30 de outubro de 2009

UMUNDUNU - O LENDÁRIO MUHAMMAD ALI E A NOBRE ARTE: ETERNAMENTE INDISSOCIÁVEIS

Trinta de outubro de 1974, Kinshasa, capital do antigo Zaire. Há exatos 35 anos, o Estádio Nacional estava lotado. Em uníssono, o público gritava "Ali, boma’ye!" (Ali, mate-o). O norte-americano Muhammad Ali-haj, então com 32 anos, era adorado pelo povo africano, que enxergava nele o arquétipo do negro vencedor. Carismático, sedutor, inteligente, falante, dono de opiniões fortes, Ali era a “imagem” que políticos, líderes religiosos e presidentes de associações de negros (a NAACP) nos EUA procuravam para difundir o orgulho black power – a expressão afro-descendente era desconhecida pelos defensores do politicamente correto da época.

Ali fez pouco de seu adversário, o também norte-americano “Big” George Foreman. Na época com 26 anos, Foreman já o havia vencido por pontos, em 1972, numa luta de exibição, no Madison Square Garden, em Nova York. Ali tinha problemas com o governo norte-americano, que ainda não o perdoara pela deserção do exército, na Guerra do Vietnã (1964-1976), quando o pugilista converteu-se ao islamismo. O presidente norte-americano Richard Nixon, numa entrevista à revista Times de agosto de 1974 (reproduzida pela revista Realidade, em setembro de 1974), pouco antes do escândalo de Watergate, disse: "Ali não representa os ideais do povo americano e do esporte". Nixon renunciaria para evitar o impeachement e Ali se sagraria campeão unificado dos pesos pesados.

Voltando ao Zaire (atual República Democrática do Congo), naquela madrugada de sábado (para que a luta pudesse passar em horário nobre nos EUA, ela foi disputada às 4 da manhã!), 65 mil pessoas entoavam gritos de guerra tutsis e de apoio a Ali. Foram necessários oito assaltos para que ele vencesse a luta – conhecida como "Rumble in the jungle" –, por nocaute. Reza a lenda que mais de 600 pessoas morreram em decorrência da péssima organização do combate e pelas mãos do ditador Mobutu Joseph Désiré (1960-97).

George Foreman, sempre muito reservado, pouco falante, mais técnico e bem mais jovem, contundiu-se dias antes do embate. Com o adiamento da luta, Foreman teria perdido a concentração, não suportou a pressão, sucumbiu ao calor da capital congolesa e pelo "Fly like a butterfly, sting like a bee" de Ali. Sempre folclórico e dançante no ringue, o bailarino não parava: movia-se como um peso mosca, batia como um pesado no auge da forma física.

Encurralado nas cordas em vários assaltos, Ali cochichava para Foreman: “é só isso que você consegue, George?”, “você bate feito uma menininha de 4 anos”, ou “você é um fracote, George”. Há 7 anos, numa entrevista para o programa Bola da Vez, do canal à cabo ESPN Brasil, Big George contou a história da luta em detalhes. Se disse arrogante e desdenhou de Ali, mesmo desconcentrado com a contusão.

O certo é que, na época, o pouco político e nada carismático Foreman não conseguiu angariar simpatia da torcida local e foi incansavelmente incomodado em sua estadia, com ataques no ginásio de treinos, buzinaço na frente do hotel e perseguição de jornalistas. Enquanto isso, Ali, simpático, andava nas ruas da cidade, cumprimentava transeuntes enquanto se exercitava, beijava crianças, enfim, parecia político em busca de votos. Entraria para a história.

A história do combate foi retratada no magnífico livro-reportagem “A Luta” (The Fight, EUA, 1975, Penguin Books), do jornalista norte-americano Norman Mailer, e no excelente documentário “Quando Éramos Reis” (When We Were Kings, EUA, 1996), de Leon Gatz.

Cassius Marcelus Clay, nasceu em 17 de janeiro de 1942, em Louisville, Kentuky. Em 1964, após converter-se ao islamismo, mudou seu nome para Muhammad Ali-haj. Sua primeira luta com o novo nome foi em Las Vegas, Nevada, no mesmo ano, contra Sonny Liston [na foto acima, tirada do livro “GOAT”, organizado pelo fotógrafo alemão Benedikt Taschen (GOAT – A Tribute to Muhammad Ali, Alemanha, 2004, Taschen Books)]. Venceu por nocaute, no oitavo assalto. Ao abandonar seu nome de batismo, de origem escrava, e recusando-se a servir aos EUA no Vietnã, Ali teve seu título cassado meses depois.

Seu maior adversário, sem dúvidas, foi "Smoking" Joe Frazier. Foram 3 lutas, duas vencidas pelo bailarino e uma por Frazier. Ali estreou no circuito profissional contra o próprio “Smoking Joe”, vencendo por nocaute no sétimo assalto. Depois perdeu na que seria a primeira das chamadas "Luta do Século", em 8 de março de 1971, no Madison Square Garden, em Nova York.

Adepto da "luta psicológica", Ali provocou Frazier durante as semanas que antecederam a luta. “Smoking Joe” era muito mais forte, apesar da técnica menos apurada. Contudo, seus jabs curtos cansavam o bailarino. Ali provocava, mesmo sabendo que perdia por pontos. Dois diretos seguidos no décimo-quinto assalto minaram as últimas esperanças dele virar o jogo. Caiu, quase desfalecido. 
 Ainda no ringue, muito zonzo, Ali cumprimentou Frazier, dizendo "você foi brilhante, mas espere só a próxima vez, vou acabar com você como um trem esmaga uma mosca". Frazier riu de forma irônica, respondendo que esperaria a ocasião ansiosamente.

Lutariam ainda outras duas vezes, mas sem o mesmo brilho. A segunda valeu por um novo ranqueamento da Associação Mundial de Boxe (AMB) e da Organização Mundial de Boxe (OMB), espécies de confederações independentes da modalidade. O terceiro combate foi disputado nas Filipinas, chamado de "Thrilla in Manilla", e desta vez valeu o título dos pesos pesados para o bailarino.

Ali aposentou-se em 1981, sem lutar, rico e no auge da fama. Anos após sua aposentadoria, em exames de rotina, descobriu o mal de Parkinson. Debilitado, viaja pelo mundo, como embaixador da UNICEF pelos EUA. Participou da cerimônia de abertura dos jogos olímpicos de Atlanta, em 1996, de forma emocionante, ovacionado pelo público, majoritariamente sulista, como ele. Redimiu-se da atitude de jogar sua medalha de ouro conquistada nos jogos de Roma, em 1964, no rio Mississipi, na mesma época em que seu título fora cassado. Ele era o rei, o Pelé do boxe. Ou melhor, o Pelé é que é o Muhammad Ali do futebol.

A nobre arte, no entanto, não se resume à “Golden Age of Boxing”, a era de ouro do boxe, período entre o final da década de 1950 e o início da de 1980, em que pugilistas eram lendas. Outros gladiadores modernos das luvas de 12 onças escreveram páginas da história deste esporte, talvez o mais equilibrado e justo que existe.

Heróis da estirpe de Acelino “Popó” Freitas, Adílson "Maguila" Rodrigues, Andrew Golota, Barry Lindon, Bennie Leonard, Carlos Monzón, Carmen Basilio, Chris Benner, Chuck Wepner, Éder “Kid” Jofre, Evander “The Real Deal” Holyfield, Ezzard Charles, Félix Savón, Félix Trinidad, Florindo Pérez, Floyd Mayweather Jr., Floyd Patterson, Gene Fulmer, Gene "TNT" Tunney, “Big” George "The Reverend" Foreman, Hector "Macho" Camacho, Henry Armstrong, Jack Dempsey, Jack Johnson, Jake "The Bull" LaMotta (retratado no filme “Touro Indomável”, de 1980, dirigido por Martin Scorcese, com Robert de Niro no papel de LaMotta), James J. Braddock (retratado no filme “A Luta pela Esperança”, de 2005, dirigido por Ron Howard, com Russel Crowe no papel de Braddock), James J. Corbett, Jersey Joe Walcott, Jess Willard, Jim Jeffries, "Smoking" Joe Frazier, Joe "Black Bomber" Louis Barrow, Joe "Mad" Medél, Júlio César Chávez, Ken Norton, Larry “The Easton Assassin” Holmes, Lazlo Park, Lennox Lewis, Leon Spinks, Luis Ángel Firpo, Manny Pacquiao, "Marvelous" Marvin Hagler, Max Baer, Max Schmelling, Meldrick Taylor, Mike "The Iron Man" Tyson, Mushy Callahan, Oscar Bonavena, Oscar de la Hoya, Pernell Whitaker, Primo Carnera, "Sugar" Ray Leonard, "Sugar" Ray Robinson, Riddick Bowie, Roberto "Manos de Piedra" Durán, Rocky Graziano, "Rocky" Rock Marciano, Roy Jones Jr., Rubin “The Hurricane” Carter (retratado no filme “Hurricane, o Furacão”, de 1999, dirigido por Norman Jewison, com Denzel Washington no papel de Carter), Servílio de Oliveira, Sonny Liston, Teófilo "D'Oro" Stevenson, Terry Norris, Thomas “Hitman” Hearns, Tommy Far, Tommy Loughran, Tony DeMarco, Tony Zale…


Crédito fotos: Flip Schulke


Rodrigo De Giuli

3 comentários:

  1. Carlos Roberto, 62 anos, BH/MG4 de novembro de 2009 15:36

    Vi Ali lutar em 1975 pela tv. o cara foi o Pelé do boxe mesmo. Para quem não viu Ali lutar, procure as lutas no You Tube ou escreva para a ESPN para pedir a reprise das lutas no Friday Night Fights, que eles sempre passam.
    Legal ver um blog de jornalismo com assuntos tão diferentes e conflitntes assim.
    Abrsss

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  2. Caro Carlos Roberto,
    Obrigado pela leitura do blog e pela participação! Ficamos felizes quando há comentários, elogiosos ou críticos, ofensivos ou leves...
    Eu vi grande parte das lutas que me fez amar o boxe exatamente neste programa da ESPN! Assistia toda sexta-feira, nunca perdi um só episódio. Antes com o Werneck e o Félix, depois com Servílio de Oliveira e agora com o Ohata, da Folha. Mesmo com a moda do MMA - que, assumo, também sou fã! - o boxe sobreviverá e com um pouco de sorte novos campeões surgirão.
    Que o espírito da Golden Age of World Boxing continue assombrando os covardes!
    Um abraço,
    Rodrigo De Giuli

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  3. Caro Rodrigo, vi o documentário When We Were Kings, me interessei pela temática (sou admirador e praticante do boxe) e encontrei o seu texto. Meus cumprimentos pelo artigo, aprendi bastante com ele.

    Queria, contudo, fazer uma ressalva ao final do seu texto, em que você coloca, no rol de heróis do boxe, nomes como Popó e Maguila. Para falarmos apenas dos brasileiros na sua lista, de fato não posso concordar em se colocar Popó e, muitíssimo menos, Maguila, ao lado de Eder Jofre. Já houve quem dissesse - e eu concordo - que Maguila está para Jofre como um motorista de taxi está para Ayrton Senna. Maguila foi muito mais um produto da então TV Bandeirantes e de Luciano do Valle, do que qualquer outra coisa. Tanto que na primeira luta de verdade que teve, contra Holyfield, foi facilmente batido.

    Já Popó, pelo que me contaram alguns profissionais na área, teria lançado mão sempre do artifício de se desidratar antes da pesagem para as lutas - ou seja, quase sempre lutou em categorias mais leves do que a que ele realmente deveria lutar. E aí, lutando com pugilistas mais leves, Popó tirava daí sua vantagem. Tanto que foi subir de categoria (na verdade, a categoria em que ele sempre deveria ter lutado) para tombar em combate.

    Saudações,
    Soria

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