21 de outubro de 2009

REALPOLITIK - A MORTE CAI FRIA NA MEGALÓPOLE


Sexta-feira em São Paulo. As ruas cheias e o trânsito caótico não escondem, de quem passa pela região da 25 de Março, o cadáver insepulto de um homem. Aparentando 60 anos de idade, o morto é vigiado por dois policiais militares. Está coberto com jornais e as pequenas pedras colocadas para segurar as folhas não impedem que o vento descubra o rosto dele em alguns momentos. Era um homem franzino, negro, mal vestido e, no instante derradeiro, estava descalço. Ao lado do corpo, uma sacola de plástico de supermercado e um cobertor fino, daqueles doados por ongs.

O rabecão levou 11 horas para retirá-lo da rua - era meio-dia quando o utilitário do Instituto Médico Legal (IML) estacionou no Parque Dom Pedro, esquina com a Rua Dom Pedro II, onde o cadáver jazia. O cheiro era insuportável. Acredita-se que ele "passou desta para uma melhor", nas palavras do policial civil José Carlos Picardi, de 39 anos, "por volta da uma da madrugada". Como não havia sinais de violência, deixaram o corpo para a necropsia e um laudo pericial determinará a causa da morte.

Os PMs que tomaram conta do morto levaram quase todo um dia de trabalho observando a aparente calma da madrugada e o início do movimento na rua de comércio popular - o Natal está chegando, as compras devem ser feitas. A viatura permaneceu parada o tempo inteiro. O som do rádio da polícia interrompia o silêncio de quem observava a cena. O contraditório silêncio do centro de São Paulo, em plena 25 de Março, local em que ambulantes gritam mais alto do que soam as buzinas dos carros que tentam atravessar, em passos de tartaruga, uma multidão barulhenta.

O vendedor ambulante Robério Miranda, de 42 anos, disse que é recorrente aparecerem "mendigos mortos de frio". Ele relata, exagerando, que "sempre que esfria muito na cidade morrem dois ou três só aqui no Parque Dom Pedro". Miranda nasceu em Guarulhos, cidade da região metropolitana de São Paulo com mais de 1 milhão de habitantes, e tem 3 filhos. Ele diz que seu nome é a mistura de Roberto, escolha de seu pai, com Rogério, nome preferido pela mãe. "Melhor que Rogerto, né?", brinca. Trabalha na rua há 18 anos. "Aqui eu vejo de tudo, trombadinha, prostituta, mendigo, menos gente rica", comentou rindo e olhando para uma senhora que parou diante da mesinha de madeira, armada sobre dois cavaletes, onde expunha relógios falsificados de marcas famosas. Ele ainda ironiza: "ricos aqui só os chineses donos das lojas".

Na outra calçada, uma grande loja de armarinhos está cheia. Poucos notam o cadáver menos de 20 metros de distância. A viatura da PM encobre a visão de quem passa do outro lado. Os agentes do IML recolhem o finado, colocando-o numa gaveta de alumínio, que é encaixada na caçamba do rabecão. Um dos agentes faz o sinal da cruz. É Jorge Fernades, de 52 anos, morador de Itaquera, zona leste da capital. Católico fervoroso, Fernades diz que sempre reza pela alma dos mortos que recolhe. "Eu tenho o maior respeito pelo corpo, porque o espírito ainda está vendo tudo, e Deus também olha, pois Ele tudo vê", filosofa o mineiro de Curvelo.

No rabecão havia outro cadáver. De acordo com Fernandes, foi assassinado com dois tiros na cabeça, num bar do Brás, bairro tradicional da capital, bem próximo do Parque Dom Pedro. "O sujeito estava de costas para a rua, tomou os tiros na nuca, nem deve ter visto quem atirou", explica o agente. Segundo o mineiro, o "sujeito" se chamava Ronilson e tinha 33 anos, "a idade em que Cristo foi crucificado". Fernandes encaixa a gaveta com a ajuda do outro agente, fecha as portas traseiras do veículo do IML e se despede.

Os PMs já haviam ido embora. A vida voltava ao normal. Um ambulante já ocupava o local em que o morador de rua foi encontrado morto. Outros mendigos caminhavam pelo local, possivelmente procurando algum pertence do falecido, que não foi identificado - não carregava documentos. Morreu anônimo no centro da maior cidade do hemisfério sul. Provavelmente será enterrado como indigente.

Rodrigo De Giuli

2 comentários:

  1. Christianne Fernandes/SP/SP24 de outubro de 2009 19:16

    É triste ver como o ser humano é tratado no Brasil. Gostei muito do texto, profundo e sensível, mas que retrata o que acontece nas grandes cidades. Um abraço e parabens pelo blog!

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