviços da Linha de Frente, tradução literal), tomou as principais ruas do centro da capital. Linha de frente é no nome dado aos primeiros pelotões das forcas armadas quando vão para uma guerra. "Frontline Services" são os serviços de emergência de 24h na Irlanda. Ou seja, bombeiros, policiais, militares, médicos, enfermeiras, entre outros.

Esses funcionários públicos não podem fazer greve de acordo com a constituição irlandesa. Como forma alternativa para protestar contra a proposta do governo, que quer reduzir os salários desses servidores que "cuidam" do país, eles deixaram seus postos na última quinta-feira, assinando a falta como se estivessem doentes, para organizar uma grande mobilização contra a proposta que tramita no governo. Esse tipo de protesto, organizado por trabalhadores que supostamente não poderiam estar em greve, é chamado como O Dia Azul.

Um país marcado pela miséria e que se tornou um dos principais destinos europeus daqueles que procuram emprego fácil com bons salários, ainda encontra grandes problemas políticos a serem enfrentados para apagar a mancha da corrupção, e isso está sendo feito aos poucos.

Enquanto isso, no maior país da América do Sul, que é representado por aquele que foi considerado a 33º figura mais poderosa do mundo, segundo o ranking da Forbes, está com um desempenho econômico esperado por quase ninguém, conseguindo até mesmo crescer 5% durante a crise mundial. Crise que deixou quase todas as grandes potências econômicas do globo de joelho. No entanto, a população continua muito insatisfeita com a corrupção política, apesar das inúmeras cassações e investigações que fizeram com que a Polícia Federal ganhasse destaque pelo seu desempenho e preparo. E mesmo a população inconformada com a grandeza da corrupção, ainda falta a conscientização de que organizar e participar de manifestações políticas, muitas vezes pode ser até mais importante do que votar.

Talvez o tímido inconformismo, que não é em grande parte expressada nas ruas, mas muito discutida e ironizada nos lares e bares, seja reflexo do trauma ainda guardado das ditaduras que marcaram a história do Brasil.
Talvez...

Texto e fotos por Marcio Faustino

Um comentário:

  1. Márcio,
    Tudo bem, meu velho?
    Olha, concordo com seu texto em parte. Acredito que se o brasileiro fosse menos conformado (ou o timidamente inconformado, segundo suas próprias palavras), o país seria melhor sim. Talvez o último grande exemplo de mobilização nacional tenha sido o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, quando milhões de estudantes espalhados pelo Brasil foram às ruas responder ao chamado de Collor (num pronunciamento às vésperas da Câmara dos Deputados votar sua cassação, o ex-caçador de marajás das Alagoas pediu que todos saíssem vestidos de verde-e-amarelo para apoiá-lo), vestidos de preto e com as caras pintadas, cujo efeito batizou os protestos (Movimento dos caras-pintadas), gritaram pelo impeachment. A Câmara e o Senado votaram pela cassação e Collor perdeu seus direitos políticos mesmo tendo renunciado à presidência.
    Não concordo quando você exemplifica que o regime militar tenha criado um ranço entre os civis, causando temor em protestar. Acredito muito mais numa mudança de paradigma de movimentos sociais, cujos interesses foram "individualizados"; o estudante, o sindicalista, o sem-teto, o sem-terra, todos os simpatizantes de qualquer movimento, têm se preocupado mais nas próprias reinvindicações, não há mais lugar para o coletivo - no sentido amplo, o das lutas sociais. O indivíduo, no pior contexto, está acima dos interesses coletivos. Um exemplo é a Argentina, um país pobre como o nosso e que teve uma ditadura militar tão ou mais violenta e repressora quanto a brasileira. Lá há panelaço, derrubaram 4 ministros da economia e 3 presidentes num curto período; numa medida popularesca, os atuais mandatários fecharam e cooptaram parte da mídia para controlar os ânimos dos movimentos sociais, que ameaçavam solapá-los do poder. Por que na Argentina as pessoas comuns munem-se de panelas e vão às ruas fazer barulho e derrubar presidentes, e aqui no Brasil presidentes compraram reeleição, ou mentem dizendo que não sabiam do mensalão, e ninguém fez nada? Serão apenas as diferenças culturais entre estes dois países "irmão"? É um fator importante para se pensar.
    No mais, veja só como na Europa (você mesmo contou sobre um caso específico, o da Irlanda) os protestos surtem efeito, muitas vezes imediato. Lá, ao contrário daqui, não há conformismo, ou tímido inconformismo, há MUITO inconformismo, há luta, ninguém engole medidas governamentais sem uma boa passeata, vitrines quebradas e uma boa surra da polícia!
    Abraços e aproveite bem um pint de Guinness por mim!!!
    Slaint!
    Rodrigo De Giuli

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