26 de novembro de 2009

REALPOLITIK - AOS QUE PREFEREM AS SOMBRAS


Os olhos que tudo vêem. Os ouvidos que tudo ouvem. O onipresente, onisciente e onipotente Big Brother, o grande irmão (esqueça aquela porcaria de reality show holandês, que virou mania mundial, Brasil infelizmente incluído via Rede Globo). Pobre Winston...

O britânico Eric Arthur Blair (1903-1950), cujo pseudônimo George Orwell se fez conhecido romancista, finalizou, em 1948, seu mais importante trabalho: o livro 1984 (Os dígitos 4 e 8 invertidos do ano que ele concluiu o romance).
Blair – ou Orwell, como o escritor ficou imortalizado – vivia num ambiente pós-guerra, em que o nazi-fascismo de Adolf Hitler e Benito Mussolini levaram à fome, à destruição e ao caos.

O fantasma do comunismo crescia, imediatamente após a divisão do espólio de guerra entre os capitalistas EUA e Inglaterra e os “socialistas” soviéticos, gerando uma tensão e, consequentemente, levando-os à Guerra Fria.

Este mundo apocalíptico, tristemente apodado de “orwelliano”, influenciou decisivamente na autoria de seus livros. Mesmo nos acrônimos e neologismos criados por Orwell, tem-se a impressão de realismo e similaridade incríveis.

O pessimismo do autor levou-o a pensar num mundo controlado por ditadores e com o povo à mercê de suas vontades. Não parecia longe da verdade, se tivermos como exemplos a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ou a atual Coréia do Norte.

O escritor deixou esta impressão muito evidente na excelente parábola A revolução dos bichos (1944), uma alegoria anticomunista. São Estados totalitários, controladores e antidemocráticos, na visão do autor.

Em todos os países com regime ditatorial a imprensa foi – ou ainda é – tolhida, não há liberdade de expressão e manifestação do pensamento. No caso atual, e até mesmo referindo-se àquela época, não há outra forma de se entender a sociedade, especialmente a partir dos Meios de Comunicação de Massas (MCM): manipulados conforme os interesses do poder vigente.

Entretanto, não são apenas os países de regime totalitário que restringem o trabalho da mídia. Tal impedimento ocorre, de forma sutil e velada, também na democracia. Uma suposta liberdade de imprensa é, na maioria dos casos, apenas discurso. Controlada por – e à serviço de – governos ou empresas, os veículos de comunicação reverberam os interesses mais íntimos destes setores, embora não abertamente.

Esta imprensa, pouco retratada no livro, mas de grande importância na ficção orwelliana, é que, através da mudança de sua própria história pelo Grande Irmão, muda também os destinos políticos – e consequentemente sociais e econômicos – da Inglaterra de 1984.

Tal qual no “Mito da Caverna” de Platão, a mídia cria suas “verdades” que refletem e ecoam em nossas casas. Ver sombras e tomá-las como verdadeiras. A busca de uma padronização, moldando e agradando o público com produtos medíocres, sem valor crítico.

Novelas, desenhos animados, noticiários, filmes, tudo é produzido para distribuir o que pregava o positivismo. É a senha para “a Ordem e o Progresso”.
Não é o caso do livro de Orwell: ao contrário, ele denuncia, através de sua obra, o controle exercido por um Estado totalitário.

Talvez seja uma certa influência de pensadores da Escola de Frankfurt que, na contramão da padronização imposta pelos funcionalistas (ou positivistas), induzem ao pensamento crítico, trazem à tona contradições que geram discussões quanto à radicalização da sociedade da época.

Faz parte das atribuições dos MCM associados a este status quo criar as aparências que serão inevitavelmente absorvidos por uma “turba” acrítica e suscetível à manipulação (sem referência exlícita aos “alunos” do campus ABC da Uniban), com o mínimo de esforço possível e o máximo de abrangência necessária para exercer tal domínio.

A imprensa, mesmo na democracia, não é livre. Pois é exatamente este mundo democrático que alcunhou a imprensa de “O Quarto Poder”. A mudança, neste caso, não seria necessariamente da história.

E o que sabemos sobre nossa história? Quem a estudou e quem a disseminou? Não foi a mesma elite que agora tenta nos controlar com seus produtos?

Falar de Fidel Castro e a propaganda político-social emanada pelo diário Granma é simples e que não tem na associação entre o ex-presidente norte-americano George W. Bush – através de seu vice-presidente Dick Cheney – com a Halliburton, “segundo a Fox News”, uma facilidade tão aparente.

Adolf Hitler, Benito Mussolini, Francisco Franco, Pol Pot, Joseph Stálin, Mao Tse-tung, Nicolae Ceausescu, Augusto Pinochet ou François “Papa Doc” Duvalier, todos ditadores que utilizaram-se da mídia para abafar opositores e propagar seus regimes.

Por outro lado, líderes “democráticos” como Silvio Berlusconi (com seu poderio midiático, além do time de futebol AC Milan), Bill Clinton (e sua ligação embrionária com a rede CNN) ou mesmo Margareth Thatcher (que sabia como ninguém fazer-se valer da mídia num momento delicado da história inglesa, durante a grave crise do final da deçada de 1970) utilizam-se dos MCM para “traduzir” ações e reações governamentais que, aos olhos do público comum, não seriam entendidas – e, com isso, não lhes renderiam votos.

Todos estes souberam trocar com o público a mensagem que lhes deram a força política e a liderança necessária para governar. A similaridade deles remete ao Leviatã (o bíblico ou o de Thomas Hobbes, tanto faz), um monstro capaz de punir os egoístas que não cumprem o contrato social.

Aos que fogem da caverna, punição e incredulidade. Portanto, mantenha-se preso, olhando as sombras refletidas no fundo dela. Os grilhões, no final das contas, não incomodam tanto. Afinal, a existência de um outro mundo é uma abstração difícil de acreditar aos que preferem as sombras.

Se é assim, não perca a próxima edição do imbecilizante Big Brother Brasil. Esqueça que é escravo da vênus platinada e siga a grande falsidade em horário nobre, com Pedro Bial e suas poesias dignas de uma Reader’s Digest.

Ou... Bem, ou desligue a TV e vá ler 1984. É mais saudável.

Rodrigo De Giuli

2 comentários:

  1. Caramba, gostei do texto. Só senti falta de uma informação - ou seria eu que não teria prestado mais atenção? -: Qual a nacionalidade de George Orwell?
    Deve ser só besteira minha, mas acho que seria bom colocar essa pequena e discreta informação, não?
    Sei lá. Isso não atrapalha a qualidade do texto. Tá muito bom mesmo.
    E o livro é incrível!

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  2. Soraya,
    Obrigado pela dica, falha minha, imperdoável!!!
    Eric Arthur Blair, ou George Orwell, para os fãs, nasceu em 25 de junho de 1903, na cidade de Motihari, na Índia, época em que o país asiático era uma colônia britânica. O escritor britânico morreu em Londres, no dia 21 de janeiro de 1950, vítima de tuberculose.
    Um beijo! E continue corrigindo nossas - minhas! - falhas!
    Rodrigo De Giuli
    www.7cismo.com

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